HISTÓRIA

A SEMANA : Primeiro di?rio caboverdiano em linha

CABO VERDE: VIAGEM PELA HISTÓRIA DAS ILHAS (continuação) 27 Agosto 2010

S.NICOLAU – O terreiro das bruxas

Numa espécie de promontório sobranceiro ao mar no porto da Preguiça e guardado por oito antigas e ferrugentas bocas de fogo languidamente esparramadas na poeira vermelha como que banhos numa praia deserta, existe um padrão do tipo henriquino que diz que no ano de 1500, dia 22 de Março, passou ao largo da ilha de S.Nicolau a armada de Pedro Álvares Cabral na rota da descoberta das terras de Vera Cruz.

Germano Almeida

CABO VERDE: VIAGEM PELA HISTÓRIA DAS ILHAS (continuação)

À primeira vista pareceria mais lógico ver esse marco por exemplo na Ponta Calheta a leste, certamente que foi essa parte da ilha que Cabral avistou do mar. De todo o modo, não ficou memória de os da terra terem chegado a admirar a poderosa armada, e nem podia porque naquele tempo S.Nicolau ainda estava apenas povoada por cabras bravas. Assim, em princípio está garantido que os da ilha nada tiveram a ver com o misterioso desaparecimento da nau de D. Vasco de Ataíde, diz-se que para sempre extraviada nas nossas águas sem ter deixado qualquer rasto à superfície, nada absolutamente, sequer as famosas pipas de moscatel do torna-viagem que os entendidos afirmam adquirir sabores particulares e mais apetecíveis. O marco nada refere a respeito, mas sabe-se que, quando deu pela falta da nau, Cabral preocupou-se e logo ordenou dois dias de aturadas mas infelizmente infrutíferas buscas. Findas as quais rumou resolutamente para o seu destino, ainda Camões não existia mas na mesma outros valores mais altos já se alevantavam.

Por sorte, só dez anos depois chegaria gente à ilha de S.Nicolau levada da Madeira, de contrário os habitantes podiam ter corrido o risco de serem responsabilizados desse diabólico sumiço através das artes de bruxaria por que durante muitos anos foram acusados, e certamente condenados à fogueira, na altura ainda a Inquisição não tinha feito crescer o seu longo braço mas já era uma força temível.

Mas não se deve estranhar a colocação do marco nesse local, isto é, mais ou menos a meio da ilha. É que Preguiça, um porto com sete ou oito braças de fundo e com uma baía muito bem protegida, foi, até à construção do cais acostável no Tarrafal, o principal ancoradouro da ilha porque, além de muito seguro para os navios, possibilitava o fornecimento em água e víveres que eram adquiridos nos vales interiores da terra. Sobretudo depois de 1855, ano de grande carestia que antecipou a fome, a cólera e a mortandade de 1856, em que ali se construiu “um bello caes” sob a direcção gratuita do dr. Júlio José Dias, e “recebendo em paga o povo que ali trabalhava os mantimentos que o Governo enviava para a ilha”. De todo o modo, o ancoradouro da Preguiça fazia de S.Nicolau um razoável porto de escala, muito procurado pelos mercadores, mas também muito cobiçado pelos piratas.

Normalmente S.Nicolau é descrita como tendo uma forma externa irregular e desagradável ao observador que a contempla do mar. Curiosamente uma observação que já tinha sido feita a propósito de Santo Antão, e é certo que as duas ilhas são semelhantes até no pormenor de terem o interior composto de montes, montículos, serras, vales, algumas curiosas caldeiras de vulcões extintos e ribeiras no passado abundantes e férteis d’água.

Embora escarpada e árida, S.Nicolau possui não poucos lugares de beleza impressionante. Cito por exemplo o monte da Nossa Senhora da Cintinha, uma enorme rocha em forma de catedral que se ergue no meio da ilha com uma extraordinária majestade, mesmo na altiva decadência que a erosão vai a pouco e pouco provocando no seu corpo gigantesco. Pena é a capela construída no seu sopé, dizem que em homenagem à Senhora da Cintinha, que mais parece um pequeno brinquedo ali colocado para desfeitear a paisagem.

A ilha terá sido descoberta por Diogo Afonso em Dezembro de 1461, mas só em 1510 ali aportaram as famílias madeirenses que previdentemente já se faziam acompanhar dos seus próprios escravos. A grande riqueza agrícola de S.Nicolau fez com que fosse considerada como uma das mais importantes do arquipélago, especialmente após a importação de grande número de escravos da Guiné, circunstância que viria a transformá-la, até meados do século passado, no celeiro das ilhas do Sal e da Boa Vista.

