OPINIÃO

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É necessário estimular os jovens cabo-verdianos para continuarem os estudos 14 Dezembro 2019

Na realidade, é muito fácil dizer aos filhos adolescentes que não estudam porque são preguiçosos e só querem divertir-se. Mas será que algo mais lhes está acontecendo e os pais nem sabem? Por isso, uma das principais tarefas dos pais é, antes de mais nada, entender o que acontece com os filhos, e para isso: - Perguntem-lhes como está sendo a Escola e a relação com os colegas; - Estreitem a relação com os professores que podem dar informações valiosas; - Conversem com os pais de colegas adolescentes dos filhos e aprenda com a experiência alheia.

Por: Adrião Simões Ferreira da Cunha*

É necessário estimular os jovens cabo-verdianos para continuarem os estudos

Porque tenho ouvido de alguns Caboverdianos comentários sobre o facto dos jovens estudantes de Cabo Verde desistirem de estudar quando deixam o ensino secundário, sobretudo por falta de estímulo dos pais, decidi escrever este Artigo.

Com base nos Recenseamentos da População de Cabo Verde realizados em 1980, 1990, 2000 e 2010 abordo alguns aspetos da matriz social de Cabo Verde.

Publicados os dados do Recenseamento de 2010 os órgãos de comunicação social Caboverdianos, de acordo com a respetiva sensibilidade editorial, comentaram os respetivos resultados abordando alguns aspetos positivos e negativos da realidade Caboverdiana neste começo do 3º milénio, mas, tanto quanto pude saber, não deram relevo à Taxa de Analfabetismo e à Taxa de Universitários Diplomados enquanto fatores determinantes do processo de desenvolvimento de Cabo Verde.

A Taxa de Analfabetismo exprime a percentagem da população que não sabe ler nem escrever sobre a população com 15 e mais anos, e a Taxa de Universitários Diplomados exprime a percentagem da população possuidora de um curso superior universitário sobre a população com 25 e mais anos.

A Taxa de Analfabetismo de Cabo Verde tem tido a seguinte evolução: 63% em 1975 [data da Independência], 48,8% em 1980, 37,2% em 1990, 25,2% em 2000, e 17,2% em 2010, sendo notória a sua redução progressiva e, sobretudo, ser já só 3,1% para a população com idades entre os 15 e 24 anos, traduzindo o sucesso dos investimentos públicos efetuados na Educação para combater o Analfabetismo.

Contudo, por probidade intelectual, impõe-se refletir sobre qual seria a Taxa de Analfabetismo se o conceito usado naqueles Recenseamentos integrasse, além dos indivíduos que não sabem ler e escrever, os que sabendo ler e escrever, não sabem interpretar um texto corrente e efetuar um cálculo mesmo que simples, o que traduz o conceito de Analfabetismo Funcional.

A Taxa de Universitários Diplomados tem tido a seguinte evolução: 1,6% em 1990, 2,4% em 2000, e 7,6% em 2010, indiciando o surgimento progressivo de mais elites políticas, económicas, sociais e culturais que são fundamentais para acelerar ainda mais o processo do desenvolvimento.

Penso ser consensual que o Analfabetismo é um dos fatores que dificulta a capacitação para acelerar o processo de desenvolvimento face às mutações a que o País está sujeito, agora mais que nunca pela mundialização dos problemas e, sobretudo, das respetivas soluções, cuja análise não pode centrar-se sobre aspetos parcelares e sem relevar a diferença dos conceitos de desenvolvimento e crescimento, já de si de extremas algo difusas.

Face ao que precede, impondo-se que os jovens Caboverdianos prossigam os estudos apresento algumas medidas para os estimular e motivar para tal.

Muitos pais costumam enfrentar um dilema: querem que os filhos estudem, pois sabem que é essencial para o seu futuro, mas os jovens oferecem resistência, porque ainda não conseguem ter essa visão. Na verdade, estão focados no presente, período em que a diversão tende a falar mais alto. Mas esse cenário leva-nos a perguntar como motivar os jovens a estudar?

Na prática (e na maioria das vezes) essa motivação não surge sozinha, sendo os pais que são responsáveis por despertar os filhos para a importância e o prazer dos estudos, e neste sentido apresento algumas medidas para que os pais consigam motivar os seus filhos a estudar.

Sendo provável que os filhos estejam passando por uma forte turbulência, o que é normal durante a adolescência, período de transição em que os jovens começam a definir sua própria identidade. Por isso, demonstrar uma atitude negativa não vai ajudar, pelo contrário, aliás, essa postura só acrescenta mais pressão sobre os filhos, podendo piorar o seu desempenho ou até fazer com que desistam dos estudos. O ideal é demonstrar apoio e confiança, encorajando-os e criando o hábito de lhes dizer que acreditam na capacidade dos filhos.

Um dos fatores que mais desmotivam os adolescentes em relação aos estudos é a aparente falta de aplicação prática, sendo possível que os pais já tenham escutado "mas para que é que eu vou usar isso?" mas esta é uma oportunidade para os pais motivarem os estudos dos filhos, devendo aproveitar para lhes explicar que o estudar é necessário para construir um futuro melhor.

Mas como os jovens ainda não pensam muito sobre o futuro, precisam de metas de curto prazo e para isso os pais devem focar a atenção deles em algo mais próximo, como as notas do trimestre. Além disso devem evitar criar metas como estudar toda a tarde, porque isso não é realista, tampouco compatível com o estilo de vida que os jovens realmente desejam ter, mas não cedendo a todos os seus desejos, sendo preciso sim encontrar um equilíbrio.

Os jovens precisam de entender que não existe gratificação material instantânea pelo êxito nos estudos. Os frutos poderão sim ser colhidos, mas só anos depois, deixando claro que, muitas vezes, a recompensa nem é tangível, palpável, surgindo simplesmente como o benefício de poder realizar seu trabalho com mais qualidade e segurança e ter um futuro melhor.

Na realidade, é muito fácil dizer aos filhos adolescentes que não estudam porque são preguiçosos e só querem divertir-se. Mas será que algo mais lhes está acontecendo e os pais nem sabem? Por isso, uma das principais tarefas dos pais é, antes de mais nada, entender o que acontece com os filhos, e para isso:

- Perguntem-lhes como está sendo a Escola e a relação com os colegas;
- Estreitem a relação com os professores que podem dar informações valiosas;
- Conversem com os pais de colegas adolescentes dos filhos e aprenda com a experiência alheia.

Motivar os estudos dos filhos só é possível se os pais souberem o que está causando a desmotivação dos filhos.

Lisboa, 13 de Dezembro de 2019
— -
*Estaticista Oficial Aposentado, Antigo Vice-Presidente do Instituto Nacional de Estatística de Portugal

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