HISTÓRIA

A SEMANA : Primeiro di?rio caboverdiano em linha

Chã de lavas, arena da discórdia baseada na barreira que traçou a fortuna ou a raça. 21 Agosto 2010

Será o centro desta arena o Passeio de nome Presídio. Que nome para o Passeio Público onde secularmente passeamos as vaidades. Aqui olhamos em frente a Brava, para onde se foge quando o fogo se desentranha das profundezas da terra. À sombra do vulcão, o sono será dos justos? Por: Maria de Lourdes Lima

Chã de lavas, arena da discórdia baseada na barreira que traçou a fortuna ou a raça.

Fogo. Vulcão, a metáfora do Crioulo, homem esquentado, de rompantes, não espirra, antes estrondeia: Oiá kma min e fogu, oiá fogu ka ta brinka spiá /spirrá na mar, spiá /spirrá na rotxa ka bo spiá /spirrá na min. Xpiá? Xpirrá? Com o Bana nunca se sabe: com ele a epifania de novos sentidos, novas semânticas, novos universos de sentido. Tudo porque percebeu um som a mais ou a menos.

Nha Mãe e fraca/fraka, nha pai e malòndre, a substituir nha pai e morte. E se calhar tem razão, quanto aos que se demitiram. Keskesonj, para maior glória da progénie dos que não desistiram. Isto pensa ou diz esta voz através do fio (aliás, wireless) que liga à nossa capital global, do outro lado do mar, a Merka, nesta manhã de Agosto. Frente ao cemitério que olha para a Brava. Dentro e fora, muitas histórias, estórias dirão preferentemente os portugueses do Ultramar, que já não o são pois se independentizaram. Geradas pela História – cuja factualidade talvez nunca se possa provar. Mas já são parte de nós, da nossa mitologia, desde a infância que ouvimos a Mãe, esta que do povo voz de Deus é, a prègar lições às filhas sobre a conduta: Não, filhas, não é pelo cônjuge que nos abandona a meio da noite, pela negra, talvez cativa escrava ou princesa, balanta ou etíope, ou só uma bela de ébano, e talvez já nem isso, uma parda de olhos verdes ou azuis, que nos venceu, e nos obriga a armar a mesa-de-pano-verde onde jogar iremos as fazendas, os cafezeiros, os vinhedos, as lojas, o sobrado onde moramos e que vocês sem perder o orgulho hão-de um dia ter de deixar, e quando vocês, filhos, já no Maria Amélia para a metrópole onde hão-de morrer soberbos mas indigentes, indigentes mas soberbos, há-de ser entregue ao ganhador.

Não, filhas minhas, morram invictas, arrisquem-se às varas que reserva às virgens o santo das portas do paraíso. Prefiram-nas, a conhecer o amor de perdição que dá um negro (de raça ou social, que negro é o branco dessobradado). Voz da Mãe, ou de Aniceto Brasão, o Lear a quem a codê (era-o?)salvou na sua progenitura, estes netos nascidos bastardos em casa do pai. Lear que não queria ser assim perpetuado. Foi-o. Ah se foi! Uma catacrese, esta Esmeralda filha de Aniceto. Também foi-o, uma catacrese, erro derivado da maneira de ser deste povo e que o geógrafo vindo da Metrópole deixou transcrito no seu Relatório, no índice corográfico. Assim o que o nome do lugar não dizia, o que o povo não quis, este vale honra cavaleiros que nunca se soube que aqui existissem. Por aqui, navegaram sim barcas baleeiras, com baleeiros, fura-vidas embarcando nestas frágeis naus rumo ao Norte.

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