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Covid -19: Médica Odette Pinheiro analisa testes rápidos com alerta laranja e incidente sobre doentes transferidos da Praia para S.Vicente 25 Maio 2020

A nossa colaboradora Maria Odette Pinheiro resolve escrever o presente artigo sobre a realização dos testes rápidos no país anunciados pelo governo, ao mesmo tempo que retoma a polémica surgida com o incidente relativo à recente transferência de doentes da Praia para São Vicente. «Contudo, o incidente de ontem (fuga do Hospital Baptista de Sousa) com os doentes transferidos da Praia para São Vicente, com fins cirúrgicos, alegadamente com escrutínio feito só com testes rápidos, levantou de novo o meu nível de preocupação. E ouvir no noticiário de ontem a segurança que a própria população manifesta com a euforia dos testes rápidos (feitos, por exemplo, em massa na Achadinha, até chamando as pessoas com altifalantes) – levando alguns a dizer que agora sabem que não estão infectados por terem testes negativos – leva-me a ressuscitar o artigo, refazê-lo e publicá-lo». A articulista, que é medica, considera que o alerta é laranja, advertindo que dá impressão que as autoridades sanitárias dizem o correto, mas fazem o contrário, já que os desatentos não notam. «O alerta é laranja, pois dá a impressão de que as nossas entidades sanitárias dizem o que é correcto, que os testes não servem para diagnóstico, mas na prática estão a fazê-los para este fim, o que, infelizmente, acontece muito entre nós: dizer algo acertado, o que entretém a malta, e fazer o oposto, já que os desatentos não notam. Isto num país onde é muito mais confortável os profissionais honestos ficarem calados do que darem a cara para denunciar o que precisa ser denunciado», avança. Ver os detalhes do artigo a seguir.

Por: Maria Odette Pinheiro*

Covid -19: Médica Odette Pinheiro analisa testes rápidos com alerta laranja e incidente sobre doentes transferidos da Praia para S.Vicente

ALERTA LARANJA

Este artigo está escrito há muitos dias. Na verdade, desde o dia 16 deste mês, quando li na comunicação social uma notícia da Inforpress em que um dos nossos hospitais “já realizava testes rápidos para detetar doença nos pacientes e profissionais de saúde”. E citava: “Já implementamos testes rápidos que permitem fazer o controlo em 30 minutos (…) vai dizer se o doente teve contacto com coronavírus e isso nos dá alguma segurança porque se o doente tiver contacto com o vírus vai dar positivo” (realce acrescentado).

Imediatamente enviei um email a alguém bem posicionado no Ministério da Saúde expressando a minha preocupação, já que essas declarações pareciam indicar uma confiança excessiva nos testes de anticorpos, ao contrário do que qualquer profissional de saúde deve saber, que não servem para o diagnóstico do vírus. Para meu relativo descanso, logo na conferência de imprensa a seguir foi dito exactamente isso, e houve outras intervenções neste sentido: https://santiagomagazine.cv/index.php/mais/entrevista/4484-julio-andrade-cabo-verde-nao-tem-capacidade-para-fazer-testes-com-fiabilidade-grande. Pensei que a situação estava salvaguardada e que o entusiasmo com os testes rápidos para efeitos de diagnóstico estava refreado. Resolvi deixar este artigo no computador e não o mandar publicar.

Contudo, o incidente de ontem com os doentes transferidos da Praia para São Vicente, com fins cirúrgicos, alegadamente com escrutínio feito só com testes rápidos, levantou de novo o meu nível de preocupação. E ouvir no noticiário de ontem a segurança que a própria população manifesta com a euforia dos testes rápidos (feitos, por exemplo, em massa na Achadinha, até chamando as pessoas com altifalantes) – levando alguns a dizer que agora sabem que não estão infectados por terem testes negativos – leva-me a ressuscitar o artigo, refazê-lo e publicá-lo.

O alerta é laranja, pois dá a impressão de que as nossas entidades sanitárias dizem o que é correcto, que os testes não servem para diagnóstico, mas na prática estão a fazê-los para este fim, o que, infelizmente, acontece muito entre nós: dizer algo acertado, o que entretém a malta, e fazer o oposto, já que os desatentos não notam. Isto num país onde é muito mais confortável os profissionais honestos ficarem calados do que darem a cara para denunciar o que precisa ser denunciado. Pudera, quando quase todo o mundo depende do Estado para a sua sobrevivência! E pode haver processos disciplinares, e há despromoções, e há transferências para lugares menos palatáveis, e há o ver outros a passar à frente… Melhor é cada um ficar de bico calado e contentar-se coma sua vidinha, façam ou digam os chefes as bojardas que quiserem!

Para os leigos perceberem a questão, relembrarei como funcionam os anticorpos. São glicoproteínas complexas que actuam sobre os agentes infecciosos, destruindo-os. Fazem parte, portanto, das defesas do organismo contra as infecções. Há dois tipos principais de anticorpos, a IgM (imunoglobulina M), que se forma primeiro, mas não logo no início da infecção; e não permanece muito tempo no organismo, desaparecendo rapidamente. O outro tipo é a IgG (imunoglobulina G), que se forma mais tarde, e dá a imunidade duradoira. No caso da Covid-19, não se sabe ainda quanto tempo a imunidade persiste.

Apresento a seguir um gráfico retirado e traduzido de um sítio confiável, https://www.diazyme.com/covid-19-antibody-tests, que ilustra o que foi dito acima:( Ver gráfico 1 no rada pé deste artigo).

