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Covid-19: Como a pandemia ameaça a liberdade de imprensa em África 10 Abril 2020

Enquanto países africanos implementam quarentenas, jornalistas denunciam ser agredidos por forças de segurança ao tentarem informar sobre a Covid-19. Casos graves foram registados no Gana, Guiné-Bissau e África do Sul.

Covid-19: Como a pandemia ameaça a liberdade de imprensa em África

O jornalista ganês Yussif Abdul-Ganiyu teme pela sua vida. O correspondente da DW para o serviço de hauçá conta que foi intimidado por uma militar. "Ela saiu de um carro, veio ter comigo e perguntou: ’Vocês estão a escrever histórias sobre nós? Por que é que estão a fazer isso? Não estamos satisfeitos com isso, estou a avisar-vos!’".

Abdul-Ganiyu conta que foi golpeado na nuca e caiu. Atordoado, o jornalista foi levado sob custódia policial e os militares confiscaram o seu equipamento. Somente mais tarde, o correspondente da DW África soube da causa de sua detenção.

O profissional foi acusado de desinformar as pessoas sobre a brutalidade das forças de segurança através da estação de rádio que dirige. Três dias antes da abordagem policial, a Zuria FM, uma estação parceira da DW, publicou o testemunho de um homem de 71 anos que disse ter sido atacado por soldados que faziam uma operação devido ao coronavírus.

A peça jornalística, segundo Abdul-Ganiyu, baseava-se em declarações de vítimas e em relatos de testemunhas. "Os militares recusaram-se a comentar as alegações", lembra. Abdul-Ganiyu foi libertado sem acusação formal. O jornalista afirmou que a atual crise sanitária só veio a agravar a frágil situação dos jornalistas no país.

O correspondente da DW África alerta que os profissionais da comunicação social que fazem a cobertura diária sobre a pandemia no Gana devem estar preparados para sofrer eventuais agressões físicas pelas forças de segurança. "Estão a fazer isto para impedir o nosso trabalho, para incutir medo, para que não denunciemos os acontecimentos à medida que acontecem", disse.

Guiné-Bissau: Rádios privadas sob pressão

Cerca de 2 mil quilómetros a oeste do Gana, o jornalista guineense Serifo Tawel Camará também tem a sua história de intimidação para contar. "Estava prestes a deixar a estação de rádio onde trabalho quando me atacaram", recordou, descrevendo como vários homens fardados o espancaram na noite de 24 de março.

Camará trabalha para a Rádio Capital, uma estação privada de Bissau. Tal como muitos países africanos, a Guiné-Bissau declarou estado de emergência na sequência da pandemia de Covid-19. Desde 18 de março, todas as fronteiras permanecem fechadas, os voos e os transportes públicos foram suspensos e os mercados só são autorizados a abrir durante quatro horas por dia.

O coronavírus chega à Guiné-Bissau numa altura em que o país se encontra num limbo político. Umaro Sissoco Embaló - o homem que declarou estado de emergência no país - tomou o cargo presidencial em fevereiro, depois de ter sido considerado o vencedor das eleições presidenciais de 2019 pela Comissão Nacional de Eleições.

O pleito segue pendente de aprovação no Supremo Tribunal de Justiça, uma vez que ainda há uma petição a ser apreciada pela justiça sobre o processo eleitoral. O estado de emergência levou o tribunal a adiar a decisão. Além disso, todas as assembleias e manifestações públicas foram proibidas.

Camará não é o único jornalista que enfrenta pressão no país. Ele disse que vários colegas foram convocados pelo Ministério Público e um apresentador da rádio Cidade FM cancelou o seu programa diário depois de ter sido ameaçado.

"A liberdade de imprensa e a liberdade dos jornalistas de exercerem as suas funções estão ameaçadas", disse Indira Correia Balde, presidente do sindicato dos jornalistas da Guiné-Bissau (SINJOTECS) na sequência de notícias de violência contra profissionais da comunicação social no país. "A liberdade de imprensa não deve ser vítima da pandemia", completou.

A violência arbitrária na África do Sul

Inúmeras queixas contra forças de segurança foram apresentadas na África do Sul após o "lockdown” iniciado há duas semanas. A jornalista Azarrah Karrim, repórter da publicação online News 24, diz que foi testemunha de casos violência arbitrária desde o primeiro dia.

Nas ruas de Joanesburgo, perto do seu apartamento, Karrim disse que um dia quis escrever sobre como as pessoas estavam a lidar com a quarentena e como as forças policiais estavam a garanti-la. "Vi polícias a perseguir pessoas na rua e a disparar contra elas. Mas não era uma multidão, era apenas um casal que poderia ter atividades essenciais [a fazer]", recordou.

Karrim conta que viu-se de repente no foco da violência policial. "Corri para um restaurante próximo. Levantei meu cartão de imprensa e as mãos", recordou. "Depois falei o mais alto que pude, explicando que trabalhava para os meios de comunicação social. Um polícia parou a cinco metros de mim e disparou a sua arma", disse.

Karrim teve sorte por não ter sido atingido.

A ONG Repórteres sem Fronteiras (RSF) documentou casos semelhantes de violência policial em todo o continente. Katja Gloger, ex-diretora da RSF Alemanha, vê diversas razões para a forma como os jornalistas estão a ser reprimidos durante esta pandemia.

"Os regimes autoritários e as ditaduras [estão] a usar todos os tipos de instrumentos para reduzir as críticas, a transparência e os fatos, ou para manipulá-lo conforme seu interesse", afirma Gloger.

A jornalista acrescenta que ao reduzir a disponibilidade de informação relevante ao público, tais regimes estão "inadvertidamente a contribuir para que o vírus se espalhe". C/DW África

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