OPINIÃO

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

Pensar em tempos de pandemia 16 Maio 2020

A dignidade e a grandeza dos seres humanos residem no pensamento. É por meio do pensamento que, cada um de nós, se torna consciente da nossa posição e do nosso papel no mundo. Assim, a pandemia provocada pelo COVID 19, não gera apenas perplexidade, desespero e medo, ela também desperta o pensar. E quando isso acontece, não só procuramos a cura para o mal que nos afeta, como também olhamos para o outro como nosso semelhante. Solidarizamos uns com os outros, ajudamos e cuidamos dos mais vulneráveis e necessitados.

José João Neves Barbosa Vicente*

Pensar em tempos de pandemia

Nós os seres humanos estamos a atravessar um período difícil, desesperador e, provavelmente, sem precedentes na história da nossa existência. A pandemia provocada pelo COVID 19 continua a ceifar vidas em números assombrosos, a afetar a economia e a mudar a forma de viver em todo o planeta. O cenário mundial é, no mínimo, triste, não pela mudança de nossas rotinas de vida ou pela perda econômica/material, mas sim pela perda de vidas; milhares de nossos semelhantes morrem todos os dias, diante dos olhos da sociedade em geral, dos cientistas, políticos, estudiosos e pensadores de várias áreas do conhecimento.

A pandemia não escolhe suas vítimas, mas os seres humanos “pobres” são sempre os mais vulneráveis e, portanto, os mais atingidos e os que mais sofrem. Para muitos deles, água e sabão, fundamentais para a higienização das mãos contra COVID 19, costumam ser produtos escassos ou de difícil acesso. O isolamento considerado essencial para evitar a propagação do vírus é, também, um problema para eles, principalmente porque as condições nas quais vivem, não proporcionam o mínimo de conforto para suportar essa nova rotina de vida; as dificuldades só tendem a aumentar. A pandemia como qualquer outra crise mundial afeta todos os seres humanos, mas os seres humanos “pobres” sofrem as maiores consequências.

A verdade é que, como seres vivos, somos frágeis independentemente da nossa situação ou posição, mas as condições materiais permitem a alguns suportar a pandemia e as mudanças de rotinas de vida por mais tempo e com menos dor e sofrimento do que outros. Nas palavras de Pascal, nós seres humanos somos os mais fracos da natureza; cada um de nós não passa de um “caniço” que, para ser esmagado, “não é preciso que o universo inteiro se arme”. Podemos ser mortos apenas com “um vapor, uma gota de água”. Estamos a assistir a cada dia a morte de milhares de seres humanos no mundo, causada não por monstros gigantes, catástrofes naturais ou armas de destruição em massa, mas sim por um minúsculo vírus.

Apesar de sermos um simples “caniço, o mais fraco da natureza”, somos “um caniço pensante”, diz Pascal. A dignidade e a grandeza dos seres humanos residem no pensamento. É por meio do pensamento que, cada um de nós, se torna consciente da nossa posição e do nosso papel no mundo. Assim, a pandemia provocada pelo COVID 19, não gera apenas perplexidade, desespero e medo, ela também desperta o pensar. E quando isso acontece, não só procuramos a cura para o mal que nos afeta, como também olhamos para o outro como nosso semelhante. Solidarizamos uns com os outros, ajudamos e cuidamos dos mais vulneráveis e necessitados.

Diante de uma crise global, o pensar se desperta e as diferenças sociais, econômicas, políticas ou religiosas costumam ser deixadas de lado para que a verdadei ra face humana dos homens se manifeste. Ajudar aqueles que precisam é um ato de grandeza. Nessa pandemia, esse ato acontece todos os dias de diversas formas. Ele precisa continuar após a pandemia, como atividade comum e permanente entre nós, para que possamos aliviar a dor e o sofrimento de um grande número de seres humanos ao redor do mundo.

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*Professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB)

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