OPINIÃO

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Cocaína e evocação do irlandês que roubou as joias da coroa inglesa —Rei perdoou-o e premiou-o 12 Fevereiro 2019

Neste momento em que Cabo Verde dá o ’habeas corpus’ aos “zorros” suspeitos de tráfico de cocaína e em Londres, Inglaterra, as águas cocainadas do Tâmisa põem as enguias hiperativas, vem à memória o episódio histórico referenciado nos relatos da guerra civil que desembocou na também insólita República de Cromwell. Insólito e real, também no perdão e recompensa régios ao homem que roubou as joias da coroa da Inglaterra em 1671.

Por: Luiz Cunha

Cocaína e evocação do irlandês que roubou as joias da coroa inglesa —Rei perdoou-o e premiou-o

Os vários lances da biografia dum homem comum que entrou na historiografia inglesa como "o homem que roubou as joias da coroa" surgem envoltos num pano de fundo de excecionalidade que abrange a Restauração da monarquia após a efémera República de Cromwell. E vêm lembrar-nos, mais de três seculos depois, que onde há fragilidade do Estado e das instituições, tudo pode acontecer: a recompensa ao malfeitor, o crime e perdão sem arrependimento...

Thomas Blood nasceu em 1618 na Irlanda, filho dum abastado ferreiro, Thomas Blood, e neto dum parlamentar, Eduard Blood – um caso de transição intergeracional, dos negócios para a política, da política para os negócios, lícitos e não.

Em 1642, Blood apesar de irlandês envolveu-se na guerra civil inglesa e lutou pelos Realistas, pró-rei Carlos I. Mas quando se apercebeu que a vitória estava do outro lado, Blood passou a lutar por Oliver Cromwell, o futuro presidente (efémero e único que a história do Reino Unido conheceu).

Os Parlamentaristas de Cromwell graduaram Blood a oficial incumbido de subverter as atividades dos adversários. Entre elas, a distribuição de mantimentos que Blood desviava dos Realistas para os Parlamentaristas, após acautelar a sua parte pois “quem parte e reparte e não fica com a melhor parte ou é tolo ou não tem arte”, segundo o código dos ladrões.

Em 1651 é o fim da guerra civil e os vitoriosos Parlamentaristas instituem a República de Cromwell. O irlandês Blood é premiado com terras em Inglaterra e um cargo de Juiz da Paz.

Mas quando, nove anos depois, a monarquia é restaurada sob Carlos II, Blood deixa a Inglaterra e foge para a terra natal com a família. Na Irlanda natal, entra no grupo que conspira para derrubar a monarquia.

Em 1663, preparam-se para assaltar o castelo de Dublim onde reside James Butler, Duque de Ormonde e Vice-Rei da Irlanda enquanto representante do rei inglês Carlos II.

O golpe é descoberto e Blood foge para a Holanda, onde permanece até 1670. Nesse ano, regressa à Inglaterra e abre consultório em Romford, a 20 km de Londres, apresentando-se como “doutor Ayliffe” (reza a história que não tinha tal qualificação e o título era tão falso como o nome).

Em 1671, depois de falhar nova conspiração contra o Duque de Ormonde, decide-se por novo esquema: o roubo das Joias da Coroa. Os preparativos para a execução do roubo começam por uma visita disfarçado de sacerdote ao Castelo de Londres, onde até hoje está guardado esse tesouro formado por mais de duzentas peças, sob a responsabilidade do curador da Casa do Tesouro.

O “sacerdote” (da Igreja Anglicana) está acompanhado da “mulher” (um cúmplice travestido) e do “sobrinho” (que era um dos seus filhos). O sucesso da primeira visita foi tal que ficou combinado o casamento entre uma das filhas do curador e o “sobrinho” de Blood.

“Assassínio! Traição! Roubaram a Coroa!”

Dias depois Blood e dois cúmplices regressam ao Castelo. Blood diz ao curador e futuro sogro do "sobrinho" que a “mulher” está para chegar, para acertarem os detalhes do consórcio matrimonial. Entretanto, pedem uma visita guiada à Casa do Tesouro.

O relatos classificam o curador como ingénuo, de boa fé. Certo é que chegam à
cave onde está o tesouro real, acumulado desde o século XII, cujo primeiro ítem é a colher de ouro com que o bispo ungiu o rei Eduardo, futuro Santo Eduardo.

Aí chegados, é neutralizado o septuagenário curador. Blood apodera-se da arredondada coroa, esconde-a sob as vestes de “sacerdote”, o que resulta no achatamento da mesma.

Surpreendentemente, o curador amordaçado conseguiu gritar “Assassínio! Traição! Roubaram a Coroa!”. Os guardas acorreram. Os ladrões foram apanhados. Os cúmplices de Blood são executados.

Escapa à execução

O facto de que Blood tenha sido perdoado do crime de pena capital – além de que recebeu o que lhe tinha sido confiscado em 1661 e passou a usufruir duma avultada pensão de quinhentas libras por ano — constitui até hoje um mistério que dá força à versão de que foi o próprio rei que urdiu a trama. Uma monarquia enfraquecida, com os cofres vazios e a precisar de dinheiro dos contribuintes...

Mas há outra versão segundo a qual o rei, dada a fragilidade da Restauração após o golpe republicano, temia um levantamento dos antigos Parlamentaristas, caso um dos seus, Blood, fosse preso.

Última fuga, sê-lo-ia?

Em 1679, Blood foi preso por ordem do duque de Buckingham, a quem “insultara”. No ano seguinte, foi solto sob condição de pagar ao ofendido a astronómica indemnização de £10 mil libras. A sua liberdade durou pouco: em julho, poucos dias depois de libertado, ficou doente e entrou em coma de que resultou a sua morte em agosto de 1680.

As autoridades para certificar a morte fizeram exumar o corpo, a pedido do duque de Buckingham – desconfiado de que Blood podia ter forjado a própria morte e enterro para eximir-se à dívida.

Que lição para o Paralelo 14

Exclame-se ou interrogue-se, lá onde há fragilidade do Estado e das instituições, tudo pode acontecer: a recompensa ao malfeitor, o crime e perdão sem arrependimento...

Tudo pode acontecer, onde há morosidade, , onde ‘há mas são verdes’ que simboliza a pouca experiência na investigação que fragiliza o interesse do Estado, que somos todos nós e todos nós inconscientes disso.

Suspeitas jamais resolvidas de Perlas Negras vítimas da Justiça. Suspeitas jamais resolvidas de desvios procedimentais as quais beneficiam a defesa do arguido, inocentado na secretaria.

Suspeitas de que sob o fogo da incineração a cocaína possa renascer qual Fénix... E o insulto aos duques receberá um raio de Júpiter?

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