Portanto, no início da infecção há um tempo em que o vírus está no organismo, mas ainda não há anticorpos. Se nesse período se fizer um teste de anticorpos (teste rápido) ele será negativo. Assim, um teste negativo não pode ser interpretado como a pessoa não estando infectada. O contrário também é verdadeiro: antes de o vírus desaparecer já há anticorpos, especialmente a IgM, que aparece primeiro. Em Cabo Verde, todos os testes positivos de anticorpos estão a ser confirmados por um teste PCR. Mas, infelizmente, os negativos parecem estar a ser desvalorizados, dando uma falsa segurança tanto aos cidadãos como aos profissionais de saúde. É o que acontece quando se fazem testes rápidos para internar alguém ou para fazer intervenções cirúrgicas (especialmente se não são verdadeiramente urgentes, não tendo de ser feitas imediatamente, podendo-se esperar pelo resultado de um teste PCR). E, o que é ainda mais preocupante, quando se transfere de ilha para ilha, mais grave ainda, de uma ilha onde se pode fazer um PCR para outra onde não se pode fazer, como o caso de S. Vicente – pondo os profissionais de saúde em risco, já que sabemos que mesmo com precauções alguns podem ser infectados. Aliás, a equipa técnica do MS nunca deixa de nos lembrar que isto é o que acontece lá fora, onde têm equipamentos que fazem parecer que vão para a Lua! E nós… é o que sabemos, mesmo que nos digam o contrário!

Apresento a seguir um quadro retirado e traduzido do mesmo sítio, o qual explica as diversas possibilidades de interpretação dos testes rápidos em conjunção com o PCR. ( Ver o quadro 2 , no rada pé deste artigo).

Na primeira linha vê-se a situação em que ambos os anticorpos são negativos, mas o doente está infectado, apresentando um PCR positivo. (Nota: o pode, “may” no original inglês, denota aquilo que todos sabemos: que há sempre possibilidade de falsos negativos e falsos positivos em todos os testes laboratoriais, por mais confiáveis que sejam; e os testes de anticorpos, segundo a literatura médica, é um que dá uma percentagem muito alta de falsos resultados – até porque há laboratórios pouco confiáveis que os estão a fabricar. A Espanha teve de deitar para o lixo milhares e milhares deles, e a pouca fiabilidade desses testes já foi demonstrada em vários outros lugares do mundo.

Assim, o problema dos testes de anticorpos é que não têm valor para o diagnóstico. Se forem positivos, significam que a pessoa teve contacto com o vírus no passado. Mas pode, ou não, estar infectada nesse preciso momento. Como se vai distinguir isso? Fazendo o teste PCR. Se este for positivo, a pessoa está infectada e é, portanto, um perigo; se for negativo, o perigo já passou e restou alguma imunidade. Para que serviu o teste rápido? Para nada, quanto ao diagnóstico! Tem outras funções, e essas não devem ser confundidas.

E se o teste rápido for negativo? Não significa ABSOLUTAMENTE NADA para o diagnóstico! Nada de nada! É que os anticorpos, que vão causar a positividade do teste, só começam a ser produzidos 7 a 14 dias após o início da infecção. Está-se na fase da “janela”, em que a pessoa tem o vírus e ainda não há anticorpos no organismo, daí um teste rápido negativo. Pode-se até estar numa fase muito contagiosa, em que o vírus está ainda predominantemente nas vias respiratórias superiores (sem ter ainda migrado para os pulmões para causar pneumonia), podendo mais facilmente sair com os espirros, a tosse e, mesmo, com o aerossol da fala. E como a maior parte dos doentes são assintomáticos e o vírus não causa pneumonia, a conclusão é lógica! PERIGO! Novamente, para se saber se a pessoa pode infectar outros ou não, o que é necessário? O PCR. Sem este, há a falsa segurança de não se ter o vírus, sem que isso seja verdade.

Então, para que servem os testes rápidos? Muitos países estão a reservar o seu uso mais para o fim da epidemia, outros já os estão a usar para avaliar a prevalência do vírus na comunidade e o nível da imunidade. Como o vírus irá permanecer, a informação sobre a imunidade comunitária será muito importante para se avaliar o risco de novas investidas. Mas, na fase aguda do surto, quando se tem de saber com certeza quem está infectado e quem não está, para evitar o alastramento da doença, não nos podemos basear nos testes de anticorpos. Nesta fase da epidemia em Cabo Verde, é uma temeridade confiar nos tais testes rápidos, pois sem o PCR não nos dão as informações que precisamos para evitar a propagação da doença (como, por exemplo nas viagens de ilhas afectadas para as não afectadas, para avaliar doentes que vão para a cirurgia, profissionais de saúde que lidam com muitos doentes, etc.). Estamos a inventar, por não termos capacidade de fazer testes PCR suficientes, mas vale mais dizer isto à população do que tapar o sol com a peneira, pois isso pode sair-nos caro. Declarações politicamente correctas não rimam com Medicina.

Basta um infectado numa ilha ou numa instituição de saúde para … já sabemos! Depois, não nos venham com desculpas, dizendo que nenhum protocolo falhou!
E mesmo antes de mandar este para publicação, acabo de ler que o Delegado de Saúde de São Vicente declarou que o HAN não está a cumprir o protocolo para a evacuação de doentes para São Vicente: https://www.asemana.publ.cv/?A-fuga-do-Hospital-Batista-de-Sousa-e-a-falha-de-protocolo-do-Hospital&ak=1

Isto é muito grave, Senhor Primeiro Ministro e Senhor Ministro da Saúde!
...
* Médica e Antiga Assistente da Faculdade de Medicina de Coimbra

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