OPINIÃO

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

Amílcar Cabral e Língua Portuguesa 22 Outubro 2019

Defensor consequente da cultura e da identidade dos povos Guineense e Caboverdiano Amílcar Cabral posicionava-se contra qualquer tipo de oportunismo, referindo-se aos "camaradas que pensam que para ensinar na nossa terra é fundamental ensinar em Crioulo já", ou então "em Fula, em Mandinga, em Balanta".
Apologista do ensino em Crioulo, mas só depois de o mesmo ser bem estudado, Amílcar Cabral defendeu que, antes disso "a nossa língua para escrever é o Português". Apelando ao sentido de realismo, e sem proibir que ninguém escrevesse em Crioulo, sustentou que "o Português (língua) é uma das melhores coisas que os «Tugas» nos deixaram" e que "se queremos levar para a frente o nosso povo, durante muito tempo ainda, para escrevermos, para avançarmos na ciência, a nossa língua tem que ser o Português, até um dia em que, tendo estudado profundamente o Crioulo, encontrando todas as regras de fonética boas para o Crioulo, possamos passar a escrever o Crioulo".

Por: Adrião Simões Ferreira da Cunha*

Amílcar Cabral e Língua Portuguesa

No dia 14 foi publicado o meu Artigo Sobre a Língua Portuguesa no Mundo que mereceu vários comentários, alguns muito valiosos por terem enriquecido o meu conhecimento o que agradeço, pois há Artigos meus que andam no mundo como "almas penadas", tropeçam pela obscuridade, até que um dia aparece alguém que os tira do limbo do esquecimento, e isto, parecendo que não, dá esperança.
Neste contexto publico agora este Artigo, tendo presente que o Governo de Cabo Verde aprovou em 25 de Julho deste ano a elevação a Património Cultural Imaterial Nacional a Língua Caboverdiana - o Crioulo, tendo o Ministro da Cultura e Indústrias Criativas Abraão Vicente afirmado "nós decidimos que é um passo muito importante, a valorização do Crioulo, da Língua Caboverdiana, como um todo e a sua valorização também como uma peça para a elevação da Morna a Património Imaterial da Humanidade".

Amílcar Cabral definiu a luta de libertação como um ato de cultura e no contexto da libertação nacional foi um líder revolucionário, e também um "pedagogo da revolução", como lhe chamou Paulo Freire (educador e filósofo Brasileiro considerado um dos mais notáveis na história da pedagogia mundial).

Para Amílcar Cabral a educação era uma garantia do sucesso da própria luta de libertação nacional. Além de promover a formação militar, académica e cultural de quadros, no estrangeiro e no país, ministrou, ele próprio, vários seminários e empreendeu a educação das crianças. Em Dezembro de 1964, criou uma escola-piloto no bairro de Ratoma, nos subúrbios de Conakry, que funcionava em regime de internato, depois seguiram-se mais escolas nas regiões libertadas.

Amílcar Cabral partiu do conceito que a libertação nacional não se limitava à conquista da independência, ou ao içar da bandeira nacional, mas implicava a plena emancipação do homem e a "libertação das forças produtivas humanas e materiais da nossa terra, no sentido delas se poderem desenvolver plenamente de acordo com as condições históricas que a gente está vivendo hoje em dia", e apresentou o contributo da "Arma da Teoria", ou seja, o conhecimento científico, para o sucesso das revoluções de libertação nacional.

A ligação teoria-prática em Amílcar Cabral nota-se na própria atuação como líder, ao ligar o discurso à prática, incitando cada combatente a "pensar para agir e agir para melhor pensar". Além disso, a relevância do conhecimento científico da realidade política, económica, social e cultural, como pressuposto da sua transformação, foi salientada por Amílcar Cabral ao observar que "a nossa própria realidade não pode ser transformada a não ser pelo seu conhecimento concreto".

Ao longo dos seus textos Amílcar Cabral não só sublinha a ideia de que a luta para a independência e o progresso só pode ter sucesso apostando na educação e na aprendizagem como aplica uma prática consequente ao procurar criar condições para que a cultura e o saber fossem acessíveis a todos, nomeadamente através do cultivo da leitura: "Criar, a pouco e pouco, bibliotecas simples nas zonas e regiões libertadas, emprestar aos outros os livros de que dispomos, ajudar os outros a aprender a ler um livro, o jornal e a compreender aquilo que se lê (…) Levar os que lêem a discutir e a dar opinião sobre o que leram".

Se a pedagogia da libertação de Amílcar Cabral tinha por base a defesa da identidade e da cultura nacional, esta posição não significava desprezar a cultura dos outros, implicando, antes, o seu aproveitamento "em tudo quanto é bom para nós, tudo quanto possa ser adaptado às nossas condições de vida", pois que "a nossa cultura deve desenvolver-se numa base de ciência, deve ser científica".
Assim, Amílcar Cabral combatia tanto a aceitação acrítica como a negação absoluta de tudo quanto é estrangeiro, insistindo que "devemos saber, diante das coisas do estrangeiro aceitar aquilo que é aceitável e recusar o que não presta", o que exige a capacidade "assimilação crítica".

A visão de Amílcar Cabral sobre a cultura tende, pois, para a "multiculturalidade" que, no sentido de Paulo Freire, "não se constitui na justaposição de culturas", nem muito menos na sobreposição de uma cultura sobre as outras, mas na "liberdade conquistada" de cada uma delas se mover no respeito pela outra, correndo, livremente, "o risco de ser diferente, sem medo de se ser diferente".