Mas, como as demais, a sua colonização não foi isenta de percalços. Sofreu com violência a fome de 1720. No entanto, a que mais a marcou foi a medonha fome de 1773/75. Nessa altura já tinha uma população de cerca de 13.500 habitantes que por acção dela se viram reduzidos a menos de metade. A esses anos seguiram-se alguns de boas águas, a par de outros de grandes secas e fomes, até que a cólera mórbus, de que a ilha tanto tinha fugido em 1845 através de uma quarentena rigorosa dos navios que a ela aportavam, ali entrou de forma tragicamente triunfante em 1856 para impiedosamente matar cerca de 8.000 pessoas.

De modo que no ano de 1860 S.Nicolau só contava com 6.372 habitantes; em 1878 com 6.950 e em 1880 tinha uma população de 7.500 pessoas que aliás viria mais vezes a ser acossada pelas doenças e pela fome, como por exemplo a fome de 1900 ou a de 41/43 que matou cerca de um terço da população da ilha. Arsénio D. Firmino, foi administrador do concelho de S.Nicolau e em 1888 escreveu sobre a ilha e as suas gentes uma extensa e bela peça literária que acabou publicada no Boletim Oficial sob o inócuo nome de relatório. De algum modo o escrito de D.Firmino completa as observações do cónego Caetano, ainda que seja verdade que sobre alguns aspectos tenham os dois chegado a conclusões um tanto opostas. E é por isso que vale a pena comparar como um estranho e um filho das ilhas analisam a mesma realidade social. Diz, por exemplo, o cónego acerca das gentes de S.Nicolau: “Nos filhos da ilha reconhecemos habilidade, aparecem até algumas inteligências que, se fossem bem cultivadas e livres dos vícios de educação, dariam óptimos resultados. Gostam e são amantes das letras, mas repugna-lhes o trabalho, e dali a falta de aplicação; e contudo presumem de si um excesso, julgando-se muito sábios; são daqueles de quem dizia Séneca: saberiam mais se julgassem saber menos”.

E sobre os três grupos étnicos que identifica na ilha, observa: “Os indivíduos que constituem as duas primeiras raças (branca e preta) em geral são francos, leais, obsequiosos e lhanos no trato; os da terceira (mista de parda e mulata) ainda que aparentam aquelas qualidades, em breve deixam revelar a herança certa de ódio de raça que não podem vencer. É sobre ela que o estrangeiro deve estar de sobreaviso, com cuidado e sobriedade no trato para não ser iludido nem receber inesperados desenganos. Os traços característos das raças branca e mestiça são muito regulares: o cabelo quase liso e corredio, e o ângulo facial bem desenvolvido”. O pior defeito que o cónego encontra nos habitantes de S.Nicolau é a sua propensão para o ócio e serem “dados em excesso ao vício da embriaguês, donde provém a mania de pleitear, que muito transtorna a tranquilidade pública e o sossego doméstico”. Mas de resto, “são os habitantes da ilha muito hospitaleiros, afáveis com os estrangeiros e obsequiosos em suas relações mútuas, enquanto se não julgam ofendidos na sua demasiada susceptibilidade, o que é frequente pela natural desconfiança em que vivem com os europeus, e muito mais pela diversidade da língua, significação e interpretação contraria das palavras, porque muitos termos decentes, puros e castos do idioma português são entre eles obscenos e injuriosos”.

As palavras do cónego datam de 1879. O administrador Firmino escreve apenas 9 anos depois e tem sobre o outro a vantagem de ser filho da terra. Diz ele, por exemplo, que o povo de S.Nicolau era considerado como um dos mais civilizados do arquipélago, de tal forma que em tempos idos era tradicional falar-se da «nobreza de S.Nicolau» para se referir à fidalguia da generalidade da sua gente, sobretudo da classe abastada e mesmo mediana dos habitantes que tendia a seguir os usos e costumes europeus porventura herdados dos seus progenitores e gostava de importar belos e garbosos cavalos da ilha da Boa Vista.

Mas sem dúvida por efeito do distanciamento que essa “fidalguia” tendia a provocar em relação aos outros, amiúde os forasteiros queixavam-se de falta de amabilidade que se encontrava nas gentes de S.Nicolau, muito diferentes, lamentavam, das pessoas da ilha Brava, principalmente as mulheres. “Aqui tanto os homens como as mulheres são um tanto sombrios e muito propensos ao orgulho, quando supõem ser mal correspondidos”, refere o administrador Arsénio D. Firmino no seu texto, porém para acrescentar que o povo é em extremo bondoso, dócil, e submisso às leis e ordens emanadas de quaisquer autoridades. Raras vezes chega a haver da sua parte desacatos, abuso ou desvio ao respeito que deve à autoridade ou pessoas graduadas pela idade, posição individual ou oficial.

