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Bielorrússia: Contesta-se vitória de Lukashenko com 80,23%, UE pede recontagem — Polícia carrega sobre apoiantes de Tikhanovskaya 11 Agosto 2020

"Considero-me a vencedora desta eleição", disse Svetlana Tikhanovskaya a contestar os seus seis vírgula oito por cento contra os 80,23% do adversário, na manhã de segunda-feira. A noite de domingo foi de violentos protestos perante a proclamação da vitória, como de hábito esmagadora, de Alexander Lukashenko. A comunidade internacional pede recontagem dos votos.

Bielorrússia: Contesta-se vitória de Lukashenko com 80,23%, UE pede recontagem —  Polícia carrega sobre apoiantes de Tikhanovskaya

A União Europeia pede a recontagem dos votos e Ursula Von der Leyen "repudia a violência, a repressão da democracia que não devem ter lugar na Europa". A Alemanha, que através do MNE Heiko Maas vocalizou as mais fortes dúvidas sobre a legitimidade da vitória de ontem, já avançou que, se a contagem de voto não for clara, vai rever as sanções contra a república da Bielorrússia.

Entretanto, o presidente reeleito Alexandre Lukashenko afirma que as manifestações estão a ser teleguiadas do estrangeiro. A comunidade internacional está de fato contra o presidente bielorrusso. Apoios apenas de Xi Jinping e de Putin, que foi o único a mandar-lhe um telegrama de parabéns. A prova de que, apesar de Putin e Lukashenko terem nas últimas semanas encenado um dissenso, sobre uma alegada intervenção ilegítima da Rússia na eleição, é forte a aliança entre os dois dirigentes.

Essa proximidade com a vizinha Rússia cultivada por Alexander Lukashenko é tão contestada que os bielorrussos — receosos da "diluição" do país na grande mãe urssa — depositaram todas as esperanças na eleição da professora Svetlana Tikhanovskaya, de 37 anos.

Mãe de duas crianças pequenas, Svetlana começou por apoiar o marido, Sergei Tikhanovsky. Até que ele, como todos os opositores, foi preso — para não concorrer em 9 de agosto.

Svetlana em pouco mais de um mês passou a encarnar a oposição pró-democrata europeísta contra o primeiro presidente bielorrusso e "último ditador da Europa", que governa a Bielorrússia com mão de ferro há mais de 25 anos e manda os opositores para a prisão.

As sondagens mostravam a adesão dos eleitores à mensagem patriota de Svetlana Tikhanovskaya, pela soberania nacional, a não-dependência da Rússia de Putin. Ela que começou como apoiante do marido, teve de assumir-se candidata quando Sergei Tikhanovsky foi preso em maio.

A professora recebeu incentivos de vários candidatos e apoiantes para concorrer contra Alexander Lukashenko que — como diretor da maior empresa agrícola da URSS — foi um dos homens-fortes do regime soviético.

Em todas as eleições desde 1994, dizem os politólogos, o (e único) primeiro presidente do país independente desde 1991 sempre enfrentou vários concorrentes de fachada" — e sempre venceu com mais de 80 por cento dos votos válidos.

Como ontem. Mas esta é a primeira vez que se viu o movimento de apoio tão forte a um candidato da oposição e as sondagens davam-na como vencedora, segundo os media de referência. Uma mudança antevista nos comícios. Ou terá sido onda passageira: a presidente potencial que arrastou multidões para os comícios quedou-se pelos seis vírgula oito por cento.


Bielorrússia: 6º mandato do presidente por fraude ou… talvez não

A super-sobrevivência de Lukashenko no poder explicar-se-á pela idiossincrasia dos bielorrussos, como teoriza o biógrafo Valery Karbalevitch, para quem o presidente longevo é um "refém" do sistema que ele próprio instituiu e que não conseguiu gerar um substituto. No entanto, há defensores da tese de que Lukashenko estará a planear manter-se no poder até 2034, ano em que o filho Nikolai atingiria a idade para ser candidato.

O sistema patriarcal instituído para dar segurança ao povo exigiu um presidente forte ao estilo soviético, segundo Karbalevitch. Para manter essa imagem junto da população, o "Batka" — Paizinho — dos bielorrussos recorreu aos métodos da antiga URSS. Um deles, é o dos Serviços Secretos, que continua a chamar-se KGB.

Outro, o da proximidade com as pessoas comuns, no seu dia a dia. Os media mostram-no frequentemente a trabalhar lado a lado com operários, agricultores, pescadores… Em março foi filmado numa quinta a inspecionar o gado. Insatisfeito com o estado das centenas de bovinos, Lukashenko despediu vários funcionários de topo e demitiu o ministro da agricultura.

O epíteto de "último ditador da Europa", ouvido em Bruxelas, tem um autor: Guido Westerwelle, o anterior ministro dos Negócios Estrangeiros da Alemanha. Esse membro do governo de Merkel é o primeiro declaradamente gay e comentava em Bruxelas uma investigação sobre alegados atropelos aos Direitos Humanos na Bielorrússia. A União Europeia discutia sobre a aplicação de mais sanções ao país e Lukashenko reagiu: "Melhor ser ditador que gay".

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Fontes: Le Monde/BBC/DW. Relacionado: Bielorrússia: 6º mandato do presidente "paizinho" desafiado por professora que lidera sondagens, 08.ago.020. Fotos (AFP/Reuters): Lukashenko. Svetlana. Protestos reprimidos pela polícia já causaram um morto, 79 feridos, 3.000 interpelações e 40 detenções.

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