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França: Vidente e sacerdotisa vudu condenada à prisão por "abusos dissimulados sob a capa da religião" sobre vulneráveis 11 Novembro 2019

Na quarta-feira, 6, um tribunal francês chega, ao fim de treze anos, a um veredicto de culpa e condenação a quatro anos de prisão no processo em que Méllite J., que começou por ser acusada de crueldade sobre animais domésticos mantidos em cativeiro, defendia que a prática ritual era justificada segundo "o princípio da liberdade religiosa". O tribunal de última instância — ao indeferir o último recurso da vidente e sacerdotisa vudu, que ao longo deste tempo tinha vindo a recorrer das sucessivas condenações nas instâncias inferiores — considerou ter havido "abusos dissimulados sob a capa da religião" e que atingiram pessoas vulneráveis ou em situação de vulnerabilidade.

França: Vidente e sacerdotisa vudu condenada à prisão por

Foi em outubro de 2006 que o caso chegou ao conhecimento das autoridades através de uma denúncia anónima: uma mãe de família, que se dizia vidente e sacerdotisa vudu, praticava ritos sobre galos e cabras com requintes de crueldade.

A investigação subsequente permitiu à Procuradoria de Montmorency, na área metropolitana de Paris, apurar que a mãe de família ganhava uma média mensal de onze mil euros (c.1,2 milhão CVE) na atividade praticada no seu domicílio.

Os seus “fiéis” eram sobretudo membros da comunidade antilhesa. Pessoas, que fragilizadas por vários motivos desde a doença ao luto, acabaram por ficar sob o domínio de Méllite J, segundo a investigação da PGR.

"Trabalho", "iniciação" pagos com 5 dígitos

Duas vezes por semana, Mélitte J. dava consultas no quintal da sua casa, preparado para o efeito com ajuda do marido e dos filhos.

A vidente decidia na maior parte das vezes que o consulente individual precisava de um “trabalho” — cujo custo, a partir de 3 000 euros, dependia do tempo que ela lhe ia consagrar – ou de uma “iniciação”.

O “trabalho” era sempre realizado aos sábados, com início às 19-20 horas e a terminar nas primeiras horas do dia seguinte, diante de uma assistência de todas as idades que rezava e cantava dançando.

A “iniciação”, acumulada ou em alternativa ao “trabalho”, tinha a duração de três dias e custava no mínimo 10.000 euros. O “iniciado” passava esse tempo deitado na cave da casa da família J.

Festas com taxa de ingresso a 200 euros mais presentes

Havia também, três vezes por ano, “festas” que duravam vários dias. Cada família pagava 200 euros de ingresso e esperava-se que trouxessem presentes a Méllite J– garrafas de champanhe, rum, roupas e mesmo joias …

As festas presididas por Méllite, que era então invocada como “Mamã”, “Mazacca da Cruz”, eram marcadas pela música, tocada pelo marido, Hugues J., e as duas filhas, Murielle e Véronique.

A sacerdotisa vudu fazia então sacrifícios de galos e cabras, com as próprias mãos ou com uma espada curta. O sangue colhido ora servia para untar o corpo de alguém que estivesse doente ora seria para espargir sobre a assistência.

Constituição protege “liberdade religiosa”

É a fraude, pois, que foi condenada em tribunal e não a prática religiosa. Tido como prática oculta associada à magia “negra”, o vudu está, como qualquer outra “prática religiosa”, protegido pela “liberdade religiosa” inscrita na constituição da maior parte dos países mais democráticos.

Em geral, associado às Antilhas, o vudu tem as suas origens no reino do Benim, no Golfo da Guiné. Como testemunha a obra Esmeraldo de Situ Orbi de Duarte Pacheco Pereira, do século XV, o reino à chegada dos portugueses c.1475 era um dos mais prósperos da região. Depois com o tráfico de escravos, a religião local, que sintetiza elementos de natureza animista e sobrenaturais foi levado para as Caraíbas, Brasil…

Fontes: Le Monde/outras referidas

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