Defensor consequente da cultura e da identidade dos povos Guineense e Caboverdiano Amílcar Cabral posicionava-se contra qualquer tipo de oportunismo, referindo-se aos "camaradas que pensam que para ensinar na nossa terra é fundamental ensinar em Crioulo já", ou então "em Fula, em Mandinga, em Balanta".
Apologista do ensino em Crioulo, mas só depois de o mesmo ser bem estudado, Amílcar Cabral defendeu que, antes disso "a nossa língua para escrever é o Português". Apelando ao sentido de realismo, e sem proibir que ninguém escrevesse em Crioulo, sustentou que "o Português (língua) é uma das melhores coisas que os «Tugas» nos deixaram" e que "se queremos levar para a frente o nosso povo, durante muito tempo ainda, para escrevermos, para avançarmos na ciência, a nossa língua tem que ser o Português, até um dia em que, tendo estudado profundamente o Crioulo, encontrando todas as regras de fonética boas para o Crioulo, possamos passar a escrever o Crioulo".

Num seminário aos quadros do Partido, onde explicou a opção pela Língua Portuguesa, Amílcar Cabral referiu que a língua não é senão um instrumento para os homens se relacionarem uns com os outros, um meio para falar, para exprimir as realidades da vida e do mundo. "Mas o mundo avançou muito, nós não avançamos muito, tanto como o mundo, a nossa língua ficou ao nível daquele mundo a que chegamos que nós vivemos, enquanto o tuga, embora colonialista, vivendo na Europa, a sua língua avançou bastante mais do que a nossa, podendo exprimir verdades concretas, relativas, por exemplo, à ciência. Por exemplo, nós dizemos assim: a Lua é um satélite natural da Terra. Satélite natural, digam isso em Balanta, digam em Mancanha. É preciso falar muito para o dizer, é possível dizê-lo, mas é preciso falar muito, até compreender que um satélite é uma coisa que gira à volta de outra. Enquanto em Português, basta uma palavra. Falando assim, qualquer povo no mundo entende. E a Matemática, nós queremos aprender Matemática, não é assim? Por exemplo, raiz quadrada de 36. Como é que se diz raiz quadrada em Balanta? É preciso dizer a verdade para entendermos bem. Eu digo, por exemplo: a intensidade de uma força é igual à massa vezes aceleração da gravidade. Como é que vamos dizer isso? Como é que se diz aceleração da gravidade na nossa língua? Em Crioulo não há, temos que dizer em Português. Mas para a nossa terra avançar, todo o filho da nossa terra, daqui a alguns anos tem que saber o que é aceleração da gravidade. Camaradas, amanhã, para avançarmos a sério, não só os dirigentes, todas as crianças de nove anos de idade têm que saber o que é a aceleração da gravidade. Na Alemanha, por exemplo, todas as crianças sabem isso".

"Há muita coisa que não podemos dizer na nossa língua, mas há pessoas que querem que ponhamos de lado a Língua Portuguesa, porque nós somos Africanos e não queremos a língua de estrangeiros. Esses querem é avançar a sua cabeça, não é o seu povo que querem fazer avançar. Nós, Partido, se queremos levar para frente o nosso povo, durante muito tempo ainda, para escrevermos, para avançarmos na ciência, a nossa língua tem que ser o Português".

Amílcar Cabral, embora conhecedor e respeitador das características socioculturais do contexto, fez a opção política pelo Português como língua oficial. Segundo Luiza Cortesão, Professora Emérita da Universidade do Porto e Presidente da Direção do Instituto Paulo Freire de Portugal, Amílcar Cabral tinha consciência do estatuto, histórico e internacionalmente reconhecido da Língua Portuguesa que iria favorecer as relações internacionais com o novo Estado-Nação. Recorrendo ao lema "Unidade e Luta" num país, onde existiam diferentes povos falando várias línguas, a opção por uma delas poderia, também, constituir uma ameaça à “unidade” necessária ao Estado-Nação por cuja construção lutava. A escolha do Português como língua oficial terá sido uma opção tática de uma estratégia para alcançar o objetivo maior, que era essa construção do Estado-Nação.

Aliás, a opção pela língua de Camões foi tomada pelos movimentos independentistas ainda no decurso da luta de libertação e resultou do reconhecimento de que a sua utilização concorreria eficazmente para consolidar as fronteiras políticas e culturais dos futuros Estados, contribuindo também para fortalecer a independência e a unidade nacional, como refere José Manuel Matias, mestre em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa.

Neste contexto de contingência histórica a Língua Portuguesa em África (principalmente em Angola e Moçambique, onde a geografia não forjou nenhum Crioulo) não é um instrumento neutro, um duvidoso meio de comunicação entre os africanos, mas a expressão da sua afirmação nacional. Em suma é um fator de apaziguamento político e social.

A Língua Portuguesa não tem um território contínuo, mas sim territórios separados em vários Continentes e não é privativa de uma comunidade, mas é sentida como sua, por igual, em comunidades distanciadas.

A Língua Portuguesa é a 4ª mais falada no Mundo, sendo Língua Oficial na União Europeia, na União Africana, nas Organizações Ibero-Americanas, e nas Agências e Organismos da Nações Unidas, num total de 32 Organizações Internacionais.

Lisboa, 19 de Outubro de 2019
— -
*Estaticista Oficial Aposentado, Antigo Vice-Presidente do Instituto Nacional de Estatística de Portugal

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