HISTÓRIA

A SEMANA : Primeiro di?rio caboverdiano em linha

CABO VERDE: VIAGEM PELA HISTÓRIA DAS ILHAS (continuação) 20 Agosto 2010

S.VICENTE - a miragem do paraíso

Pretende-se que S.Vicente terá sido descoberta em 1462 por Diogo Gomes, escudeiro do infante D.Fernando a quem ficou pertencendo por doação de D.João II, o rei seu tio. Foi inicialmente outorgada aos duques de Viseu que, porém, não ligaram qualquer importância à questão da sua ocupação, situação que se manteve mesmo depois de, por herança, ter passado para a propriedade do rei D.Manuel, pelo que por muitos e muitos anos a ilha ficou relegada à humilde condição de simples campo de pastagem do gado de alguns proprietários de Santo Antão e S.Nicolau. Aliás, S.Vicente seria a última das ilhas do arquipélago a ser povoada, e a generalidade dos estudiosos está de acordo em como ainda hoje ela não seria muito diferente de Santa Luzia, não tivesse a natureza lhe dotado de uma baía sobre todas superior e, principalmente, fora das rotas das areias que acabaram assoreando o porto de Sal-Rei, e também não tivessem os ingleses precisado impulsionar a neocolonização dos países do atlântico sul para ali colocarem as excedentárias produções das suas fábricas. Por exemplo, ainda em 1840 alguém escrevia sobre S.Vicente: O aspecto da ilha é horrível, por ser cheia de fragas e penhascos e no interior é árido o terreno; na praia há um poço chamado a “Mateota”, onde os navios fazem aguada e uma pequena nascente a meia légua do Porto no sítio chamado o Ribeirão. Tem cousa de 200 homens muito pobres que ali guardam cabras. Pode produzir muita purgueira e algodão.

Germano Almeida

CABO VERDE: VIAGEM PELA HISTÓRIA DAS ILHAS (continuação)

Com efeito, desde sempre que o farto abrigo representado pela sua baía foi cobiçado pelos estranhos e mesmo usado à revelia das autoridades portugueses que não dispunham de meios suficientes para cuidar de todas as suas possessões. Assim, não poucos corsários se serviram dela como porto de descanso e de espera para as suas actividades, e em 1624 foi ali que se reuniu a armada holandesa de vinte quatro velas, sob o comando do almirante Jacques Guilherme, cujo destino não era outro senão a conquista da Baía de Todos os Santos, no Brasil. Também servia de refúgio aos baleeiros durante a sua faina, e o francês François Frezier permaneceu na ilha durante grande parte do ano de 1712, tempo que aproveitou para desenhar e traçar a planta da baía e do canal entre S.Vicente e Santo Antão. De todo o modo, o desleixo do governo da Metrópole relativamente às ilhas desertas era tal, que se afirma que navios completos pertencentes a estrangeiros chegaram a ser construidos à mais completa revelia das autoridades. É que a aridez de S.Vicente era por si só desencorajante, mas por outro lado havia grande interesse dos criadores de gado no sentido de a ilha não ser povoada.

Na sequência da ascenção dos liberais ao poder em Portugal, o coronel Joaquim Pereira Marinho é nomeado governador de Cabo Verde em Setembro de 1835. E no ano seguinte o inglês John Lewis visita S.Vicente com o objectivo de avaliar as condições do porto para servir de ponto de escala aos navios da inglesa Companhia das Índias.

S.Vicente tem na época pouco mais de 340 habitantes, mas Marinho é um apaixonado da ideia de Cabo Verde girar à volta do Porto Grande e começa a instar junto do Governo da Metrópole para que a capital seja ali estabelecida. E acaba por ver o seu entusiasmo recompensado quando finalmente em Junho de 1838 recebe decreto ministerial e portaria régia a autorizar a mudança da capital da Praia para S.Vicente.

Há, porém, atrasos a impedir esse acto político, mas há sobretudo uma grande resistência dos defensores da continuação da capital na Praia que, dizem, apenas precisa de alguns melhoramentos a nível sanitário para ficar habitável. De modo que essa mudança acabará afinal por nunca se concretizar, um bom bocado também por um posterior arrefecimento do entusiasmo do próprio Marinho.

