DIÁSPORA

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

Morre em França o ativista cultural Djone de Neza 23 Novembro 2018

O artista João Andrade, 62 anos, filho do conhecido Artur Box de S.Vicente, acaba de morrer em França, onde residia. Activista cultural e desportivo carismático, deixou muita falta á comunidade cabo-verdiana ali radicada, que está de luto como também acontece com a sua ilha natal de S.Vicente e Cabo Verde em geral. Andrade foi acima de tudo «homem de música e compositor entre os amigos e camaradas». Como declamador, John de Neza esmerava, como escreve David Leite, na crónica que se segue.

Morre em França o ativista cultural  Djone de Neza

PERDEMOS O JOHN DE NEZA!

Ontem fui despedir-me do John. Um derradeiro adeus. Passei com ele as suas últimas horas, no convívio dos seus entes queridos, as máquinas já desligadas do fôlego moribundo que o prendia ainda a esta vida, mas o semblante sereno, como iluminado pelas luzes da longa viagem sem regresso.

João Andrade, 62 anos, filho de Artur Box que foi muito conhecido lá em S. Vicente. Homem de música e compositor entre os amigos e camaradas. Como declamador, John de Neza esmerava! Os pelos eriçavam-se quando ele recitava “là-bas, dans le loinain” que ele mesmo escreveu – o rapaz também era poeta.

Um “là-bas” que nunca mais voltou a ver de seus olhos vistos mas que era o seu oxigénio. Quantos caboverdeanos na terra-longe carregando consigo essa ambígua dicotomia entre a saudade e a realidade, entre o “lointain” dos seus sonhos e o espectro de uma integração de todos os dias…

Conhecemo-nos na tropa, jovens na flor da idade. Já não me lembro se foi nos finais de 1977, eu recruta, ele sargento-instrutor no Centro de Recrutamento Político-militar Zeca Santos em Tarrafal de Santiago. Ou, mais seguramente, quando voltei ao Centro no ano seguinte, vindo do Sal, desta vez como instrutor, e ele já la estava, instrutor também. Brioso rapaz: muito educado nos gestos como no físico bem esculpido, desportista, karateca. Era dos primeiros voluntários das FARP. Mas não era como certos colegas seus formados em Cuba, que com injúrias e maus-tratos descontavam suas raivas e frustrações da vida nos imberbes mancebos. Até suicídios houve: penso no meu amigo Djulai, injuriado e esbofeteado por um sargento no quartel de S. Vicente, atirando-se de um segundo andar à vista da tropa em parada!

Pois dizia eu que ficámos amigos no Tarrafal, o John e eu. Amigos inseparáveis. Depois, do quartel para fora, cada um foi à sua vida e perdemo-nos de vista. Até que um belo dia, num restaurante em Paris, qual não é a minha surpresa: John de Neza! Muito activo nos círculos musicais caboverdeanos, porém andava um pouco desiludido. Homem franco e sensível, generoso e completamente despegado de matéria, John de Neza não era pessoa de combinas e amigos da onça. Com os bons amigos que lhe restavam (o Pedro Djazz, o David Vieira, o Danny Figueira), organizava uns espectáculos no liceu onde trabalhava como educador desportivo. Também lá fui e adorei. E vi o quanto ele era estimado pelos alunos e por todo o corpo docente.

Eu, ganhei um fiel colaborador que muito me apoiou nas minhas actividades culturais e comemorativas em França. O John esteve activamente ao meu lado na “journée portes ouvertes” da Embaixada em 2006 (apresentação das novas instalações ao público) e em diferentes festividades da independência (Sarcelles, S. Denis, Paris…). A meu pedido me acompanhou e declamou poemas meus num recital de poesia a que tive a honra de ser convidado.

Saíamos com frequência, e eu reintroduzi-o nos círculos caboverdeanos que já pouco frequentava. Quem convivia com John de Neza, rapaz alegre e bon-vivant, não via nele um homem consumido por algum desgosto amoroso e outras mágoas. Muitos passados, família dispersa, a música era para ele um bálsamo: há uns anos juntou a sua voz a outras vozes num álbum colectivo.

Até que um dia, sem mais nem menos, o John voltou a desaparecer! Mesmo a Marie lhe perdeu o rasto! Marie, uma reunionesa que o amava profundamente lamentando o seu desafecto. É assim o coração, quem eu quero não me quer, quem me quer... E era assim o John, somá-cambá!

Em 2013, quando voltei a vê-lo, estava ele numa cama de hospital recuperando de um AVC que lhe deixou graves sequelas. Mas, de hospital em hospital, lá ia dando sinais de franca melhoria, a família e os amigos ganhando ânimo...

Mas desta vez o coração disse stop. John de Neza já não volta. Fica na lembrança dos que tiveram a felicidade de conviver com ele.

Mantenhas da terra longe, 23 de novembro de 2019

David Leite

Os artigos mais recentes

100% Prático

publicidade





Mediateca
Cap-vert

Uhau

Uhau

blogs

publicidade

Newsletter

Abonnement

Copyright 2018 ASemana Online | Crédito: AK-Project