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Empresários cabo-verdianos criticam aposta excessiva nos grandes ’resorts’ e pedem apoio 20 Setembro 2022

A Cabo Verde Empresas pediu hoje o apoio do Governo ao setor do Turismo Residencial e Alojamento Complementar, que representa 3.500 camas no Sal e Boa Vista, criticando a aposta que se mantém nos grandes ‘resorts’.

Empresários cabo-verdianos criticam aposta excessiva nos grandes ’resorts’ e pedem apoio

O setor é importante não só pelo contributo direto das receitas para os operadores, Tesouro, autarquias e proprietários, mas sobretudo é fundamental para o efeito multiplicador nos vários setores da economia local, constituídos por supermercados, bares, restaurantes, lojas, excursões, saúde, museus (…) um efeito multiplicador maior do que o oferecido pela fórmula ‘all inclusive’ [‘resorts’ com tudo incluído]”, lê-se num comunicado divulgado hoje pela associação, com sede na ilha do Sal.

A posição surge no âmbito do estudo da Cabo Verde Empresas sobre o Turismo Residencial e Alojamento Complementar no Sal e na Boa Vista, ilhas que concentram a atividade turística no arquipélago, e os seus “efeitos multiplicadores extraordinários para um subsetor turístico esquecido”, sendo que globalmente o turismo representa 25% do PIB cabo-verdiano.

O choque entre as duas realidades, ‘resorts’ e cidade, são enormes”, critica-se no comunicado, assinado pelo presidente da associação, Andrea Benolli, explicando-se que o principal objetivo do estudo “foi perceber se este setor do turismo voltou a funcionar após a pandemia, como os grandes resorts ‘all inclusive’ que dominam o panorama turístico” no arquipélago.

Acrescenta que o estudo demonstrou que na temporada alta (outubro a março) de 2019/2020, antes da pandemia de covid-19, “nenhum dos operadores entrevistados teve taxas de ocupação abaixo de 20%”, e até picos de 80%. Contudo, no mesmo período de 2021/2022, pós-pandemia, “71% dos operadores declararam taxa de ocupação inferior a 20%”.

Sinal claro de que algo deu errado”, afirmou Andrea Benolli, criticando a oferta concentrada nos grandes ’resorts’ no arquipélago, cada um com centenas de quartos: “O país continua a ditar uma agenda turística alinhada com os Grandes Operadores Turísticos e os grandes investidores turísticos, que têm o mérito considerável de saber promover o destino nos mercados de referência e saber acolher os turistas dentro daqueles que agora parecem sempre mais do que parques temáticos, onde restaurantes italianos se misturam com noites ‘típicas’ cabo-verdianas e música internacional acompanha apresentações teatrais dignas de Broadway”.

“Um mundo que não representa a realidade do território, mas faz feliz os seus clientes que atravessam, como numa verdadeira indústria de ‘entertainment’, a linha de produção controlada e gerida de forma extremamente precisa e profissional, para garantir o melhor resultado possível em termos de satisfação dos clientes e margem da empresa”, acrescenta.

Recorda que só nas ilhas do Sal e da Boa Vista o setor do Turismo Residencial e Alojamento Complementar representa cerca de 3.500 camas e que em termos de Taxa de Segurança Aeroportuária, a arrecadação potencial para o país é ronda os 12 milhões de escudos (108 mil euros) semanais, a que acrescem 770 mil escudos (7.000 euros) de taxa turística por dia.

Em termos de vagas, o setor empregou cerca de 200 pessoas entre Sal e Boavista no ano 2019, com a maioria de emprego feminino (cerca de 80%). Hoje a situação é muito mais dramática, com um emprego total entre as duas ilhas de cerca de 60 funcionários, com previsão para novas demissões caso a próxima temporada não seja suficientemente lucrativa”, aponta.

O responsável acrescenta que a maioria (57%) dos operadores do setor inquiridos denunciam “falta de atenção das políticas governamentais em relação ao subsetor”, enquanto os dados “parecem mais confortantes quanto à atenção das autarquias locais”, das quais “apenas 28% acreditam receber pouca atenção”.

Explica que “acima de tudo, exigem investimentos em infraestruturas urbanas”, como estradas, passeios, praças ou iluminação, mas também “uma maior cooperação entre os operadores do setor”, entre outras.

A Cabo Verde Empresas desafia assim o Ministério do Turismo e Transportes e a Associação Nacional dos Municípios Cabo-Verdianos (ANMCV) a forjarem uma maior colaboração operacional, em conjunto com os competentes representantes do setor privado, para que se compreenda melhor a lógica económica dos operadores e se definam políticas concertadas e concretas para que o mercado volte a funcionar, incentivando de forma partilhada o licenciamento das unidades”, lê-se.

Os efeitos potenciais do Turismo Residencial e Alojamento Complementar, afirma a associação, refletem-se na interação dos turistas com a economia local, mas estende-se também ao setor imobiliário do país: “Representa um enorme potencial para a economia, para os operadores económicos do país e para o Estado, com repercussões lógicas e diretas no emprego e, portanto, na erradicação da pobreza”.

Com o aproximar de nova época alta, cuja perspetiva para os envolvidos no alojamento complementar e no turismo residencial “ainda não é muito positivo, com previsões mais uma vez abaixo dos 20% de taxa de ocupação”, segundo a associação empresarial, e somando “os efeitos que atinge o setor com a pandemia desde 2019”, são “quatro anos perdidos”, “aumentando ainda mais a distância entre os poucos grandes operadores e os muitos pequenos empresários turísticos”.

“Uma concentração de poder nas mãos dos grandes que dificilmente conseguirá ser liderada pelo atual e futuros governos”, aponta a associação, recordando que há sete meses que pede a atenção da tutela para este setor.

Em suma, além dos muitos encontros com os operadores económicos e das ‘proclamações’ anunciadas aos meios de comunicação social, não há no horizonte investimentos capazes de garantir uma melhoria das condições dos pequenos operadores e, em particular, daqueles que lidam com o alojamento complementar e o turismo residencial, um subsetor turístico esquecido”, conclui. A Semana com Lusa

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