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São Tomé: António Tomás de Medeiros, médico, combatente pela liberdade em Angola, poeta morreu em Lisboa 10 Setembro 2019

Aos oitenta e sete anos, morreu em Lisboa no domingo, 8, António Tomás de Medeiros, nascido em São Tomé, angolano por opção, combatente pela independência da sua terra e de Angola, de ambas regressou dececionado a Portugal onde se fixou depois da independência e se naturalizou. A compreensão do seu legado requer alguma distância temporal necessária. Para já, a biografia enaltece o seu combate contra o colonialismo, a sua criação poética figura em antologias como ’No Reino de Caliban’.

São Tomé: António Tomás de Medeiros, médico, combatente pela liberdade em Angola, poeta morreu em Lisboa

António Tomás de Medeiros (cidade de São Tomé, 05.11.1931 - Lisboa, 08.09.2019) conta em entrevista recente publicada na revista da Universidade de Coimbra que, dois ou três anos depois de completar o ensino primário, o pai, um ’branco’, decidiu mandá-lo para Angola a fim de continuar os estudos.

No horizonte, estava a perspetiva de rumar a Portugal para tornar-se médico. A vida mostrar-lhe-ia vários caminhos e ele seguiu-os todos até abandonar Portugal estando no 5º ano do curso de Medicina, em Lisboa (completaria o curso na então URSS).

Os primeiros anos do liceu estudou-os em Nova Lisboa, futura Huambo, a partir dos treze anos. Em 1946 ruma a Lisboa para completar o liceu. É na capital do Império que vai fazer a sua formação política, na Casa dos Estudantes do Império. O ponto de encontro de estudantes que viriam a ser figuras proeminentes das lutas anticoloniais: Agostinho Neto, Lúcio Lara, Marcelino dos Santos.

O estudante liceal conhece Amílcar Cabral aos quinze anos. O encontro parece ter sido determinante para a sua formação como combatente e como poeta.

A amizade com Agostinho Neto levá-lo-ia a aderir ao MPLA, o movimento de libertação de Angola, que o prepararia para fundar o movimento pela independência de São Tomé, o MLSTP. Mais tarde, no pós-independência esteve em Angola onde contribuiu para lançar as bases do sistema de saúde angolano.

Em 1975, em São Tomé desiludiu-se com os antigos camaradas, tal como aconteceu em Angola, onde esteve de julho de 1976 a outubro de 1977. Voltou para Portugal, ao fim de pouco mais de um ano de muitas lutas inglórias e dificuldades, desiludido — as figuras como Agostinho Neto "esqueceram o povo. (...). O povo continua a viver na miséria. Pior ainda(...), podemos dizer: antigamente vivia-se melhor. Os filhos desses africanos ricos (...) vivem melhor, (...) são todos milionários, têm dinheiro na Suíça, na Inglaterra, em França, em Portugal, numa série de sítios. Mas o povo está na miséria, o povo vive pior. Em S. Tomé havia escravos, mas depois da independência, o que é que aconteceu? Miséria total. Hoje em São Tomé há fome, antigamente não havia fome. A independência era necessária, não tínhamos nada que ser colonizados. Agora, o que é que a independência trouxe? (...) Todo o negro hoje quer ser presidente, quer ser ministro, quer ser embaixador, quer ser milionário. Não há um conflito ideológico, mas de tacho. Esses ganharam com a independência. O povo continua na miséria (...)".

Escritor

Entre as suas obras da juventude constam sobretudo poemas — que figuram em antologias de poesia africana de língua portuguesa, como ’’No Reino de Caliban’’ e ’’Antologias de Poesia da Casa dos Estudantes do Império/1951-1963’’.

Escreveu ainda ’’Quando os Cucumbas Cantam’’ e, por fim, antes de cegar completamente, termina em 2012, o polémico livro ’A Verdadeira Morte de Amílcar Cabral".

’’A Verdadeira Morte de Amílcar Cabral"

O título do livro de 160 páginas pode ter uma interpretação ambígua. Ao percorrer as suas cento e sessenta páginas, essa interpretação não se clarifica.

Quem matou Amílcar Cabral? Pergunta sem resposta. Que continua, quando o autor, dois ou talvez mais anos depois do livro, responde em vídeo a circular na internet, dizendo o nome de um falecido dirigente. Aqui, as dúvidas adensam-se mais: porque não o disse quando ele vivia?

No livro, a dado trecho o autor considera que "não vale a pena procurar assassinos, mas sim estudar a filosofia política de Amílcar Cabral, que punha em causa os interesses das potências ocidentais, os verdadeiros mentores da morte de Cabral".

Fontes: Obras referidas. MLL

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