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Robert Mugabe: De herói da libertação a ditador 07 Setembro 2019

Morreu, esta sexta-feira, 06, aos 95 anos, Robert Mugabe, um dos chefes de Estado mais controversos de África. Ao tentar perpetuar-se no poder, Mugabe acabou por destruir o legado positivo de líder da luta pela libertação e fundador da nação.

Robert Mugabe: De herói da libertação a ditador

Por muito tempo e para muitos africanos, Robert Mugabe foi o líder radiante que conquistou a independência do Zimbabué da Grã-Bretanha em 1980. Mas ao longo da sua Presidência, que ameaçava eternizar-se, a imagem de Mugabe foi ficando cada vez mais sombria. Para o Ocidente, o mais tardar a partir do final da década de 1990, Mugabe passou a ser visto como um ditador brutal que levou o seu país à ruína.

Robert Gabriel Mugabe nasceu em 1924 numa pequena aldeia a sul de Salisbury, a capital da então colónia britânica da Rodésia do Sul. Os seus pais eram simples agricultores e católicos praticantes. Mugabe frequentou várias escolas católicas jesuítas. Segundo os seus biógrafos, era uma criança tímida que guardava a distância em relação à maioria das pessoas. "Seus únicos amigos são os livros", afirmou o seu irmão Donallo na biografia "Jantar com Mugabe".

Depois da formação como professor primário, Robert Mugabe estudou na Rodésia do Sul, Tanzânia e Gana. Ao longo da sua vida obteve sete títulos académicos, três deles na prisão. Foi no Gana que conheceu sua primeira mulher, Sally, durante muito tempo a sua melhor amiga e conselheira política. Quando regressou à Rodésia do Sul, em 1960, Mugabe juntou-se ao movimento de libertação. Primeiro, combateu o poder colonial britânico, mais lutou contra o governo minoritário branco de Ian Smith, proponente de um sistema rígido de segregação racial. Em 1964, Mugabe foi detido e encarcerado durante mais de dez anos.

Guerra da independência e crescimento económico

Mugabe não foi sequer autorizado a ir ao funeral do seu filho, em 1966. E depressa se tornou um herói popular para os zimbabuanos negros.

Depois da sua libertação em 1975, Mugabe liderou, a partir de Moçambique, a luta pela independência da Rodésia do Sul. Nas primeiras eleições, em 1980, foi eleito primeiro-ministro. Em público, promovia a reconciliação: "Quero pedir-vos, quer sejam brancos ou negros, que esqueçamos juntos o nosso passado sombrio, nos perdoemos mutuamente e estendamos a mão da amizade", disse, depois de tomar posse.

Nos anos que se seguiram, Mugabe introduziu a educação gratuita e cuidados básicos de saúde para as pessoas com baixos rendimentos. As suas reformas levaram a um apreciável crescimento económico. A esperança de vida aumentou. A rainha britânica nomeou-o cavaleiro e Mugabe passou a ser visita bem-vinda em muitas capitais ocidentais. O então Presidente federal alemão Richard von Weizsäcker descreveu-o como "um político inteligente e prudente, apostado no equilíbrio".

Viragem política

Mas foi nessa altura que o povo no Zimbabué começou a conhecer o outro lado do combatente pela liberdade. Em 1982, após um atrito com o seu antigo aliado, Joshua Nkomo, o exército de Mugabe matou milhares de apoiantes de Nkomo. Três anos depois, os dois adversários assinaram um cessar-fogo. Mugabe nomeou Nkomo vice-Presidente.

Sally, a mulher de Mugabe, morreu em 1992. A partir desse momento, tanto a sua vida privada como o seu curso político sofreram grandes alterações. O Presidente passou a viver com a sua antiga secretária Grace, com quem mantinha um relacionamento extraconjugal há anos. Casaram-se em 1996. Ao contrário de Sally, Grace sempre foi uma primeira dama muito impopular. Tinha a alcunha "Gucci Grace", uma alusão às suas viagens de compras por todo o mundo, consideradas excessivas.

Enquanto a população se via obrigada a lidar com surtos de cólera, escassez de alimentos e inflação galopante, o casal presidencial vivia no luxo. Só a celebração do 88º aniversário de Mugabe terá custado mais de um milhão de euros. Quando completou 91 anos, o velho governante mandou abater numerosos elefantes, e serviu 91 quilos de bolos na forma das cataratas de Vitória num hotel de luxo. A oposição criticou a celebração como "obscena".

País à beira do abismo

O Ocidente acabou com Mugabe em 2000, depois de o Presidente aprovar a ocupação de fazendasdos brancos zimbabuanos por veteranos da guerra civil. Embora os brancos representassem apenas um por cento da população, possuíam cerca de 70 por cento das terras agrícolas. Mugabe justificou esta política com a necessidade de restabelecer o equilíbrio económico entre agricultores brancos e negros. "O homem branco não está em casa em África. A África pertence aos africanos! E o Zimbabué pertence aos zimbabuanos", disse o governante. Mas a grande maioria das terras ocupadas foi distribuída entre políticos e amigos de Mugabe.

Muitas fazendas foram abandonadas logo a seguir porque os novos proprietários não tinham conhecimentos de agricultura. O resultado foi uma crise económica sem precedentes. Em 2008, a taxa de inflação situou-se na faixa dos triliões - um triste recorde mundial. Mugabe culpou as sanções impostas pelo Ocidente.

Dada a acumulação de violações dos direitos humanos, fraudes eleitorais e restrições à liberdade de imprensa, os EUA e a Europa acabaram por declarar Mugabe persona non grata. Foram-lhe negados vários prémios, incluindo dois doutoramentos honorários. E no Zimbabué, o governante de longo prazo tornou-se uma figura altamente impopular. Em 2008, o seu partido perdeu as eleições parlamentares.

A África do Sul forçou Mugabe a formar uma coligação com o partido Movimento para a Mudança Democrática (MDC) do seu rival Morgan Tsvangirai. A coligação terminou com as eleições em 2013: Mugabe e o seu partido saíram vitoriosos. O veterano foi empossado pela sétima vez para um mandato de cinco anos.

O fim

Nos últimos anos do seu mandato cresceu a pressão para a sua demissão, mas Mugabe tentou agarrar-se ao poder. Colocou a mulher, Grace, em posição para lhe suceder na chefia do Estado, num esforço para criar uma dinastia. Os militares puseram fim às suas ambições em 14 de Novembro de 2017, colocando-o em prisão domiciliária a no que foi, de facto, um golpe militar.

Uma semana depois, o Presidente de 93 anos foi oficialmente forçado a demitir-se. O seu amigo de longa data, Emmerson Mnangagwa, tornou-se o novo Presidente. Autorizou Mugabe a viajar, conferiu-lhe a imunidade judicial e deu-lhe uma indemnização milionária. Robert Mugabe, cujo estado de saúde era já nessa altura era muito frágil, acabou por morrer na noite de sexta-feira (06.09), aos 95 anos de idade, depois de ter passado vários meses num hospital em Singapura.

O líder do partido da oposição MDC, Nelson Chamisa, resumiu o legado de Mugabe: "Mugabe foi um dos fundadores do nosso país. Mas o seu estilo de governação também levou a décadas de disputas e um preço elevado a pagar pelos zimbabuanos". Muitos recordarão para sempre Robert Mugabe como o antigo combatente pela liberdade que se tornou num ditador. C/ DW-África

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