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A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

"Ninguém quer casar, querem casar os padres" 01 Julho 2020

Será ou não o busílis da questão, mas facto é que o celibato dos padres volta à pedra de tempos em tempos. Esta semana em Portugal e a propósito da eleição do bispo de Setúbal para presidir à Conferência Episcopal Portuguesa, o tema voltou à agenda mediática o que levou um padre a exclamar: "Agora ninguém quer casar, mas querem casar os padres".

O autor do artigo de opinião "Uma agenda que não é nossa", no online O Sol de hoje assinado pelo padre Edgar Clara, começa por questionar a oportunidade do tema. Admira-se, o autor, que a eleição do bispo dom José, "homem notável na sua formação" que "ouve os gritos da humanidade", não tenha suscitado a atenção para todo o "notável trabalho" desenvolvido por dom José Ornelas "numa das dioceses mais pobres do país". Diga-se de passagem que o distrito de Setúbal acolhe uma importante comunidade cabo-verdiana.

A agenda da Igreja é, defende o articulista, "continuar a missão" de "iluminar os que vivem cegos, curar os enfermos, anunciar a boa-nova e ressuscitar todos os homens que vivem mortos e expulsar os demónios que atormentam o homem".

Daí, prossegue, que a preocupação não deve ser "ter padres casados" mas sim "ter padres santos".

Celibato dos padres: de fonte de virtude a poço fundo de pecados

"Os padres não casam", dizia um pai ao filho que manifestou precocemente essa vontade. O menino dizia estar ciente disso. O futuro levou-o por outros caminhos e hoje diz-me que isso "foi coisa de criança". Outro fez a escolha já entrado na vida adulta, atraído pela possibilidade de "levar uma vida de estudo e de dedicação exclusiva aos que mais sofrem", diz-me.

O celibato dos padres? Perguntem ao povo que por séculos nos vales e vilas destas ilhas conviveram bem com "os sobrinhos dos padres". Uma dissimulação para manter o statu quo ou para proteger da fiscalização curial?

Perguntem ao povo que durante séculos tolerou os filhos dos padres. Povoadores de zonas remotas, agrestes, como as Beiras em Portugal, leiam o Aquilino ou o Camilo.

Será ou não o busílis da questão, mas facto é que o celibato dos padres volta à pedra recorrentemente. Sempre que pairam nuvens pesadas sobre a pretensa associação entre celibato e pedofilia. Como se não existissem crimes vitimando crianças fora da igreja e cometidos por casados (homens sobretudo, mas não exclusivamente).

Capelão, pai, casado e sacerdote da Igreja Católica

A biografia do primeiro médico registado na história da medicina em Cabo Verde surpreende com a informação de que "o pai capelão" o mandou estudar em Paris.

A pergunta surge diante da constatação registada pela história de Cabo Verde segundo a qual os padres promoviam casamentos de escravos desde os primeiros séculos da formação da nação cabo-verdiana como meio de evitar a separação das famílias. Causa e ou efeito das muitas quezílias que sedimentaram a história nacional e de que as gavetas da Torre do Tombo contêm memória empoeirada e próxima de extinguir-se.

Há uma parte de padres católicos que podem casar? Seria esse o caso do pai do doutor Júlio José Dias?

Neste momento, é impossível saber porque são poucos os dados registados sobre os progenitores da admirada personalidade sanicolauense. Uma sua biografia online justifica a sua formação em Paris com o facto de que a família "era possuidora de grandes bens, um pouco pelo cargo do seu pai, José António Dias, capelão-mor de São Nicolau".

Por outro lado, está disponível, sim, uma série de fontes webgráficas sobre padres católicos casados. Sites católicos têm vindo a divulgar alguns casos, excecionais, de pastores anglicanos que se converteram ao catolicismo e foram autorizados a serem ordenados sacerdotes na sua nova fé. Um deles é o padre inglês Ian Hellyer, casado e pai de nove filhos, a mais velha com 18 anos e o mais novo bebé de meses. A história está contada no site catholiccitizens.org/views/53497/the-catholic-priest-with-nine-children.

Outro, o padre Jonathan Duncan é o caso mais recente. Em 2013, o então pastor protestante da Carolina do Sul, Estados Unidos, converteu-se ao catolicismo, e com ele a esposa e os quatro filhos menores. Pouco depois, como o próprio explica en entrevista à Legatus, online, "a Igreja deu-me uma especial provisão que me permitiu ser ordenado" sacerdote e capelão.

O padre, que se afirma "muito grato" com a autorização, contudo garante que "nunca teria levado a mal que a Igreja não ma tivesse dado".

Aliás, o padre casado afirma que não é defensor de que a Igreja Católica deva abrir mão do celibato dos padres. E baseia-se na sua própria experiência para garantir que o sacerdócio obriga a uma entrega que é demasiado penosa para a esposa e família dum padre.

"São as esposas que têm de suportar o fardo de ter o marido fora de casa várias noites por semana, porque ele tem de estar junto de quem precisa".

O padre Duncan entende que ser casado lhe dá "uma experiência subjetiva" que pode ajudar a entender certos desafios da vida conjugal dos seus paroquianos. Mas considera por outro lado que "em certas ocasiões, é indispensável a objetividade de alguém com a experiência do outsider, que vem do celibato".

São dois casos ilustrativos do que disse o papa Francisco: Celibato não é um dogma e "a porta está sempre aberta"(publicado aqui em 28.5.2014).

"O celibato é um dom para a Igreja" – Papa rejeita ordenação de padres casados

Uma série de artigos, publicados neste online desde o pontificado de Francisco, mostra que há uma abertura da Igreja para encontrar "soluções" (Papa quer encontrar "soluções" para o celibato na Igreja, 14.7.2014), bem como para defender que o celibato é um dom (como no título deste entretítulo, datado de 29 de janeiro do ano passado).
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Fotos: Busto na cidade da Ribeira Brava, São Nicolau, do primeiro médico registado na história da medicina em Cabo Verde, cuja biografia diz que "o pai capelão" o mandou estudar em Paris. Mais recente, o padre Ian Hellyer, convertido da Igreja Anglicana, fotografado com a esposa e alguns dos seus nove filhos.

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