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Pesca em mergulho - Brava, Fogo e São Nicolau são os únicos que cumprem 15 Agosto 2010

Pelos vistos, em Cabo Verde, o único sector que encara o mergulho como uma actividade de risco elevado, é o sector dos seguros. Experimentem fazer um seguro de vida ou de acidentes pessoais e de trabalho declarando ser mergulhador, o custo dispara logo quando não evitam esse compromisso. Isso em Cabo Verde, visto que nos países onde o mergulho é organizado e só o pratica quem estiver devidamente credenciado, até fazem promoção.

Pesca em mergulho - Brava, Fogo e São Nicolau são os únicos que cumprem

O mergulho é uma actividade segura quando o processo de formação é adequado assim como os procedimentos à volta do seu exercício. Aquele que pratica o mergulho em conformidade com os requisitos baseados nos seus princípios e normas poderá nunca sofrer qualquer acidente ou moléstia. Por outro lado, como é o caso da totalidade dos nossos pescadores-mergulhadores, em cada imersão com garrafa às costas existe fortes probabilidades de depararem com contrariedades.

Quando a respiração dá-se sob pressão, o que acontece na prática do escafandrismo, o organismo submete-se a transformações às quais não está naturalmente preparado, portanto acontecem alguns fenómenos que devem ser do conhecimento do praticante para poder garantir o regresso ao estado inicial, normal. Tais transformações são explicadas tendo por base algumas leis de física, da anatomia, da fisiologia, de cálculos matemáticos e muita teoria, o que, por outro lado, não serve de muito na ausência de equipamento apropriado.

Das três fases de uma imersão (descida, permanência e subida), as duas últimas é que impõem maiores cuidados. As medidas variam, dependendo da profundidade e do tempo de estada na mesma. Para permanecer e subir correctamente o mergulhador recorre a indicações de tabelas e do computador, tendo ainda que fazer uso do relógio, do profundímetro e do manómetro que indica o nível de reserva de ar na garrafa. Alguns mergulhos requerem uma ou mais paragens durante a subida e, mesmo quando não é indicado pela tabela ou computador, é aconselhável realizar sempre uma paragem de teor preventivo. Esses cuidados tornam o mergulho demoroso, algo que prejudica o exercício da pesca e acabam sendo preteridos perante o objectivo de produzir e realizar lucros.

Em cada mergulho o organismo acumula uma determinada quantia de nitrogénio ou azoto no organismo. Na falta de conhecimento e de meios para determinar essa quantia corre-se sérios riscos de acidentes de descompressão. O caso dá-se quando o nitrogénio alojado no sangue não dispõe de tempo suficiente para, gradualmente, libertar-se através da respiração. As minúsculas bolhas aumentam de volume durante a subida e se não disporem de tempo suficiente para a sua eliminação, acabam alojando-se à volta das articulações, nos tecidos nervosos ou continuam na circulação sanguínea e provocam embolias graves. Traduz-se isso em dores nas articulações, formigueiros subcutâneos, inibição de movimentos quando é de pouca gravidade. A paralisia parcial ou total seguida de morte acontece perante um erro mais grotesco ou repetição dos mesmos

Um levantamento efectuado no domínio sugere que 25% dos pescadores que exercem o mergulho sofreram acidentes de descompressão. Os falecidos não constam desta lista. Imagino que se os bombeiros, a polícia, os militares, a tripulação de aviões, os salva-vidas tivessem esse grau de risco, o pandemónio que não seria. Vinte e cinco por cento são excessivos comparados com os tais países que levam o mergulho, mesmo que minimamente, a sério, onde essa cifra por vezes não atinge 1%.

É no mínimo constrangedor entrevistar jovens de vinte e poucos anos impedidos de andar e outros que não defecam nem urinam por vontade própria ou então falar com pais destroçados pela perda dos filhos que cometeram o erro de abraçar uma profissão autorizada e permitida até bem pouco tempo por lei. Esta é uma sensação que gostaria de partilhar com todos os dirigentes que passam pelo sector e deixam apenas os seus discursos bem intencionados de uma rápida intervenção e produção de instrumentos e procedimentos adequados que impedem definitivamente tal prática.

As repetidas resoluções do governo desde 2007 dão razão aos Delegados Marítimos da Brava, do Fogo e de São Nicolau. Por ser danosa tanto à saúde dos praticantes quanto ao meio ambiente, a pesca com o uso de meios de respiração sob a água é proibida. Resta saber porquê que no resto do território nacional tal medida não é posta em prática em defesa da integridade física dos cidadãos e da protecção do frágil ecossistema marinho.

Emanuel C. D’Oliveira

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