ACTUALIDADE

A SEMANA : Primeiro di?rio caboverdiano em linha

A “bomba” que implodiu 02 Setembro 2011

Cabo Verde esteve, no domingo eleitoral de 21 de Agosto, à beira de um escândalo de consequências imprevisíveis e repercussões graves no plano interno e internacional. Na origem do rastilho o deputado do MpD, António Jorge Delgado, de quem a PJ ouviu cerca do meio-dia que “um avião privado carregado de droga proveniente do continente africano”, trazendo a bordo altos dirigentes angolanos e Silvino da Luz, “estava para aterrar no aeroporto de São Pedro”. A “bomba só não rebentou” porque o mau tempo desviou o avião para o Sal. A Polícia Científica agiu com prudência e pôde confirmar que tudo não passou de “um falso alarme posto a circular”. O caso vai agora a Tribunal. Contactado, António Jorge Delgado não confirma nem desmente o sucedido, remete tudo para o cenário de um filme de “ficção científica, ou política”. E a ser verdade, nunca abordaria na comunicação social esta questão que envolve uma instituição tão importante como a PJ.

A “bomba” que implodiu

A Polícia Judiciária assevera que a questão foi despoletada no domingo eleitoral de 21 de Agosto, por António Jorge Delgado, deputado e antigo ministro da cultura do governo do MpD. “Depois de ter feito sem sucesso três chamadas para o móvel do chefe da PJ no Mindelo, António Jorge Delgado dirigiu-se, por volta das 12 horas, à sede da instituição no Mindelo, onde apresentou uma queixa. Disse haver suspeitas de que um avião privado, proveniente do continente africano, estaria a aterrar naquele dia no Aeroporto Internacional de S.Vicente, carregado de droga e dinheiro, presumivelmente resultante da lavagem de capital (tráfico de droga e diamantes), para compra de votos a favor de um dos candidatos à segunda-volta das presidenciais. O deputado pediu que a PJ se dirigisse de imediato ao aeroporto para, no momento da aterragem do avião, averiguar tal situação. Delgado fez ainda saber que circulavam informações de que o aparelho trazia a bordo o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros de Cabo Verde (Silvino da Luz), bem como altos dirigentes e homens de negócios de Angola, designadamente Higino Carneiro, deputado e ex-ministro das Obras Públicas do governo do MPLA”.

Apresentada a queixa, António Jorge Delgado terá deixado as instalações da PJ para se dirigir ao Aeroporto de São Pedro, onde, se postou, com mais apoiantes, à espera de montar o seu show mediático: filmar a acção da PJ, a revista do avião e o desembarque dos presumíveis “criminosos”. Aliás, por coincidência ou não foi nessa mesma tarde que um grupo de passageiros, instigados por Jorge Santos invadiu a pista do aeroporto de São Vicente em protesto por um atraso da TACV.

“Era um plano diabólico, maquiavelicamente orquestrado para ‘aniquilar’ a credibilidade do partido no poder e tirar dividendos eleitorais. Um sinal perigoso de quão baixo podem ser os golpes na política do “Vale Tudo’”. “A sorte do país, a credibilidade que Cabo Verde goza no plano internacional podia ir abaixo nesse gesto tresloucado. Desde que cada um atinja os seus objectivos pessoais e políticos, nada mais importa”, analisa uma fonte policial.

PJ entra em cena

Diante deste aviso a PJ entrou em cena, certificando junto dos serviços da aviação civil e da empresa de Aeroportos e Segurança Aérea todos os planos de voo provenientes do continente negro. “A empresa de Aeroportos e Segurança Aérea confirmou que, na tarde do dia 21 estava prevista a aterragem no Aeroporto Internacional de São Vicente, de um Jet executivo ‘Hawker’ proveniente da Serra-Leoa, via Guiné-Bissau. Mas este voo, devidamente autorizado pelos serviços da aviação civil cabo-verdiana, tinha sido transferido, devido à baixa visibilidade provocada pelo mau tempo e chuvas, para o Aeroporto internacional Amílcar Cabral. Accionada a PJ do Sal, esta mandou para o local dois agentes, que, acompanhados por pessoal da ASA, esperaram a aterragem da aeronave. De imediato os policiais entraram e revistaram o aparelho, tendo encontrado os passageiros apenas com a sua bagagem e alguns presentes. Mas não descobriram droga nem dinheiro a bordo, conforme a denúncia feita”, descreve um dos envolvidos nesta operação. Ainda segundo a mesma fonte, a comitiva ministerial da República Popular de Angola, assim como o diplomata Silvino da Luz – que presta serviço ao estado angolano – e o tradutor José Luís Nascimento (Penúria) ficaram surpreendidos e indignados com esta operação da “Judite”.

Abordado sobre este particular, António Jorge Delgado tenta demarcar-se desta polémica, apesar de a PJ e ASA o apontarem como o autor da denúncia em causa. Mas pressionado, o deputado ventoinha admite que mesmo que tivesse ido à polícia não trataria na comunicação social esta questão que envolve uma instituição tão importante como a PJ. “Mesmo que fosse verdade não falaria desta questão na comunicação social. Isto só pode ser uma ficção política. Eu não ouvi ninguém a falar desta questão”, salienta o parlamentar ventoinha.

Silvino da Luz também se escusa por ora a falar desta “bomba que não rebentou”. É que, conforme se depreende das suas palavras, trata-se de “uma matéria melindrosa” que deve ser tratada no momento oportuno e nos meios apropriados, previsivelmente no Tribunal.

