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"Ministro da Cultura prejudica-me", denuncia César Schofield Cardoso, excluído do projeto fotográfico sobre a morna por interferência de Abraão Vicente 19 Outubro 2019

O artista escreveu na sua página de Facebook uma "Nota de Indignação" que está a receber apoios de uma franja significativa da sociedade cabo-verdiana. "Pela primeira vez o Ministro da Cultura e das Indústrias Criativas (MCIC) da República de Cabo Verde prejudica diretamente a minha vida profissional. É um evento de toda a gravidade a várias dimensões!", indigna-se César Schofield Cardoso, no post que publicou na sua página de face facebook, explicando a sua exclusão de um projecto fotográfico sobre a morna que envolvem jornais estrangeiros e nacionais. «Tendo sido convidado a produzir uma série fotográfica por um jornal estrangeiro que, junto com um jornal em Cabo Verde, está a desenvolver um trabalho sobre a Morna, em que o MCIC apoia ou co-patrocina, ao tomar conhecimento do meu envolvimento no projeto, o Ministro da Cultura e das Indústrias Criativas da República de Cabo Verde, opõe-se aberta e despudoradamente, alegando que sou não-alinhado com o Governo», denuncia César Schofield Cardoso. Confira o post referido, que publicamos a seguir.

Tendo sido convidado a produzir uma série fotográfica por um jornal estrangeiro que, junto com um jornal em Cabo Verde, está a desenvolver um trabalho sobre a Morna, em que o MCIC apoia ou co-patrocina, ao tomar conhecimento do meu envolvimento no projeto, o Ministro da Cultura e das Indústrias Criativas da República de Cabo Verde, opõe-se aberta e despudoradamente, alegando que sou não-alinhado com o Governo!!..Que não concorda com a minha indicação, sem explicitar nenhuma razão objectiva, a não ser esse “não-alinhamento”. Vamos a ver onde já chegamos!

Para esse trabalho fui indicado por uma curadora internacional que já trabalhou comigo e que de mim guardou boas referências. Fui também indicado por pessoas em Cabo Verde, que forneceram as melhores referências. Para esse trabalho, em conversa franca com o editor do referido jornal, expliquei as diferenças entre o meu trabalho artístico, de forte pendor político, e do meu trabalho por encomenda, o qual tenho feito e tento ser o mais aprimorado possível. Para esse trabalho, o editor do referido jornal, que acredito que tenha as mais elevadas preocupações com a qualidade, não tendo experiência de trabalhar comigo, apostou na minha sensibilidade, franqueza, experiência e nas referências dadas. Poderia o jornal, com o seu gabarito, avançar na mesma com as negociações comigo, que até já estavam no ponto de acertar detalhes de produção? Podia sim, mas alguém está para indispor um governante de outro país? Não e nem eu próprio aconselharia.

Sr. Ministro da Cultura da República de Cabo Verde - país de onde sou nascido, criado e cidadão - eu vivo exclusivamente do meu trabalho. Não tenho participação em Conselhos de Administração, não sou financiado pelo Estado de Cabo Verde, não tenho riquezas herdadas e outras fontes de rendimento. Sou fotógrafo, videógrafo e desenvolvedor Web independente. Nessas áreas que referi, luta-se todos os dias por trabalho, por sobrevivência e mal conseguimos ganhar para outros luxos que não sejam viver. A sua interferência é pessoalmente grave, além de outras considerações, como sejam a sua postura enquanto dirigente do Estado e do sector onde tento trabalhar. Além de interferir diretamente com as escolhas de órgãos de comunicação social, pondo em causa o trabalho dos editores, condiciona o trabalho de um profissional e logo da sua sobrevivência. A sua postura faz lembrar censura, centralismo, dirigismo e mais outros atributos normalmente atribuídos a regimes totalitários.

Falando de alinhamento, espera o Governo que os seus cidadãos sejam “alinhados”?! Espera o Governo que não hajam vozes críticas, por mais erradas que as considerem? “Alinhamento” não é um termo demasiado ideológico, redutor e totalitário? Até a data de hoje, sempre vangloriei a “liberdade de expressão” em Cabo Verde, ou pelo menos a “tolerância de expressão”. Mas, pelos vistos, o exercício da opinião vem com uma pesada fatura. Uma fatura que interfere diretamente com a nossa vida, com o nosso ganha-pão. Por diversas vezes, políticos de ambos os lados, imbuídos do seu empoderamento que os cargos lhes dão, torceram o nariz ou indispuseram-se claramente com as minhas opiniões. Mas nunca se tinha desenhado um cenário objetivo de violência simbólica como esse. Mesmo tendo consciência das intrigas e envenenamento social de que sou alvo, nunca me senti claramente prejudicado, como estou a sentir-me agora.

Mas a razão de ser dessa situação é derivada de um sector em que, apesar de haver instituições e dessas instituições à partida terem dirigentes, o Ministro ocupa-se diretamente dos mais pequenos detalhes. É um centralismo absoluto. É uma gestão pessoal e pessoalizada, que não se coíbe de ter critérios baseados em simpatia com este e aquele, ou, pelo cúmulo, do “alinhamento” deste ou aquele. É tão sintomática também de um sector sem segurança jurídica e sem solidariedade de classe. É um sector onde o Ministro, tal como um senhor feudal, tem poder absoluto.

Sr. Ministro, eu nunca fui alinhado e duvido que venha a sê-lo em alguma momento da vida. Sou politizado, que é completamente diferente de ser partidarizado, sou engajado, sou de esquerda, sou direto, não tenho rodeios e vivo pelas minhas escolhas. Sou opinativo desde criança e isso já as pessoas crescidas diziam-me. }

Tive e tenho a sorte de conviver com familiares e amigos que cultuam o desenvolvimento de espírito. Tenho a consciência de ser uma voz crítica, pelos vistos demasiado crítica para o seu gosto, mas também tenho pautado sempre a minha postura pelo mais elevado respeito pelas instituições da República. Não espero que concorde comigo, não espero vida facilitada e até tenho a consciência que as minhas opiniões, se não me prejudicam, também não abrem portas aqui neste burgo.

O que não esperava é que fosse tão fácil condicionar-me o ganha-pão. É um evento grave pessoalmente, mas é um evento grave para um país que se diz moderno, progressista e respeitador dos direitos e liberdades individuais. É um evento que sinaliza uma distorção institucional, num país onde já devíamos estar libertos desse centralismo. É um evento grave porque informa-me que, por mais indicado que o meu trabalho seja, não importando a sua qualidade ou contribuição para o país, se depender de si, não trabalharei! No limite é um problema de direitos humanos.

Por fim, também tenho a consciência que a minha indignação não deslocará uma folha de árvore, porque é o status quo. É o momento de paralisia a que o sector foi votado. Mas, no mínimo saberá e outros saberão do tamanho da minha indignação, este texto terá, espero, um efeito auto-terapêutico e a partir de agora tenho a configuração clara do lugar onde estou. Um lugar não saudável.

César Schofield Cardoso

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