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Serviços Aéreos em S.Vicente: Impor barreiras artificiais às iniciativas das comunidades é atentar contra a democracia e a paz social 13 Janeiro 2019

O tráfego de Mindelo (ver fotos no roda pé deste artigo) representa um negócio de várias dezenas de milhões de Euros, para não falar da Praia que é bastante superior (e disputado por diversas transportadoras estrangeiras). É legítima e compreensível a pressão que as comunidades fazem (e sempre fizeram) sobre o Estado (accionista único da transportadora de bandeira): quer se queira quer não, a TACV/CVA é uma marca de Cabo Verde e nela sempre se depositaram enormes expectativas. Se negócios e resultados é que contam numa empresa, a marca, o símbolo ou o ícone (vivos) contarão também na gestão de expectativas e na defesa do interesse das comunidades quando políticas públicas estão em causa. Fazer pouco ou impor barreiras artificiais às iniciativas das comunidades é atentar contra a democracia e a paz social.

Por: Mário Paixão*

Serviços Aéreos em S.Vicente: Impor barreiras artificiais às iniciativas das comunidades é atentar contra a democracia e a paz social

Quando o aeroporto internacional de São Vicente foi inaugurado a 22 de Dezembro de 2009, a TACV fez uma aposta nesse mercado, tal como prometera na fase de diálogo com os operadores económicos e planeamento da fase 1 dessa infra-estrutura. Sendo verdade que nada é definitivo no mundo da aviação, o certo é que a TACV foi o player à volta do qual giraram questões ligadas à viabilidade, acessos e conectividade. E não foi por acaso que o Boeing B757 foi a aeronave crítica utilizada para o desenho das facilidades aeroportuárias. A estratégia de construir o Hub do Sal nunca excluiu conexões internacionais de Mindelo e Praia com cidades da diáspora, já que estudos de mercado apontavam um efeito catalisador do aeroporto e empreendimentos industriais e turísticos no tráfego doméstico e internacional, a partir dessas ilhas e regiões.

A TAP Portugal chegou a fazer uma deriva estratégica a 23 de Janeiro de 2010 quando o Expresso das Ilhas editou a manchete “TAP afasta voos para São Pedro”, citando o delegado da transportadora aérea que apontou falta de condições operacionais no aeroporto. No diálogo com a TAP, a ASA deixou clara a sua posição: o aeroporto foi certificado, estava perfeitamente operacional e apto a operar os Boeing 757 da TACV ou os Airbus A319 ou A320 da TAP, havia mercado em S.Vicente e cabia às companhias aéreas configurar as suas rotas (nalguns casos, adaptar a frota) às mudanças na rede aeroportuária nacional.

A 6 de Fevereiro de 2010, a TACV iniciou ligações internacionais com um voo directo Boston-Mindelo para o carnaval 2010, seguindo-se ligações regulares com Lisboa, Paris e Amsterdam. A TAP iniciou operações regulares Lisboa-Mindelo-Lisboa a 1 de Julho de 2011, com dois voos semanais. No final desse ano, o tráfego internacional em S.Vicente cresceu 104,2%, ou seja, passou de 11.376 em 2010 para 23.231 em 2011. A TACV transportou 14.266 passageiros e a TAP 8.659, sendo que a esmagadora maioria desse tráfego foi partilhado com Lisboa 10.107 passageiros, Paris 1.778, Amsterdão 1.657 e Boston 661. Uma meia dúzia de anos depois, a TACV retira toda a sua estrutura operacional de S.Vicente e deixa de voar para essa ilha.

Em sentido contrário, a TAP refina a sua estratégia e investe com força em S.Vicente, incrementando as frequências até às seis ligações semanais actuais com Lisboa, acrescentando mais um fluxo para a consolidação do seu Hub na capital portuguesa. Em 2018 o aeroporto internacional Cesária Évora apresentou um registo de cerca de 90.000 passageiros internacionais (+9% em relação a 2017), a esmagadora maioria na rota com Lisboa. Já em 2017 tinha um registo de +34% de passageiros internacionais. Em sentido contrário evoluiu o movimento de carga que caiu cerca de 30% em 2017 e poderá aproximar-se de uma nova quebra de 50% em 2018, nas vertentes doméstica e internacional. A conclusão óbvia a sacar é que, apesar da ausência de concorrência, falta de alternativas e preços elevados, há um forte crescimento do tráfego de passageiros e um enorme potencial de aumento da procura (e de negócios) que precisa ser estimulado. A problemática das exportações/importações por via aérea precisa de um olhar muitíssimo mais apurado sobre as estatísticas de carga e uma análise atenta do que têm vindo a dizer a população e os operadores económicos.

Após um período de hesitação, a TAP conseguiu adaptar-se bem às mudanças que se operaram no sistema de transportes aéreos em Cabo Verde e prova disso são os 23 voos semanais para Cabo Verde, com ganhos económicos e de conectividade para todos (Cabo Verde, Portugal, comunidades emigradas, empresários, políticos e visitantes num e noutro sentido). Já a TACV parece não ter encontrado ainda a estabilidade necessária para tirar o devido proveito da sua situação privilegiada no mercado étnico internacional. O tráfego de Mindelo representa um negócio de várias dezenas de milhões de Euros, para não falar da Praia que é bastante superior (e disputado por diversas transportadoras estrangeiras). É legítima e compreensível a pressão que as comunidades fazem (e sempre fizeram) sobre o Estado (accionista único da transportadora de bandeira): quer se queira quer não, a TACV/CVA é uma marca de Cabo Verde e nela sempre se depositaram enormes expectativas. Se negócios e resultados é que contam numa empresa, a marca, o símbolo ou o ícone (vivos) contarão também na gestão de expectativas e na defesa do interesse das comunidades quando políticas públicas estão em causa. Fazer pouco ou impor barreiras artificiais às iniciativas das comunidades é atentar contra a democracia e a paz social.
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* EX-Presidente do CA da ASA (Post na sua página de facebook)

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