O administrador ressalva uma excepção a esse carácter ordeiro dos sanicolauenses, mas que no entanto só acontece na ocasião das operações eleitorais. Diz ele que nessa altura esse povo manso e cordato torna-se independentíssimo, soberbo e orgulhoso. Isso pode na verdade ser um tanto curioso, mas pudera, não é essa a única altura em que o povo sente que pode exercer algum poder! Mas no resto do tempo dispensa-se perfeitamente a força militar porque esse povo, com a lei e pela lei se governa, apesar, rematava ele, de alguns maus costumes que já vão aparecendo, importadas da vizinha ilha de S.Vicente.

S.Nicolau pode gabar-se de ter sido a primeira ilha de Cabo Verde a ter ensino “superior” com carácter de durabilidade. Isso com muitos protestos vindos um pouco de todos os lados, principalmente da Praia que não se conformava em ter perdido um liceu que parecia mais que instalado em Janeiro de 1861. Mas merece ser dito que não foi bem bem por acaso que o Seminário-Liceu apareceu ali estabelecido em 1867. É que não só desde 1851 S.Nicolau era cabeça da comarca de Barlavento, situação que durou até 1875, data em que foi transferida para Santo Antão, como também sempre tinha tido uma grande tradição de ensino, quer por iniciativa de particulares que tinham muitas escolas espalhadas pelo concelho e frequentadas por grande número de alunos, quer por obra do governo que já antes do seminário ali sustentava entre três a quatro escolas de instrução primária. Aliás, mesmo durante o periodo que durou o seminário continuou a haver três escolas de instrução primária elementar para o sexo masculino e uma para o sexo feminino, subsidiadas pelo governo, para além de uma quarta escola masculina sustentada pela câmara municipal. Todas, especialmente as masculinas, leccionando leitura, escrita, doutrina cristã, aritmética, sistema métrico decimal, gramática portuguesa e história. No dizer do nosso administrador, as escolas femininas é que não iam tão bem. Isso porque estavam directamente relacionadas com a maior ou menor ilustração das respectivas famílias que eram as únicas educadoras de suas filhas.

Mercê desse facto, era muito raro encontrar-se em S.Nicolau um homem do povo que não soubesse ler uma carta e escrever pelo menos o seu nome, e também fazer-se entender em português, circunstância que muito terá contribuído para o espírito empreendedor e grande inclinação para o trabalho que, pretende o nosso administrador em oposição ao padre, desde sempre distinguiu esse povo. Isso para além de um elevado espírito de curiosidade e vontade de experimentação, o que levou alguns cronistas, entre eles o cónego Caetano, a afirmar que cabe a S.Nicolau a glória de haver sido a primeira ilha em todo o arquipélago de Cabo Verde a fazer a tentativa de semear o arbusto do café, facto que com autoridade fixa em 1790, tendo sido a partir dali que foram mandadas sementes para Santiago, estendendo-se depois às demais ilhas. Bem, caso isso tenha sido verdade, não se passaram muitos anos para a cultura do café vir a ser preterida a favor da cana do açúcar e da vinha, das quais se fabricavam, e também se consumiam, grandes quantidades de aguardente e vinho. Porque, no dizer do administrador, esse povo saboreia com deleite a aguardente, a que chama patrícia, com a mesma voluptuosidade com que o inglês saboreia a cerveja e o cognac, e o bom português o seu carrascão. No dizer do povo, a aguardente serve de cura a toda a doença: se tem frio toma um cálice de aguardente para chamar o calor; e ao contrário, se tem calor, toma para refrescar; se sente dores no ventre toma aguardente para matar o bicho. Nas festas populares a aguardente é sempre indispensável, caminha na vanguarda de todas as outras coisas.

Mas não obstante essa forte ligação à instrução e ao conhecimento, diz o administrador Firmino que o povo continuava apegado ao fanatismo que exercia sobre ele uma grande preponderância. Claro, esclarece, que se refere aos menos ilustrados, e portanto aos mais bisonhos. Porque, com relação aos de idade juvenil, estes só se fazem de crentes quando estão em família com os seus maiores para os não desgostar, assim como quando estão na presença de algum professor que tem as mesmas ideias. Porém, esses tais bisonhos, acreditam, por exemplo, na feitiçaria, em bruxas, no defundo ou alma de outro mundo que volta a este para vir explicar o que deixou de fazer em vida, etc. Mas pondo de parte essas crendices e o uso da aguardente, conclui, é um povo laborioso como não se encontra outro igual, no geral civilizado, pacífico, obsequiador e hospitaleiro, que sabe receber bem em sua casa tanto gregos como troianos e sobretudo brioso no modo de proceder para com os compromissos a que se obrigava.

