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A SEMANA : Primeiro di?rio caboverdiano em linha

Francisco Fragoso: “A nossa língua é naturalmente oficializada” 31 Março 2013

Para Francisco Fragoso, Kwame Kondé, “a nossa língua é naturalmente oficializada e não se pode disparatá-la, teatralmente falando, em traduções que são autênticos assassinatos dos originais em praça pública”. O médico e dramaturgo falou com o asemanaonline depois da apresentação da peça “A hora da queda da máscara”, integrada na celebração do dia Mundial do Teatro e da Mulher Cabo-verdiana.

Francisco Fragoso: “A nossa língua é naturalmente oficializada”

Esta sua ligação ao teatro como é que a comenta?

FF – Faço teatro assim como faço medicina. O teatro é tão importante que quem faz medicina tem de fazer teatro.

É uma actividade longamente praticada por si.

FF – Eu comecei a fazer teatro desde os oito anos, quando, com a ajuda do meu pai, construímos um palco e fizemos um espectáculo. Foi assim que eu comecei e tenho continuado e continuarei até poder.

Para quando um regresso a Cabo Verde com uma peça de teatro?

FF- O problema que se põe não é da minha parte. Já houve muitos contactos. As pessoas de lá é que têm de assumir a nossa deslocação, porque não temos disponibilidade financeira para pagar as passagens e a estadia. Já houve muitos contactos, mas à ultima da hora, não há verbas. Este é que é o problema.

Tem havido deslocações de grupos cabo-verdianos de teatro para o exterior. Porque não existe uma deslocação para Cabo Verde?

FF – O problema deve ser posto às entidades cabo-verdianas. Aliás, há quatro anos preparei uma caravana muito forte, para levar a Cabo Verde, em que a Câmara Municipal da Praia custeava a nossa estadia e toda a logística, e o governo custeava as passagens. À última da hora o governo falhou. A partir daí, pode ver os prejuízos que eu tive no aspecto psicológico, inclusivamente em relação aos jovens que tinha preparado. Para me deslocar a Cabo Verde tem de ser uma coisa bem concreta. Talvez não estão interessados que eu vá com uma peça de teatro.

E para outros pontos da diáspora cabo-verdiana?

FF – Nós temos tido alguns convites. A partir do próximo do ano tenho que pensar nisso, porque, em relação a Cabo Verde já cheguei à conclusão que não vale a pena.

Sente alguma mágoa em relação a esta falta de apoio?

FF- Não sinto mágoa. Mas tristeza, porque quem perde é Cabo Verde. Vou à minha terra, à minha custa, não sou rico. Há cerca de dois anos desloquei-me a Santa Catarina onde criei um grupo de teatro, mas tudo pago por mim. Hoje o grupo está no meu livro e chama-se “Grupo Juvenal Cabral”.

Será que se pretende fazer cultura a custo zero?

FF- Abaixo de zero. E no teatro todas as artes estão lá. Dizia António Pedro Costa, muito bem, que num país onde não há teatro não há civilização. Nesse caso, posso dizer que em Cabo Verde, nesta base, não há civilização, porque não há teatro.

Mas o MindelAct tem sido uma referência a nível de África.

FF – O MindelAct - já o disse várias vezes - tem muito apoio. Tem todo o apoio. Se eu tivesse esse apoio teria feito muito melhor. Por outro lado, o MindelAct anda a fazer coisas em relação às quais sou contra. Inclusivamente têm pegado em peças universais e maltratá-las. Não pode ser. Eu sou contra. A nossa peça é bilingue. Posso escrever eu. Muito bem. Não vou pegar em Molière ou Shakespeare para traduzir para a nossa língua. A nossa língua não permite. É maltratá-los. Não pode ser. Embora domine muito bem essas línguas estrangeiras. Mas, neste momento, não vou fazer uma coisa dessas.

Acha que a nossa língua é limitada para um Shakespeare?

FF- É. Para mim, é. Teatralmente falando. Temos que ser humildes, como as pessoas não conhecem a nossa língua e vão tentar fazer e fazem.

Em relação a este aspecto qual seria a via que se devia seguir?

FF – Escrever peças na nossa língua, com o vocabulário que nós temos como fiz com “Korda Kauberdi”. As peças que eu escrevi em Cabo Verde eram a na nossa língua. Montei Brest, mas em português, porque não dá para a nossa língua. Eu já vi peças assassinadas na nossa língua. Isso é grave. E ninguém abre a boca para dizer . Eu digo abertamente. Porque tenho moral para dizer porque fui eu quem pôs o teatro cabo-verdiano nos píncaros onde está. Eu domino muito bem a língua francesa e posso fazer uma versão em português, mas em cabo-verdiano, nem pensar.

Quer dizer que, com a oficialização do crioulo, teremos essa grande limitação de não poder traduzir os clássicos?

FF- Acho que o problema da oficialização é que a nossa língua é, naturalmente, oficializada. Sou contra gastar dinheiro com esta coisa da oficialização. O que não se pode é disparatar a nossa língua. Nós temos é que dar apoio a pessoas que sabem escrevê-la. O que acontece é que muitos estão a escrever na nossa língua e não a dominam. Eu não posso compreender determinadas traduções em língua cabo-verdiana. Isso é que é grave.

AC

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