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Gâmbia: Barrow é declarado vencedor das primeiras eleições pós-Jammeh 06 Dezembro 2021

Adama Barrow (foto), de 56 anos, foi este domingo declarado vencedor da eleição presidencial de sábado 4, perante cinco concorrentes. O candidato à sua própria sucessão — em 2017 venceu nas urnas Jammeh que estava no poder desde 1994 — obteve 53% e o principal adversário, Ousainou Darboe, 27,7 por cento.

Gâmbia: Barrow é declarado vencedor das primeiras eleições pós-Jammeh

Esta eleição — validada por observadores internacionais — é tida por politólogos como um teste à transição democrática na Gâmbia onde durante 22 anos Yahya Jammeh presidiu como autocrata. Desde janeiro de 2017, o segundo presidente gambiano — acusado de várias atrocidades contra a liberdade e direitos — vive no exílio, na Guiné-Equatorial. Teve de ser retirado por militares da Cedeao após recusar os resultados da eleição de dezembro de 2016 que deram a vitória a Adam Barrow (na foto, na primeira intervenção na AG das Nações Unidas).

Em 1994 Jammeh chegou ao poder através de um golpe-de-Estado "sem sangue" que depôs o primeiro presidente, Sir Dawda Jawara (1970-94) que fora primeiro-ministro entre 1962 e 1970. A Rainha de Inglaterra manteve-se por cinco anos como chefe de Estado da ex-colónia que — após uma fase de transição de três anos, liderada pelo primeiro-ministro — ascendeu à independência em 1965.

Adama Barrow vitorioso neste domingo 5 (foto mais à d.ta) é presidente desde janeiro de 2017. Apoiado pelo NPP, a sua vitória em dezembro de 2016 foi contestada pelo então presidente Jammeh, do NPRC-Partido Nacional da Reconciliação e Construção, que só deixou a presidência debaixo da intervenção millitar da Cedeao.

O terceiro presidente gambiano (foto) era um desconhecido da política da República gambiana, vindo do mundo dos negócios após ter estado anos emigrado no Reino Unido. Em Londres, segundo a BBC, Barrow trabalhou como guarda de segurança.

Barrow concorreu com o apoio também do partido do ex-presidente Jammeh, o NPRC.

Apoio de Jammeh a Mama Kandeh

Jammeh convocado pelo tribunal de Banjul "para responder a 23-11-2021 pelas atrocidades cometidas nos seus 22 anos de presidência", mantém-se no seu exílio junto do último autocrata Teodoro Obiang.

Desde a pré-campanha em novembro que Jammeh, a quase oito mil quilómetros de distância, tem vindo a enviar o seu apoio a Mama Kandeh, que descreve como um seu "fiel" — designação ambígua que também é utilizada como sinónimo de escravo.

Kandeh foi o terceiro votado há cinco anos e voltou a ficar em terceiro, mas agora no âmbito da oposição coligada no GDC-Congresso Democrático da Gambia.

Jammeh, que pela primeira vez em 27 anos não participa da eleição, telefona a meio dos comícios de Kandeh. Nada de ecrãs gigantes, é através do telefone com interferências que discursa a pedir a saída de Barrow.

"Adama Barrow destruiu tudo de bom que eu deixei em benefício dos gambianos – os hospitais, a agricultura e a educação", disse Jammeh, muito aplaudido. "Temos de nos unir e votar para o tirar do poder".

Legado de Jammeh. "Para as pessoas que foram torturadas, violadas ou tiveram entes queridos assassinados no regime de Yahya Jammeh, é uma dor insuportável vê-lo agora a jogar o fazedor de reis em vez de estar a responder pelas acusações sobre atrocidades", afirmou à Associated Press o jurista Reed Brody, da ONG International Commission of Jurists/Comissão Internacional de Juristas, que está a trabalhar com as vítimas de Jammeh.


Reconciliação?
No mesmo sentido fala a jurista Fatou Baldeh, em nome das vítimas mas apontando o dedo a Adama Barrow. O presidente, diz ela, não tem posto a funcionar a Comissão de Reconciliação e Verdade que instituiu em 2017 e "nestas eleições fez alianças com o partido de Jammeh [a APRC- Aliança Patriótica para a Reorientação e Conciliação], responsável pelos crimes".


Turismo afetado pela Covid-19

A principal fonte de receita é o turismo e a seguir a exportação de pescado e amendoim. Mas os turistas europeus — que há décadas rumam às praias de areia branca da Gâmbia — há dois anos que desapareceram.

O desemprego tem levado os jovens a tentar a perigosa atravessia do Saara e do Mediterrâneo.

Perante todos os desafios da Gâmbia que é um dos países mais pobres do mundo, o povo depositou a esperança em Barrow. "Nele temos a certeza que não vamos acordar a meio da noite com a polícia do Estado a vir prender-nos", afirmou um empresário de Banjul ouvido pela Associated Press.

...

Fontes: BBC/Gambia News/AP/Guardian. Fotos: Seis "urnas" para seis candidatos, com Ousainou Darboe do UDP-Partido Democrático Unido a liderar a corrida contra Barrow. O eleitor deposita o berlinde na urna com o rosto do candidato da sua escolha. Um processo incontestado há 56 anos, mas que decerto põe dúvidas sobre a confidencialidade do voto. O sistema dos berlindes está em uso desde a primeira eleição no país independente em 1965, justificado pela elevada taxa de analfabetismo da população. Para esta eleição utiliza-se ainda uma ferramenta digital Marble App, "para permitir a recolha de informação fiável e em tempo", segundo a entidade gambiana de combate à corrupção.

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