OPINIÃO

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Covid -19: Aconteceu ou não na Boa Vista? 28 Abril 2020

Merecemos mais. Precisamos todos de mais, se vamos continuar a confiar no sistema e se queremos evitar o pânico. Este vem quando suspeitamos, pior ainda, se tivermos evidências que os responsáveis não estão a ser cândidos connosco. Neste momento não sei por certo o que aconteceu na Boa Vista, nem sei se os dois médicos afectados são ou não pediatras que trataram a criança que morreu há dias. A pergunta foi feita, os responsáveis disseram que não são da Maternidade, mas não foram capazes de desfazer as dúvidas e dizer em que departamento trabalham. Transparência, precisa-se. Já somos maiores de idade.

Por: Maria Odette Pinheiro*

Covid -19: Aconteceu ou não na Boa Vista?

No dia 25, muitos cabo-verdianos ficaram chocados e preocupados com o que ouviram no noticiário das 13:00 na TV nacional, mais tarde repetido no das 20h. Em directo, uma senhora da Boa Vista contou que entidades sanitárias haviam ido a sua casa fazer testes à família, na qualidade de contactos do filho. O teste que este trabalhador do Riu Karamboa fizera antes de deixar a quarentena revelara-se positivo, tal como os de cerca de 50 outros trabalhadores que foram repescados logo a seguir e postos de novo em quarentena. E assim devia ter acontecido com o filho da senhora. Aliás, as autoridades pensavam que isso fora feito; e só quando foram testar a família, quase duas semanas depois, é que descobriram que ninguém o tinha contactado, avisado ou ido buscar! Inocentemente, ele estivera todo esse tempo a conviver normalmente com 10 pessoas, habitantes da mesma casa! Na voz da senhora e no que dizia podia-se perceber o desespero, a preocupação consigo e com a família e a decepção com o sistema – convenhamos, todos justificáveis.
Na conferência de imprensa das 17:00, os jornalistas pediram uma explicação. Resposta: desconhecia-se o caso. Absolutamente aceitável. Os responsáveis devem estar assoberbados de trabalho, cansados, sentindo o peso da responsabilidade sobre os ombros. Não se pode esperar que estejam a ouvir noticiários!

Mas ontem a situação já devia ser diferente. Porque quando se sabe que foi noticiado o que parece ser uma falha grave do sistema de saúde, quem o dirige tem de estar inteirado. E quando a alegada falha pode fazer perigar a saúde de muitos, a nação precisa ter respostas. Contudo, na conferência de imprensa de ontem, dia 26, ao ser repetida a pergunta que aguardávamos ansiosamente, a resposta foi que no dia anterior já havia sido respondida e que, portanto, não se responderia outra vez!
Que o sistema tenha falhado num assunto de tanta importância é grave, e não devia acontecer. Mas como todos os humanos falham… o que é preciso é criar salvaguardas para não voltar a acontecer – nem na Boa Vista nem noutra ilha. Mas que o sistema escamoteie os possíveis erros, não os reconheça ou iluda as respostas, já não é aceitável nem contribui para que tenhamos confiança nas informações oficiais. Tratar os erros com leveza é caminho para se continuar a errar – e com a mesma leveza! Além disso, se fontes oficiais não esclarecerem as situações, como evitar notícias falsas? Ou será que essas nos negam o direito de saber o que se passa em assuntos de tanta importância e acham que não têm satisfações a dar?

Merecemos mais. Precisamos todos de mais, se vamos continuar a confiar no sistema e se queremos evitar o pânico. Este vem quando suspeitamos, pior ainda, se tivermos evidências que os responsáveis não estão a ser cândidos connosco. Neste momento não sei por certo o que aconteceu na Boa Vista, nem sei se os dois médicos afectados são ou não pediatras que trataram a criança que morreu há dias. A pergunta foi feita, os responsáveis disseram que não são da Maternidade, mas não foram capazes de desfazer as dúvidas e dizer em que departamento trabalham. Transparência, precisa-se. Já somos maiores de idade.

Mas há mais. Para minimizar esse novo erro na Boa Vista (não sei se da saúde, da protecção civil, ou de quem), lembraram-nos, com realce, tanto ontem como hoje, que em outras paragens os infectados assintomáticos ou com poucos sintomas até ficam em casa! Por favor, tenham dó! Qualquer semelhança entre as condições sociais da nossa terra e essas outras paragens é pura coincidência! Em Portugal, o salário mínimo é de 600 e tal euros, em França é de muito mais de mil; na Alemanha, nem se compara!

Não nos iludamos. O Vento Norte ainda continua a flagelar muitos. E os anos sem chuva, e o desemprego, e a falta de trabalho adequado, e o salário mínimo baixo (mesmo que seja aquele possível), e as infelicidades da vida, e os maus passos, e o álcool, e a maternidade e paternidade irresponsáveis, etc. etc. têm enchido as nossas cidades (e as colinas à volta) de casas precárias, muitas delas de tambor e até de papelão, cheias de pessoas – famílias numerosas por vezes só com uma cortina a separar dois cómodos, por vezes sem cómodos nenhuns, onde se cozinha, todos dormem, todos comem e por vezes até fazem as necessidades .

Em vista da nossa realidade, devemos ser lembrados que noutras paragens os doentes leves ficam em casa – como para minorar o facto de alguém positivo para o novo Corona vírus poder ter ficado em convivência com a família, e por tanto tempo, por falha do sistema?

Entre nós, até a quarentena domiciliária é duvidosa, quando já se verificou o seu valor mesmo com termos de responsabilidade assinados! E havendo quem tenha escapulido para ir a uma festa, só se sabendo pelo acidente que levou a pessoa ao hospital. “Juízo de quem ca tem ta na cabéça de quem tem”. Por isso, que as autoridades não deixem a saúde de todos à mercê da irresponsabilidade de uns tantos.

Isolar os infectados em lugar adequado, contrariamente ao que se faz lá fora, não é um favor que o sistema está a fazer aos cabo-verdianos. É o dever das autoridades perante a precária situação socioeconómica do país e a irresponsabilidade de muitos. O contrário seria, também, uma irresponsabilidade de todo o tamanho!

Que haverá mais casos, temos a certeza. Quando chegamos ao ponto a que já chegámos, o aumento da bola de neve é inevitável! Mas que avisar-nos disso não seja um modo de nos tentar condicionar a fazer vista grossa às falhas que já existiram e às que podem surgir no futuro. O mesmo quanto aos apelos feitos aos jornalistas para que colaborem a fim de haver serenidade. Sim, eles são essenciais para não haver pânico. Mas isso não significa silenciamento ou encobrimento. A sua função é ajudar a esclarecer a nação em todo o tempo e em todas as situações. É o melhor antídoto contra a desinformação e o pânico. Aliás, precisamos que eles façam o seu trabalho de casa e depois sejam mais ousados. Em todas as latitudes, os jornalistas competentes são quem traz a verdade ao de cima.

Em saúde mental diz-se que a pior verdade é sempre melhor que a melhor mentira. Com o novo corona vírus também é!
...
* Médica

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