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França: Igreja em tribunal por agir tarde face às denúncias de pedofilia de padres 09 Janeiro 2019

O arcebispo de Lyon, a sudeste de Paris, "não (vê) por que seria culpado" de "não-denúncia de agressões sexuais contra menores", como afirmou ontem, 7, uma das mais eminentes personalidades da Igreja, em França, levado à barra do tribunal para responder às acusações.

França: Igreja em tribunal por agir tarde face às denúncias de pedofilia de padres

"Tenho o direito de pedir perdão. Isso não quer dizer que pessoalmente eu tenha cometido erros", declarou em tribunal o cardeal Philippe Barbarin, de 68 anos. A "não-denúncia de agressões sexuais contra menores" é, segundo a justiça francesa, punível com pena de prisão efetiva de três anos e multa de 45 mil euros (5 milhões CVE).

O cardeal explicou a sucessão de factos entre a denúncia, em julho de 2014, e a destituição do padre acusado de pedofilia, em setembro de 2015. Estes 14 meses entre a denúncia e a destituição levaram o presidente do grupo "Parole libérée" (Palavra liberada) a processar a arquidiocese de Lyon (foto), na pessoa de monsenhor Barbarin.

"A minha consciência diz-me que nunca procurei ocultar os factos. E também nunca procurei encobri-los", afirmou Barbarin ao concluir a cronologia do caso de pedofilia em que é acusado o padre Bernard Preynat.

A primeira denúncia foi feita por um antigo escuteiro, Alexandre Hezez, em email de julho de 2014. Em novembro, o arcebispo recebia o queixoso que decidira romper o silêncio vinte e cinco anos após ter sido vítima de um padre pedófilo.

Seguiram-se outras denúncias contra o padre Preynat, "por dezenas de antigos escuteiros". Contam-se oitenta e cinco pessoas, mais tarde reunidas sob a denominação "Parole libérée" (Palavra libertada), que denunciam o padre Preynat como autor de centenas de crimes sexuais ocorridos nas décadas de 1970 e 1980 na paróquia de Sainte-Foy-lès-Lyon (Rhône), a 470 quilómetros de Paris.

Monsenhor Barbarin contou em tribunal o quanto o testemunho do antigo escuteiro, hoje pai de família, o "perturbou". Na entrevista com Hehez, em novembro de 2014, "ele disse-me que os factos estando prescritos, arrependia-se muito de não os ter denunciado mais cedo. Eu disse-lhe para não desistir, encorajei-o claramente a procurar outras vítimas. E pedi-lhe que escrevesse o seu depoimento para eu o enviar a Roma".

À espera da resposta do Vaticano

"Eu não sabia como devia fazer, já que os factos eram tão antigos", respondeu Barbarin quando a presidente do tribunal apontou que ele podia ter suspendido o padre de imediato.

O arcebispo de Lyon, a terceira maior cidade francesa, ficara pois à espera de Roma. E quando, seis meses depois, em maio, a resposta veio, o Vaticano pedia-lhe para atuar "tomando as devidas medidas disciplinares, "sem criar escândalo público". Isto escreveu o arcebispo espanhol Luis Francisco Ladaria Ferrer, o nº 3 no Vaticano, e que por isso o tribunal de Lyon quis chamar para responder por "cumplicidade" neste caso. O Vaticano defendeu a imunidade de Ladaria, que assim evitou ter de ir a tribunal.

Foi por isso que, em maio, após comunicar a decisão ao padre acusado e ao primeiro denunciante, Barbarin esperou mais quatro meses, até o início do novo ano pastoral, para retirar o padre.
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Fontes: AFP/ Le Monde/The Guardian.
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Foto: A Sé Primacial de Lyon foi construída entre os séculos XI e XV com pedras do fórum romano de Lugodunon, capital da Gália, datadas do século I antes de Cristo. Situa-se no centro histórico que, pelo "testemunho excecional da continuidade do assentamento urbano há mais de dois milénios", foi classificado Património Mundial da Unesco em 1998. Desde então, deu-se um boom populacional na cidade (geminada com as brasileiras São Paulo, Goiânia e Curitiba, entre outras de vários países) com a imigração de trabalhadores não-qualificados no setor de serviços de manutenção (jardinagem, limpezas). Mas há também uma imigração de cérebros, vindos da Ásia e até África, que está a criar, entre outros, novas indústrias de biotecnologia e serviços de internet na segunda cidade mais rica de França.

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