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Polémica das armas: Falta de estatísticas sobre vidas salvas 20 Fevereiro 2018

Nesta ocasião, em que sob a justificada emoção causada pelos massacres mais recentes vemos manifestações várias e vozes “avisadas” a pedirem leis contra a proliferação de armas de uso individual, é tempo de trazer à pedra a questão crucial: O que dizem as estatísticas sobre vidas salvas graças às armas? Esta é uma questão nada despiciente, mesmo na nossa República da ’Morabeza’ idealizada como um país sem guerra, onde reina a paz social, como traduz o “Canta, irmão”, primeiro verso do hino nacional … Um retrato idílico que esquece que em toda a sociedade há conflitos.

Por: David José Salomão*

Polémica das armas: Falta de estatísticas sobre vidas salvas

Conflitos que — decorrentes quer do facto de sermos inevitavelmente filhos de Caim e de Abel, quer das circunstâncias de um país pobre, sem petróleo nem diamantes — têm vindo a ser resolvidos com recurso à própria idiossincrasia cabo-verdiana guiada pela inteligência, mas que na sua maior parte precisam de soluções proporcionais à sua gravidade. Exigindo pois outras medidas – que aliás a mesma inteligência deve orientar na hora da sua conceção e implementação, comparando inevitavelmente com outras realidades do planeta global.

As estatísticas dizem muito de vidas infelizmente perdidas devido ao uso de armas. Deixadas descontroladamente ao alcance de pessoas que não tinham idoneidade nem moral nem de inteligência para ter uma arma nas mãos. Um recente estudo, consultável online, dá conta que da média de 335.600 mortes anuais por arma de fogo, desde o início deste século, a proporção é de 39% de homicídios contra 61% de suicídios – significando que é preciso impedir que uma pessoa mentalmente incapaz tenha acesso a uma arma.

Relatos pessoais, já que as estatísticas escasseiam e são menos divulgadas, dizem de vidas felizmente salvas, de crimes evitados, graças a uma arma licenciada para uso defensivo. Divulgados na net, relatos dão conta de uma trintena de casos, todos na primeira semana de novembro último, em que o uso de uma arma evitou o pior.

Um em Norte Carolina: um adolescente assaltado ripostou matando o assaltante armado e levou à prisão dois dos três assaltantes, todos com idades à volta dos 17 anos. Outro em Las Vegas: um homem viu um idoso a ser esfaqueado por um jovem familiar e impediu a continuação do crime, ameaçando o agressor com uma espingarda. O último exemplo que destaco aconteceu no Missouri: a vítima reagiu e pôde dominar os dois assaltantes armados, até à chegada da polícia.

A questão crucial é pois o controlo legal das armas. O seu fabrico, venda e uso controlados, de acordo com a lei e com base na investigação científica multidisciplinar que deve orientar as medidas a implementar. Desde a criação de uma base de dados nacional, atualizada, para cada arma (o que deve permitir a denúncia de posse de arma, em condições especiais, incluindo o anonimato). A referida base de dados, cabo-verdiana, pode beber da experiência dos países com sucesso na sua implementação, como a Suiça, bem como da mal sucedida tentativa sob Obama.

Uma ação a empreender em concomitância com a atuação sobre as causas, já identificadas, de desestruturação da nossa sociedade mundial. Essas desestruturações são causa mas também podem ser efeito de tantos comportamentos anómalos (mais visível nos Estados Unidos, porque primeira potência).

A ação tem de ser consequente, pois, com os resultados esperados, a saber: i) Armas utilizadas por gente idónea, com formação técnica, com preparação psicológica, moral enfim, com a ficha limpa; ii) Armas fora do alcance de criminosos e de pessoas com perturbações mentais. Isto tendo em conta que ainda está longe um mundo sem guerra, onde reine a paz social e o “Canta irmão” seja sonho tornado realidade.

*Professor
— -

Ilustração: Controlo de armas podia ter evitado vidas destruídas por Aaron Hernandez (na foto, com o filho recém-nascido, que vai crescer sem o pai) se com o diagnóstico da doença mental lhe tivesse sido proibido o acesso ao revólver com que matou três pessoas.

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