OPINIÃO

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Potenciais impactos da pandemia COVID-19 sobre os sistemas alimentares e alguns ensinamentos para o pós-crise 20 Maio 2020

No meu entender, a crise provocada pela COVID-19 vai fazer crescer o número de aderentes a movimentos como o SLOW FOOD, é a minha percepção. Portanto, o contexto PÓS-COVID-19 será marcado por um aumento da valorização e da procura por produtos tradicionais, artesanais e locais. Os governos irão intensificar os programas com foco no desenvolvimento de regiões rurais.

Por: Vladmir Silves Ferreira *

Potenciais impactos da pandemia COVID-19 sobre os sistemas alimentares e alguns ensinamentos para o pós-crise

As transformações ocorridas no mundo rural, sobretudo nos últimos 200 anos, foram marcadas por uma forte expansão da indústria agroalimentar. Os agricultores passaram a produzir prioritariamente para abastecer as grandes redes agroindustriais. A concentração da população nas cidades e o êxodo rural criaram um maior distanciamento entre a cidade e o campo.

A circulação de bens a uma escala planetária e novas formas de organização do trabalho fomentaram novos hábitos alimentares, naquilo que o sociólogo alemão George Ritzer chama de Mcdonalização dos nossos hábitos de consumo, e criou um modelo de distribuição de alimentos ultraprocessados centrado em circuitos longos, afastando cada vez mais os produtores dos consumidores.

É nesta sequência que a agricultura se incorpora naquilo que Karl Polanyi chama de SOCIEDADE DOS MERCADOS e passa a adotar os mesmos parâmetros e modelos de produção aplicados nas indústrias urbanas e se insere no mundo globalizado e em rede conforme definido pelo Sociólogo Espanhol Manuel Castells.

A industrialização dos alimentos é marcada por dois aspe
tos fundamentais: primeiro, a artificialização dos alimentos; segundo, a separação entre a produção e consumo.

Esta separação é potencializada pelo incremento nos processos de produção que proporcionaram um significativo aumento da vida útil dos alimentos e um sistema de distribuição em escala internacional. Os supermercados e as redes distribuidoras de alimentos ofertam todo tipo de produtos oriundos das mais distintas regiões do mundo.

Portanto, neste modelo de relações entre o produtor e consumidor não importa em que parte do mundo uma pessoa se encontra (pelo menos dentro dos territórios ditos globalizados). Há todo um aparato logístico e tecnológico que lhe proporcionarão o acesso às mesmas maçãs, bananas, mesmas peças de frango, etc.
Porém, mesmo antes da COVID-19, este crescente distanciamento entre a produção e o consumo já vinha gerando desconfianças, questionamentos e duvidas sobretudo depois da crise das vacas loucas na década de 1990.

A crescente desconfiança gerada por escândalos como a crise das vacas loucas e a artificialização dos alimentos fez surgir um movimento de contra-resposta as referências neo-liberais e globalizantes aplicadas ao setor alimentar. É neste contexto que surge movimentos como O SLOW FOOD e o COMERCIO JUSTO e que mostra que uma parcela da população está alerta e crítica em relação aos RISCOS associados a este processo de HOMOGENIZAÇÃO ALIMENTAR.

É nesta época que surge toda uma literatura no campo das ciências sociais voltada para a questão do RISCO tendo o sociólogo alemão Ulrich Beck como principal referencia. Beck já tinha alertado nos meados da década de 1980 para a necessidade de se começar a pensar em novas formas de relação com os riscos, em consequência das várias transformações ocorridas na sociedade.

Para Beck as sociedades humanas sempre enfrentaram perigos e historicamente os perigos costumavam ser sobretudo de ordem natural (tremores de terra, inundações, etc). Contudo, a ciência, a tecnologia e a indústria ao mesmo tempo que criaram prosperidade também trouxeram novos perigos.

Num mundo global os riscos locais se tornam globais. Os métodos tradicionais de calculo de riscos se tornaram obsoletos em relação a novos tipos de riscos como pandemias de saúde, catástrofes nucleares ou doenças causadas pela ingestão de alimentos geneticamente modificados.

Pelo olhar dos sociólogos, nós podemos assim concluir que o que estamos a viver atualmente com esta pandemia se enquadra naquilo que Giddens apelida de as CONSEQUÊNCIAS DA MODERNIDADE .

Contudo o numero dos afetados pela pandemia e a sua distribuição geográfica, pelo menos até o presente momento, nos mostra que o impacto é maior nos países ditos desenvolvidos, algo que nos remete para a tese do pensador indiano Arjun Appadurai de que as sociedades se apropriam de maneira diferente do pacote proposto pela modernidade.

No meu entender, a crise provocada pela COVID-19 vai fazer crescer o número de aderentes a movimentos como o SLOW FOOD, é a minha percepção. Portanto, o contexto PÓS-COVID-19 será marcado por um aumento da valorização e da procura por produtos tradicionais, artesanais e locais. Os governos irão intensificar os programas com foco no desenvolvimento de regiões rurais.

Portanto, reinventar os mercados locais, aproximar produtores e consumidores, estimular a compra de alimentos de base ecológica em circuitos curtos de comercialização são alguns dos desafios que os países terão nos próximos tempos por forma a desenvolverem modelos de produção que garantam maior autonomia e soberania perante futuras situações de crises e de perturbações na circulação de mercadorias e de pessoas a uma escala global ou regional.

Na minha opinião Cabo Verde não deve ficar de fora deste debate. Logo que se ultrapasse esta fase mais crítica será preciso uma ampla reflexão em torno das metas e programas até agora implementadas para o desenvolvimento local e de promoção de oportunidades para as populações do mundo rural.

O sonho do mercado turístico (a tal galinha dos ovos de ouro) como a salvação para a agricultura nacional ficou claramente posta em causa com esta crise. Com isso não quero dizer que este seguimento deixará de ser importante mas sim que deverá ser complementado com a aposta em outros importantes mercados (escolas, hospitais, quarteis, estabelecimentos prisionais, nichos na diáspora, etc.) e por uma maior aposta em menus com base em produtos frescos e nacionais.

No que toca ao combate à fome e à insegurança alimentar (sobretudo em momentos de crise) ficou por demais evidente que precisamos discutir se as cestas de apoio aos mais necessitados devem ser "básicas" e a serem básicas que componentes (em termos calóricos, nutricionais, etc.) devem ser consideradas indispensáveis (a composição de uma cesta básica não deveria ser definida por lei?).
Para um amplo debate e recolha de subsídios sobre esta questão o Ministério da Agricultura dispõe de um importante instrumento que é o CONSELHO NACIONAL PARA A SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL (que infelizmente não se reúne a quase dois anos) enquanto um órgão com uma ampla participação de organizações da sociedade civil envolvidas no combate à fome e demais organismos do estado ligados a saúde e ao controle sanitário.

Esta pandemia também deixou em aberto entre nós um debate por fazer sobre como melhor organizar o nosso sistema de previdência social; como melhor inserir as atividades ditas informais no mercado formal. A agricultura é ainda uma atividade muito pouco inserida no sistema formal em grande parte porque a nossa máquina burocrática insiste em aplicar os mesmos princípios mercadológicos utilizados na indústria e nos serviços e pouco esforço tem sido feito no sentido de se compreender que a agricultura é na sua essência uma forma de vida.
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*Doutor em Ciências Sociais e Professor Universitário

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