Editorial

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

Governação: Discursos de vamos fazer e campanha para autárquicas 14 Outubro 2019

O governo de Ulisses Correia e Silva continua a produzir os discursos de vamos, com anúncio do crescimento económico de 6%, mas cujo efeito é zero em termos da melhoria das condições de vida dos cabo-verdianos. A par disso, desdobra-se em visitas e viagens pelas ilhas, numa clara campanha para as autárquicas de 2020, segundo denunciam os líderes dos partidos da oposição.

Governação: Discursos de vamos fazer e campanha para autárquicas

Cépticos estão os eleitores, que já não acreditam nos discursos do Governo, principalmente do Primeiro-ministro, do vice-primeiro ministro e demais governantes. Em causa estão sobretudo os resultados que tardam a chegar, face às promessas de criar 45 mil postos de trabalho (criou-se ainda um média de mil em três anos da governação) e o crescimento económico de 7% ao ano, que é ainda uma miragem.

Como descreve um analista político ouvido pelo Asemanaonline, o actual ambiente político em Cabo Verde caracteriza-se sobretudo por «uma descrença e desesperança» neste governo, nos políticos e nos partidos, em que se ressaltam:

  • - Um governo arrogante que não escuta ninguém, cuja composição deixa muito a desejar – sequer se substitui os membros que certos elementos da base do MpD estão a pedir(Economia Marítima/Turismo/Transportes; Agricultura e Ambiente; Educação e Inclusão Social; Infra-estruturas, Ordenamento do Território e Habitação; Administração Interna; Saúde e Segurança Social, Cultura e Indústrias Criativas, etc).
  • - Sinais graves de falta de transparência na gestão de coisa pública, com surgimento de vários casos de suspeitas de corrupção na administração central do Estado – serviços, empresas e unidades autónomas (contratos com CVInterilhas, Binter-cv e Icelandair são os mais criticados).
  • - Governantes em visitas e viagens exageradas, gastando 600 mil contos por ano. Algumas das deslocações - caso do PM com o sistema MpD na semana passada ao Fogo - tem contado, na óptica de alguns críticos, com a suposta bênção e participação do chefe do Estado.
  • - Disponibilização através do Programa de Requalificação, Reabilitação e Acessibilidade (PRRA) de avultados recursos às Câmaras Municipais - 20 são do MpD - numa clara estratégia, segundo o PAICV, a UCID e o Partido Popular, de financiar a campanha eleitoral para as eleições autárquicas de 2020 – está-se já em pré-campanha.
  • - Sector empresarial privado que está a passar por uma profunda crise, isto diante da baixa na facturação e pouca circulação do dinheiro. Isto apesar do anúncio do vice-primeiro-ministro que «há dinheiro que não acaba».
  • - Caos no sector do transporte marítimo entregue à Interilhas – ver o caso da ligação entre São Vicente-São Antão e Brava-Fogo-Praia. A situação é também crítica a nível dos transportes aéreos com a criação do hub aéreo no Sal – São Nicolau, como recentemente denunciou o antigo Primeiro-ministro e ministro da Economia Gualberto do Rosário, nunca esteve tão mal como agora em termos de ligações aéreas - paga-se duas passagens para se chegar a esta ilha via Sal e Praia.

Hegemonia ou Geringonça?

Mas a situação é preocupante em vários outros sectores, que retomaremos em outras edições do ASemanaonline. Já para o Governo do MpD, o país vai bem, com o povo a viver «cheio de felicidades e a economia a crescer em mais 6% por cento este ano». O caricato que é este crescimento – que pode, segundo alertam alguns economistas, tecnicamente ser conseguido nos gabinetes de estatísticas – nada está a contribuir para melhorar o ambiente de negócios no país e o nível de vida dos cabo-verdianos- desemprego continua a disparar, afetando sobretudo jovens qualificados profissionalmente.

Oxalá que cada um saiba reflectir e votar nas próximas autárquicas e legislativas, não colocando todos os ovos no mesmo cesto – saber distribuir poderes para evitar hegemonia política por um partido. Para o analista referido, se calhar Cabo Verde precisa de experimentar o modelo Geringonça à Esquerda ou à Direita, tal como aconteceu em Portugal, São Tomé e Guiné-Bissau. Fica lançado este desafio!

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