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Reportagem/Bairros de lata da vergonha no Sal: Moradores denunciam viver em condições sub-humanas e podem aos poderes públicos e municipais que busquem solução para o problema e cumpram as promessas eleitorais 14 Junho 2021

Está a ser uma vergonha nacional, segundo apurou este jornal junto de observadores atentos, a situação degradante com a pobreza extrema por que passam os moradores dos bairros de lata no Sal, com destaque para os das zonas de Alto de Santa Cruz e Alto de São João. Vivem, na sua maioria, em estado de precariedade extrema (ver as fotos nesta peça), em casas de latas em péssimas condições, numa ilha mais turística de Cabo Verde em que muitos residentes passam longas jornadas mergulhados no "luxo dos hotéis" e em passeios no calçadão mandado construir pela Câmara do Sal, em parceria com o Governo. Nesses bairros «de casa de tambor, chapas e papelão improvisadas» que cresceram com a pandemia de Covid-19, queixa-se da falta de segurança, principalmente à noite, e de casas de banho, com o mau cheiro por conta do excesso de lixo que vem sendo amontoado no local. Em entrevista exclusiva ao Asemanaonline, moradores dos bairros referidos dizem-se estar agastados com a péssima qualidade de vida que levam nessas zonas. Por isso, lançam um SOS, pedindo ao Governo e à Câmara de Júlio Lopes esforços no sentido de procurarem, como prometeram na campanha eleitoral, uma solução alternativa para esses bairros de lata no Sal.

Por: Luciana Cruz/Redação

Reportagem/Bairros de lata da vergonha no Sal: Moradores denunciam viver em condições sub-humanas e podem aos poderes públicos e municipais que busquem  solução para o problema e cumpram as promessas eleitorais

Conforme apurou a reportagem do jornal Asemanaonline, na ilha do Sal a maioria dos moradores das zonas de Alto de Santa Cruz e Alto de São João vivem em condições sub-humanas: sem o mínimo de qualidade de vida e condições de higiene. Sofrem com a falta de casas de banho, de segurança e com o mau cheiro por conta do excesso de lixo que vem sendo amontoados no local.

Segundo dados oficiais divulgados em 2019 pelo Ministério das Infra-estruturas, ordenamento do território e habitação, o défice habitacional no Sal (quantidade de habitações inexistentes ou inadequadas sem condições de habitabilidade) é crítico e ronda os 20.2%, correspondendo a 1.666 de 8.241 agregados familiares, sendo a terceira ilha com maior défice habitacional. A oferta não está à altura da demanda, gerando bairros clandestinos na maior ilha turística do país - caso das casas de lata da vergonha no Sal.

Lixo acumulado e o mau cheiro incomoda moradores

À reportagem deste jornal, alguns moradores disponibilizaram-se para falar daquilo que lhes afligem e das dificuldades que estão a enfrentar. Nilton Ramos, natural da ilha de São Nicolau, mas que vive há 20 anos na ilha, conta que, por causa da quantidade de lixo acumulado no local, o mau cheiro costuma incomodar os moradores destas zonas, sendo por vezes "insuportável". Denuncia ainda que há um "desrespeito" por parte de algumas pessoas que não residem nesses lugares, mas que vão descartar o lixo na região.

“Há um excesso de lixo muito grande no local que nos incomoda. Há muitas pessoas que não vivem aqui, mas que vêm para essas zonas somente para descartar o lixo. Acredito que a Câmara Municipal deveria pelo menos investir na limpeza do local porque aqui há lixo que não acaba. Isto sem contar que há pessoas que vivem em casas com péssimas condições - sem casas de banho”, relevou.

Falta de Segurança

Assim como ele, mais adiante, a reportagem do A Semana encontrou Gracilinda da Conceição, que reclama das mesmas dificuldades. Natural da ilha de Santiago e peixeira de profissão, Conceição admite que não se sente segura por se sente a todo momento ameaçada e com "medo" de sair às ruas à noite devido à fraca iluminação pública.

“O Governo deveria investir mais em nós. Sofremos com a falta de água, de luz, de casas de banhos e sofremos ainda com a falta de condições mínimas. Aqui nós não temos nenhuma condição e nenhum tipo de segurança à noite", reiterou.
É uma situação complicada, assim definida por Gracilinda Conceição, que vive há dois anos na ilha do aeroporto Internacional de Amílcar Cabral. Desanimada, a fonte revela que escolheu a ilha do Sal para procurar uma vida melhor, porém as coisas tornaram-se "ainda pior". “Não está nada fácil viver nestas condições e com a pandemia as coisas pioraram", expressou.

Impacto da pandemia

Já Beverly Gomes, natural da ilha de Santiago, disse, entretanto, à reportagem do A Semana que a situação está difícil e que por conta da pandemia de COVID-19 se encontra desempregada. Por isso, revelou que não encontrou mais nenhuma alternativa que não fosse morar na região.

"Nós fazemos barracas para morar porque nós não temos condições suficientes para arrendar uma casa maior”, anunciou.

A fonte deste diário digital revela, por outro lado, que viver nessas condições é estar constantemente com medo das barracas pegarem fogo.
“Viver em barracas é viver constantemente com medo - com medo do fogo e da chuva", salientou.

Sendo assim, Beverly Gomes faz um apelo ao Governo no sentido de resolver estes problemas, ao mesmo tempo que exige que se cumpra prometido na campanha eleitoral.

“Eu penso que o Governo deveria ver como está a nossa situação. Deveria dar-nos mais atenção e cumprir as promessas feitas ao longo da campanha eleitoral. Sempre ouço as pessoas a falar das casas para todos, mas nós não conseguimos nada”, expressou Beverly, indignada.

Lixo a céu aberto e fezes vazado no local

Além da "grande “quantidade de lixo a céu aberto, Gomes reclama das pessoas que fazem necessidades fisiológicas em sítios públicos na região, "sem o mínimo respeito para com os moradores".

“Lixo nos incomoda e todas as pessoas vêm aqui e fazem as suas necessidades fisiológicas no local, sem respeito aos moradores. Não nos respeitam. É como se nós que moramos em Alto de Santa Cruz somos lixo. A Câmara Municipal aparece três vezes por semana, para limpar, mas as pessoas daqui também não ajudam porque vêm e colocam o lixo", enfatizou.

Por outro lado, Alhinho Alves Silva, natural da ilha de São Nicolau, afirma que as pessoas estão a viver em “condições precárias de habitabilidade”. Por isso, é preciso, segundo ele, "fazer algo".

"Acho que a Câmara Municipal deveria conversar mais com as pessoas, as explicar o que deveriam fazer, falar das dificuldades que estão a passar neste momento, mas de forma verdadeira e não enganar o povo porque se não as pessoas não vão e continuarão a criar barracas porque sabem que as promessas não serão cumpridas", expressou.

Alhinho Silva, que reside na localidade há vários anos, revelou ainda que com a pandemia viu as casas de lata aumentar.

Câmara Municipal do Sal por reagir

Entretanto, o Asemanaonline tentou ouvir Jucelino Cardoso, vereador da Câmara Municipal do Sal, pela área de coesão, inclusão social e habitação, para saber dos projetos para resolver este problema na ilha, mas foi sem sucesso.

O jornal sabe que o município já dispõe de um Plano Municipal de Habitação, que foi apresentado a 08 de Março pelo Edil do Sal, plano esse que não foi possível saber mais detalhes. Mas o Asemanaonline promete retomar esta matéria para revelar os projetos que a Câmara Municipal dispõe «para erradicar os barros de lata da vergonha da ilha».

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