E num clima de gentes com tantos predicados, não é de estranhar o quanto os bispos vindos de Portugal ali se sentiam bem, e a instalação do seminário surgir como consequência lógica desse ambiente cultural. Com efeito, por volta de 1845 o nosso já conhecido e malogrado bispo D. Henriques Moniz tinha proposto ao governo a criação de um Seminário-Liceu na ilha Brava. Essa proposta não teve, porém, acolhimento favorável, se calhar porque o Governo ambicionava criar o seu próprio estabelecimento de ensino, o que, aliás, viria a acontecer na dita ilha Brava em 1847 por directa influência da rainha D. Maria e sob a direcção do primeiro-tenente Dantas Pereira, com a criação da Escola Principal de Cabo Verde.

Graças, porém, à acção do nosso já conhecido governador Januário Correia de Almeida, aconteceria a instalação do Liceu Nacional de Cabo Verde, inaugurado na Praia, como conta Francisco Lopes da Silva, com desusada pompa e no meio de salvas de canhões, como forma de dar a maior publicidade a evento tão importante e certamente com intuito de fazê-lo perdurar.

Mas infelizmente em vão, não serviu de nada, esse liceu viria a ter vida efémera, no ano seguinte já não existia, por falta de instalações e dinheiro para pagar aos professores. Ora o seu encerramento abriu de novo o caminho às pretensões da igreja que desde os tempos de Filipe I sonhava com um seminário em Cabo Verde. E de facto, logo que foi confirmada pelo papa Pio IX a escolha do rei D.Luís I da pessoa do bispo D.José Alves Feijó para dirigir a diocese de Cabo Verde, este dirigiu-se ao ministro e secretário d’estado dos negócios da marinha e ultramar, na altura o escritor Mendes Leal, homem de cultura, poeta e romancista afamado e membro da Academia Real das Ciências, solicitando os seus bons ofícios no sentido da criação de um seminário-liceu em S.Nicolau, na altura, lembre-se, cabeça da comarca de Barlavento. Mendes Leal mostrou-se sensível ao pedido e, dos seus esforços, resultou a criação desse estabelecimento de ensino por decreto de 3 de Setembro 1866.

O seminário tinha oito professores que ensinavam as mais diversas disciplinas, como, por exemplo, latim, retórica, história, filosofia, matemática, para além de português e francês, sem contar com as disciplinas da teologia. E proporcionava instrução não só às gentes de Cabo Verde, idos de quase todas as ilhas, como também da Guiné e muitos até vindos da metrópole, cumprindo assim o papel inicialmente destinado ao Liceu Nacional de Cabo Verde, isto é, preparar pessoal para os mais diversos destinos, mas sobretudo para aquilo que Nobre de Oliveira chama e bem a caboverdianização do funcionalismo público de Cabo Verde, levando a uma espécie de emancipação administrativa da colónia a nível do pessoal.

A instauração da República em 1910 não foi saudável para a continuação esse tipo de ensino. E com efeito, a extinção do seminário viria a ser decretada em 1917, é verdade que com o protesto generalizado de todos os caboverdianos ilustrados que, não obstante os seus defeitos, nele reconheciam extraordinária importância, pois que o seu contributo para a instrução em Cabo Verde era inestimável.

Para substituir o seminário-liceu, seria criado em 1925 o Instituto Caboverdiano de Instrução, também ele sediado em S.Nicolau e “nos edifícios e propriedades do antigo Seminário” que o Governo cedia para esse efeito sem qualquer renda, tendo como função ministrar o curso geral dos liceus, além da instrução primária.

Poderia ter sido uma maneira de reparar o erro da liquidação do seminário, se o Instituto não viesse por sua vez a ser extinto em 1931, com a justificação da necessidade de se utilizar as suas instalações para nele serem alojados os presos políticos enviados para Cabo Verde na sequência do golpe militar de 28 de Maio.

E assim deixou de haver ensino secundário em S.Nicolau até 1973, ano em que ali se criou uma secção da Escola Preparatória do Mindelo. Mas seja como for, S.Nicolau não é importante apenas por causa da passagem nas suas águas de Pedro Álvares Cabral na viagem de que viria a resultar o nosso conhecimento do milho e a invenção da cachupa. É-o também pelos filhos ilustres que a ilha e o seu Seminário- Liceu deram a Cabo Verde e que souberam honrar a nossa terra e a nossa cultura. Nomes como José Lopes da Silva, Pedro Monteiro Cardoso, Juvenal Cabral e Baltasar Lopes da Silva, entre outros, pertencem ao nosso património e são o orgulho da nossa nação.

Germano Almeida

galmeida@cvtelecom.cv

tel 322121;fax 324154

CP 300-S.Vicente

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