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Covid-19: ONU prevê recessão económica em vários PALOP 25 Maio 2020

Analista das Nações Unidas antecipa recessão económica nos PALOP, com exceção de Moçambique, que deverá ver crescimento reduzido. Demais países verão alguma recuperação em 2021. Mais ajuda externa será necessária.

Covid-19: ONU prevê recessão económica em vários PALOP

A analista de assuntos económicos com o pelouro de África nas Nações Unidas Helena Afonso disse este domingo (24.05) que a ONU prevê uma recessão de 1,8% em Angola este ano, antecipando uma recuperação de 1,5% em 2021.

Em entrevista à agência Lusa no seguimento do lançamento do relatório do Departamento de Assuntos Económicos e Sociais sobre a economia mundial, Helena Afonso disse que prevê "que Angola continue numa recessão grave e prolongada, com um crescimento de -1,8% em 2020 devido ao colapso do petróleo, menor produção petrolífera e ao impacto da pandemia da Covid-19".

Para 2021, acrescentou, "a atividade económica deverá recuperar gradualmente para 1,5% e os níveis de dívida são elevados e haverá uma redução acentuada da entrada de divisas externas, o que limita bastante a capacidade do país para conter e mitigar os efeitos da desaceleração económica, que poderá evoluir para um período de desequilíbrio significativo na balança de pagamentos".

Moçambique: Crescimento reduzido

Em Moçambique, "a pandemia da Covid-19 está a descarrilar a recuperação económica incipiente, dada a menor produção de carvão e a fraca produção agrícola", disse Helena Afonso.

"O crescimento do PIB deverá ser de 1,7% este ano e de 2,7% em 2021", acrescentou a analista, alertando, no entanto, que "estas projeções poderão vir a ser revistas em baixa no curto prazo".

Para a ONU, "são necessárias medidas de alívio orçamental nesta altura, mas a pouca margem orçamental e os efeitos da crise da dívida de 2016 limitam a capacidade" do país, concluiu.

Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe

"A economia de Cabo Verde deverá contrair-se 2,7% este ano, com a zona euro a registar uma recessão que influencia o comércio, turismo e remessas, recuperando para 4,2% em 2021, com a recuperação de algumas indústrias, retoma da agricultura e melhores condições macroeconómicas globais", disse.

Para a Guiné-Bissau, o panorama de quebra económica este ano e de recuperação em 2021 é semelhante.

"A Guiné-Bissau vai assistir a uma contração de 1,1% este ano devido à descida da procura externa pelo caju e uma descida da produção que origina uma queda nas exportações. Assumimos um crescimento de 3,5% em 2021 devido à recuperação da procura externa, aumento dos volumes de exportações e melhorias na economia nacional", disse Helena Afonso.

Em São Tomé e Príncipe, a perspetiva aponta para uma queda de 4,6% este ano devido à quebra do turismo, que afeta os setores dos serviços e da construção e perturba a rede de distribuição de cacau, a maior exportação nacional.

"O crescimento deverá ser de 5,1% em 2021, apoiado por uma retoma na agricultura, construção e serviços, em linha com a recuperação económica mundial", concluiu a analista.

Ajuda externa

Na entrevista à Lusa, Helena Afonso salientou ainda que a ajuda externa vai ser muito importante para os países africanos: "Vai ser muito importante a solidariedade não só entre países africanos, mas também a solidariedade vinda do resto do mundo. No entanto, assistimos ao contrário, e alguns países restringiram as exportações de alimentos e material médico, que são importações cruciais para o combate ao vírus em África".

A responsável da ONU por África vincou que a pandemia no continente "é preocupante" e lembrou a situação frágil preexistente.

"Na ONU, vemos a situação de uma forma algo preocupante. África tem um potencial muito grande para ter um grande número de casos [de Covid-19], é uma das regiões onde o número de casos mais está a crescer apesar das medidas em vigor, a capacidade é mais reduzida, mas até agora continua a ser uma das regiões menos afetadas em termos do número de casos e de mortes", disse a especialista.

"Lamentavelmente, mesmo antes de se depararem com uma crise geral de saúde, a maior parte dos países já entrou numa crise económica; muitos ainda se encontravam na fase de recuperação da crise de 2014 e estavam numa situação difícil ao entrar na pandemia, e portanto este é um teste muito grande à resiliência de África e dos africanos", acrescentou, na entrevista por telefone à Lusa a partir de Nova Iorque, a sede da ONU.

Alívio da dívida

Questionada sobre a iniciativa do G20 de alívio dos pagamentos da dívida para os países mais vulneráveis, muitos deles africanos, Helena Afonso elogiou a medida, considerando que é importante para criar espaço orçamental para o combate à pandemia da Covid-19.

"A ONU considera o alívio da dívida uma ação muito necessária neste momento, é um passo na direção certa, mas são necessárias mais medidas, uma vez que a dívida aos credores privados é muito alta nalguns países africanos e isto vai dificultar a obtenção de alívio e a reestruturação da dívida", disse.

"Muitos países encontram-se muito limitados pela falta de margem orçamental, tendo acesso limitado a financiamento externo e com uma posição externa cada vez mais frágil. Isto é um grande problema porque não dá margem de manobra aos países para conterem rapidamente a pandemia e apoiarem a recuperação económica", vincou a responsável no Departamento Económico e Social das Nações Unidas.

Medidas sugeridas pela ONU

A ONU, através da Conferência para o Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), divulgou em abril um relatório sobre a dívida dos países vulneráveis, defendendo um conjunto de medidas para resolver a crise da dívida atual e prevenir mais perturbações no futuro.

"A ONU pede uma abordagem em três fases para lidar com as vulnerabilidades que inevitavelmente irão surgir após a pandemia causada pelo sobre-endividamento, em que a primeira fase pede um congelamento do serviço da dívida, incluindo a credores multilaterais e privados em todos os países em desenvolvimento que não têm acesso ao mercado financeiro e não podem pagar as suas dívidas", disse a analista.

"A segunda fase apela à sustentabilidade da dívida em linha com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) para criar margem orçamental para uma recuperação económica mais resiliente e a terceira fase destaca a necessidade de reformas estruturais na resolução das dívidas a nível internacional para que se evitem crises financeiras e económicas prolongadas causadas por incumprimentos", concluiu.

Covid-19 em África e nos PALOP

Em África, há 3.246 mortos confirmados em mais de 107 mil infetados em 54 países, segundo as estatísticas mais recentes sobre a pandemia naquele continente.

Entre os países africanos que têm o português como língua oficial, a Guiné-Bissau lidera em número de infeções com 1.114 casos e seis mortos, seguindo-se a Guiné Equatorial com 719 casos e sete mortos. Cabo Verde regista 371 casos e três mortes, São Tomé e Príncipe tem 291 casos e 11 mortes, Moçambique confirmou 168 casos e Angola, 61 infetados e quatro mortes por Covid-19. A Semana com Lusa

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