Contexto e implicações

Este falso alarme poderia, se a Polícia Judiciária tivesse mandado pura e simplesmente apreender e revistar o aparelho em causa, assumir contornos políticos graves, com repercussões negativas para os dois Estados, nas nossas relações com esse país e na imagem externa de Cabo Verde. “Um acto, vexatório para altos dirigentes, diplomatas e executivos de empresas da RPA que deviam visitar vários países da nossa sub-região, com uma curta escala em Cabo Verde devidamente autorizada pela Aviação civil nacional, com o fito de cuidar dos interesses do Estado angolano naquela região do continente negro”, comenta uma fonte diplomática.

Frente a esse tema recorrente em tempo de eleições e, pelos vistos, com contornos cada vez mais escabrosos, a mesma fonte pontua: “Os políticos acham que podem tudo, inclusive lançar suspeitas graves, pondo em causa a idoneidade das pessoas e as instituições da República. Passadas as eleições, os acusadores ficam tranquilos e impunes, como se nada tivesse passado”.

Esta denúncia de António Jorge Delgado junto da Polícia Judiciária tem contornos muito parecidos com o caso despoletado depois das legislativas de Fevereiro deste ano por Lídio Silva. Um outro caso que também espera para ser deslindado na justiça, pois o PCA da ASA já intentou uma queixa-crime para obrigar o Lídio Silva a provar o que disse. O dirigente da UCID – além de que teria denunciado que o PAICV comprou votos com dinheiro proveniente de Angola – chegou inclusive a avançar que, naquele período, aterrou no aeroporto de S.Pedro um bombardeiro russo de marca Sukkoi MIG, transportando dinheiro e presumivelmente drogas e armas.

Linchamento Público

“E de insinuação em insinuação, de suspeição em suspeição vão-se introduzindo sinais perturbadores no sistema eleitoral cabo-verdiano que embora parecendo simples estratagemas eleitoralistas podem pôr em causa a paz social e a própria democracia cabo-verdiana”, comenta um analista político. O mesmo se pode dizer sobre a acusação feita, na segunda-volta das presidenciais, ao ex-delegado da CNE nos EUA, António Gerson Semedo. O diário digital Forcv noticiou que Semedo foi detido, no Aeroporto de Bóston e impedido de entrar nos EUA, com 250 mil dólares e 800 passaportes e bilhetes de identidade. Manuel Faustino, mandatário de JCF, retomaria a acusação logo depois, em conferência de imprensa promovida na Praia, pedindo explicações à CNE. E esta, através da Maria João Novais, esclareceu que, além dos bens pessoais que levava consigo, Semedo só tinha a verba que a Comissão Nacional de Eleições lhe havia dado para as operações da segunda-volta, no montante de 2.531 dólares. A Forcv – que desde a primeira hora omitiu o facto de que Gerson não foi deixado entrar em território americano por ter o visto caducado – viria a pedir desculpas por imprecisões da notícia. Entretanto ainda não foi objecto de um processo-crime.

Para a fonte deste jornal, a “bomba de 21 de Agosto só não explodiu” porque a PJ entrou em cena e descobriu rapidamente que tudo não passou de um falso alarme que, a continuar, poderia desacreditar o sistema democrático cabo-verdiano e minar as relações entre Luanda e a Cidade da Praia.

O objectivo da missão angolana

A missão Angola seguia, conforme fontes aeroportuárias, rumo à costa ocidental africana. A comitiva, na qual sobressaía Hgino Carneiro, deputado e ex-minstro das obras públicas do governo do MPLA, chegou no dia 19 à ilha do Sal, num voo privado. Nesse mesmo dia, fez uma escala no Mindelo, onde apanhou Silvino da Luz, o diplomata cabo-verdiano que presta serviço ao estado angolano, e José Luís Nascimento (Penúria) que foi contratado parra trabalhar como tradutor nos encontros que iriam realizar na Serra Leoa e Guiné-Bissau.

A estes se juntaram diplomatas e executivos de empresas da RPA. Todos seguiram no mesmo voo que saiu de Mindelo com destino à Serra Leoa, passando pela Guiné-Bissau.

Conforme as nossas fontes, o grupo teve vários encontros de trabalho com instituições públicas e privadas da região. Na agenda estavam sobretudo os interesses do estado angolano, com destaque para a exploração de bauxite na extensa faixa que vai desde a Guiné-Bissau, passando pela Guiné-Conakry até chegar à Serra Leoa, entre outros países. Isto sem contar com o grande projecto de Porto de Águas Profundas que Luanda está a desenvolver em Bissau.

Uma avaria obrigou a missão empresarial angolana a trocar de avião, viajando assim para Cabo Verde num Jet executivo Hawker. Este voo deveria escalar Mindelo, onde o grupo pensava almoçar com Silvino da Luz. Mas por causa do mau tempo, a viagem foi desviada para o Aeroporto do Sal. Os tripulantes e passageiros desembarcaram sob vigia da PJ. Silvino e José Luís Nascimento regressaram a Mindelo num voo doméstico e o restante pessoal de Angola dormiu na ilha do Sal, seguindo viagem às 6 horas do dia 22, rumo a Luanda.

Os artigos mais recentes

100% Prático

publicidade






Mediateca
Cap-vert

Uhau

Uhau
publicidade


Newsletter