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Ex-MNE André Gonçalves Pereira morreu aos 83 anos – Professor de estudantes da Universidade de Lisboa que fugiram em 18 de abril de 62: “Portugal não tinha conseguido atrair as elites de que precisava para que alguma coisa de português continuasse em África” 10 Setembro 2019

Advogado, professor de Direito e antigo ministro português dos Negócios Estrangeiros, André Gonçalves Pereira (1936-2019) morreu na segunda-feira, 9, em Lisboa. Professor de Direito na FDL-Universidade de Lisboa, referiu numa entrevista em 2008 sobre a fuga dos vinte estudantes africanos em 18 de abril de 62: “Portugal não tinha conseguido atrair as elites de que precisava para que alguma coisa de português continuasse em África”.

Ex-MNE André Gonçalves Pereira morreu aos 83 anos – Professor de estudantes da Universidade de Lisboa que fugiram em 18 de abril de 62: “Portugal não tinha conseguido atrair as elites de que precisava para que alguma coisa de português continuasse em África”

Lisboa lembra-se do advogado André Gonçalves Pereira como um ‘bon vivant’. Uma marca que ele não rejeita: reconhece não ser do feitio heróico, “não me preocupo em deixar um legado. Dez anos, 20 anos depois de eu morrer já ninguém se lembra que existi. Mas isso é perfeitamente natural – não sou o Marquês de Pombal”.

Esse modo hedonista de exisitir expressou-o assim: “O obetivo da vida de todos nós é a felicidade pessoal". Daí a sua posição sobre o heroismo como altruísmo: "Tenho muitas dúvidas que um projeto desse tipo fosse compatível com a construção da felicidade. A felicidade pessoal passa por um certo egoísmo. São facts of life que temos de aceitar”.

A sua biografia dá conta do percurso académico brilhante – aluno licenciado aos 21-22 anos com a média de 18 valores, assistente na mesma universidade, mestre e doutor em direito administrativo, com vasta obra produzida —, ao lado da carreira de advogado no escritório da família.

Ao mesmo tempo, é-lhe indulgentemente reconhecida a vida de dândi, o estilo de vida marcado pelo egotismo e expresso nos cuidados com a aparência: fatos de marca, carros “espampanantes”.

Ele mesmo o disse: “Fui o único professor universitário que ia dar aulas num Ferrari descapotável. Provocava um escândalo que, secretamente, me dava grande gozo. Isto podia ter prejudicado a minha carreira na faculdade, porque os professores mais antigos não gostavam dessas extravagâncias; e também porque tinha a fama, exagerada, de ser muito mundano, de andar em festas e de ter aventuras amorosas. Nessa altura, ia muito a Nova Iorque e aconteceu chegar no avião das seis da manhã e às nove estar a fazer exames, como professor. No ambiente soturno da faculdade, não se gostava muito disso. Felizmente o Marcelo Caetano, que tinha por mim, suponho, afeto, embora isto não correspondesse minimamente ao modelo de vida que ele pretendia para os seus filhos, foi de uma indulgência extraordinária”.

MNE de Caetano, aos 32 anos – recusou

Quarenta anos depois, em 2008, reconheceu que a recusa teve que ver com o facto de que “já em ‘68 ninguém podia acreditar numa política ultramarina”.

Em segundo liugar, a certeza de que “aceitar esse lugar significava ter um patrão. Que nunca tive na vida. E agora já é tarde e nunca virei a ter. Tenho, em certa medida, uma patroa, que é a minha mulher, em áreas limitadas mas importantes. Quando, dez anos depois, fui ministro dos Negócios Estrangeiros – já tinha sido convidado para outros governos – só aceitei por causa das relações fraternas que ainda hoje duram com Francisco Balsemão. Sabia que ele seria um companheiro e não um patrão – embora não questionasse a autoridade do Primeiro-Ministro”.

A ideia de que haveria motivação política é desmontada “com honestidade” pelo próprio: “Essa história, que pus restrições à política colonial, seria muito bonita mas não é verdade. Nunca fui um combatente contra o Antigo Regime, não quero vangloriar-me com penas de pavão como tenho visto outras pessoas fazerem”.

Democracia já é um dado adquirido – mesmo se medíocre

Arredado da participação política, Gonçalves Pereira não reivindicou nenhum louro na construção da democracia.

A democracia que voltou com o “25 de Abril” é uma realidade não obstante a sua mediocridade, analisou: “Mas isto não é exclusivo do nosso país. É como a situação da indústria portuguesa em relação à alemã: as coisas são mais pequenas e piores. Mas qualquer governo português, por mau que seja, é melhor do que a administração Bush. Esta mediocridade é, paradoxalmente, sinal de triunfo da democracia. Significa que não estão em causa em Portugal e noutros países europeus as grandes questões da vida: a liberdade, a liberdade de consciência, a liberdade de expressão. Não é preciso lutar por elas, a democracia entrou em funcionamento – de facto. A democracia, através do sufrágio universal, gera naturalmente a mediocridade. Mas é melhor do que qualquer outro sistema – como dizia o Churchill".

Encontro com antigos alunos – em Cabo Verde


As referências apontam para o segundo presidente (e primeiro democraticamente eleito), Mascarenhas Monteiro, e o primeiro-ministro (1991-2001) Carlos Veiga.

O encontro com antigos alunos em 2008 em Cabo Verde incluiu “um antigo Presidente da República e um antigo Primeiro Ministro” que “se juntaram a outros para me oferecer um almoço. De homenagem, confraternização, simpatia. Já o mesmo tinha sucedido em Moçambique. Foi extremamente gratificante, ainda mais porque eram alunos de todas as cores políticas, étnicas e de todos os setores da sociedade”.

Raízes em Goa

“Em 1981 fui a Goa como ministro dos Negócios Estrangeiros”. Foi o reencontro com as suas raízes indianas, já que o pai nascido em Goa acabou por se radicar em Portugal onde foi como estudante nos primeiros anos do século XX.

Nessa viagem oficial à Índia, pôde então constatar que os Gonçalves “eram uma família de alguma importância”, demonstrada pelo marco histórico na Ilha da Piedade, “ uma capela feita por Lourenço Gonçalves em 1530”.

A sua biografia conta do encontro com a primeira-ministra indiana, Indira Gandhi. Ela, «que descendia de uma família hindu, disse-me assim: “Tenho muito gosto em recebê-lo. Como sabe, a minha família anda a lutar contra a sua família há 400 anos”!»


A perda maior é a juventude — mas felicidade conjugal compensa

Aos setenta anos reconhecia: “A felicidade conjugal compensou a progressiva perda das outras coisas. Hoje já não tenho a agilidade, até a curiosidade, que tinha quando era novo”.

Referia-se ao seu casamento tardio, aos cinquenta anos: “Se não tivesse encontrado uma outra forma de vida, provavelmente seria infeliz ou menos feliz”.

Fontes: Entrevistas, como a do ’Jornal de Negócios’ 2008/Arquivos online/Testemunhos pessoais. MLL

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