OPINIÃO

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

Imaginou como seria Cabo Verde sem estatísticas? 11 Janeiro 2019

Os Cabo-verdianos viveriam completamente perdidos é a resposta imediata, uma vez que sem informação Estatísticas Oficiais estariam "à deriva" com base somente nas suas opiniões. Precisam cada vez mais de Estatísticas Oficiais, porque elas dão-lhes a informação que precisam sobre o que são, como são, o que fazem, e os reflexos dos seus comportamentos.

Por: Adrião Simões Ferreira da Cunha*

Imaginou como seria Cabo Verde sem estatísticas?

A pergunta pode parecer pouco urgente. Afinal todos conseguimos imaginar as consequências terríveis de viver sem democracia, sem sistemas de proteção social ou sem eletricidade. Mas Estatísticas? A sua importância pode não ser assimilada de uma forma tão imediata. Mas na realidade não as ter seria como voltar a uma espécie de analfabetismo massificado.

Os Cabo-verdianos viveriam completamente perdidos é a resposta imediata, uma vez que sem informação Estatísticas Oficiais estariam "à deriva" com base somente nas suas opiniões.

Precisam cada vez mais de Estatísticas Oficiais, porque elas dão-lhes a informação que precisam sobre o que são, como são, o que fazem, e os reflexos dos seus comportamentos.

Não seria bom para uma Sociedade que se quer cada vez mais desenvolvida e que se quer que avance. E para saber se está a avançar, as Estatísticas Oficiais são essenciais.

É uma visão dramática. Para a entendermos melhor é importante perceber como é que as Estatísticas Oficiais afetam a vida dos Caboverdianos. Pode começar no topo da pirâmide, nas decisões do Governo, mas desce todos os degraus até ao seu dia-a-dia. Ou seja, ajudam desde saber quantos desempregados existem ou se o investimento público caiu muito até conhecer as cidades com as casas mais baratas ou quanto é que estão a ajudar o ambiente ao substituir banhos de imersão por chuveiro.

Por definição as Estatísticas Oficiais são instrumentos de conhecimento e sem essa informação não se conhece a realidade, nem se sabe o que se passa ao nosso lado, e quem toma decisões tem de saber sobre que realidade as vai tomar.

Sem dados estatísticos oficiais fiáveis vão sair más decisões. E sobre quem vão recair essas más decisões? Sobre os cidadãos. Pensa-se sempre nos Governos, mas também vai ao nível individual.

Sem Estatísticas Oficiais, estaríamos dependentes daquilo que uma pessoa poderosa diz ser a verdade, o que retiraria poder à Sociedade. No passado havia muita gente totalmente analfabeta que estava à mercê dos outros, daquilo que diziam que estava escrito nas paredes e em cartazes.

Num mundo sem Estatísticas Oficiais teríamos regimes não democráticos, em que certas pessoas se sentem portadoras da verdade. A Democracia precisa muito de informação estatística oficial credível.

No entanto, mesmo com Estatísticas Oficiais - e há cada vez mais a serem produzidas -, os últimos anos fazem muitos questionar se não entrámos naquilo a que muitas vezes se designa como Sociedade "pós-facto", em que os dados estatísticos oficiais são distorcidos e apresentados de forma a confirmar a nossa narrativa, situação agravada pela nova paisagem mediática.

O que podem os Estaticistas Oficiais fazer para contrariar esta trajetória? A palavra é Educação visando o reforço da Literacia Estatística. É importante que as escolas se compenetrem que a Estatística deve entrar no seu mundo e que os Ministérios da Educação cumpram o seu papel nesse ponto. Despertar [nas crianças] o interesse por conhecer os números, saberem desmontá-los e depois formular opiniões.

O passo seguinte é saber se os Institutos Nacionais de Estatística (INE), responsáveis por produzir e divulgar Estatísticas Oficiais têm os meios adequados para responder a estes novos desafios.

Há cada vez mais informação a circular, muita vinda de fontes não-oficiais. A era do "big data" está cheia de oportunidades, mas tratar essa torrente avassaladora de informação é um desafio enorme. Os INE estão divididos entre aproveitar melhor esse novo potencial e lidar com as suas limitações. Ao mesmo tempo, exige-se que produzam mais dados e mais indicadores e a uma velocidade maior. É uma guerra cada vez mais dura, por vezes sem que sejam dadas mais armas para a combater.

Saber se os INE têm os recursos suficientes para responder a estes desafios muitas vezes o problema não é financeiro, mas de insuficiência de recursos humanos, em muitos países há pouca oferta de [pessoas] com a formação necessária para a produção de Estatísticas Oficiais. A Sociedade está a evoluir, a exigência tem aumentado e os recursos têm estado estabilizados em muitos países.

Mesmo não sendo algo que imaginemos urgente, talvez fosse bom ficarmos de olhos postos na saúde das nossas Estatísticas Oficiais.

Afinal, um marinheiro talvez também dê mais importância à sua bússola depois de a perder.

Lisboa,10 de Janeiro de 2019
— -
*Estaticista Oficial aposentado, Antigo Vice-Presidente do Instituto Nacional de Estatística de Portugal

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