De todo o modo, nesse ano de 1838 a companhia inglesa East Índia estabelecia em S.Vicente o primeiro depósito de combustível, ao mesmo tempo que na Metrópole o marquês de Sá da Bandeira decretava “que se funde na ilha de S.Vicente uma povoação com o nome de Mindelo, em memória do desembarque do exército expedicionário de D. Pedro IV nas praias do Mindello em Portugal”. Nessa época, e pelo menos até 1852, ainda “Mindelo não passava de um areal à beira-mar, com poucas casas e na maior parte palhotas”. No entanto, em Novembro desse mesmo ano remete-se de Lisboa a planta da futura cidade.

A carvoeira East India chegou a instalar-se em Mindelo, porém teve presença efémera, substituída em 1850 pela Royal Mail que inicia a instalação no Porto Grande dos depósitos de combustivel para abastecimento da navegação com destino ao atlântico sul.

E por causa disso, logo se torna necessário dotar a ilha de alfândega própria, razão por que em Março de 1852 o Governo desanexa S.Vicente de Santo Antão, constituindo-o em concelho independente. Tanto mais que no ano seguinte a companhia inglesa Visger & Miller instala novo depósito de carvão de pedra.

Desde Julho de 1851 que tinham ficado isentos de pagamento de direitos os diversos materiais destinados à edificação de prédios urbanos que ali dessem entrada para esse efeito e, certamente que por pressão dos ingleses, por portaria de 10 de Março de 1857, é abolida de facto a escravatura em S.Vicente e no ano seguinte em S.Nicolau e Santo Antão.

Os dados ficam, pois, lançados para o início dos considerados tempos áureos de Mindelo, embora um americano que visitou o burgo em 1855, o tenha descrito como uma colecção de pequenas cabanas de pedra, cercadas por montes e vales, verdadeiros exemplos de aridez. No entanto, em 1858, ano em que foi elevada à categoria de vila, Mindelo já possuía 4 ruas, 4 travessas, 2 largos e 170 habitações, e a sua população estava calculada em 1.400 habitantes.

O grande problema de S.Vicente era a água, na maior parte importada do Tarrafal de Santo Antão. Uma comissão constituída para estudar as possibilidades de abastecimento da vila do Mindelo através da canalização das águas das nascentes do Madeiral e Madeiralzinho, declarou com alguma precipitação que tal não seria rentável pois que eram insuficientes para abastecer a população e ainda fazer a aguada dos navios. Mas certamente que em desespero de causa, em 1870 o governador geral foi autorisado pela Metrópole a celebrar com Jorge e João Rendall, Manuel Gomes Madeira e Aleixo Justiniano Sócrates da Costa, um médico-político-literato que vivia pelas ilhas, um contrato para a canalização dessas águas rumo à vila.

Mas outros progressos iam também acontecendo: a 18 de Março de 1874 seria amarrado na praia da Matiota o primeiro cabo submarino ligando a ilha à Europa e América e, com a instalação no Porto Grande dos depósitos da Cory Brothers & Cª em 1875, Mindelo passa a ser considerado o maior porto carvoeiro no médio Atlântico.

Nessa época já era uma vila asseadíssima, alumiada por 100 candieiros de petróleo, e dotada não só de belos edifícios públicos,(igreja, palacete do governo, paços do concelho, quartel, alfândega com seu cais, ponte de madeira e caminho de ferro, para além do mercado em construção)mas também de algumas casas particulares “onde não falta o conforto, podendo chamar-se o segundo foco da população e civilização da província”. Aliás já em Janeiro de 1873 o Conselho da Província tinha estabelecido a obrigatoriedade de os habitantes do Mindelo plantarem uma árvore no seu próprio quintal, por cada três metros quadrados de terreno ocupado. Assim, em 1879, época em que já tinha 27 ruas, uma praça (a célebre praça D.Luiz alumiada por um bonito candelabro), 5 largos, 11 travessas, um beco e 2 pátios, quase todas calçadas e arborizadas e iluminadas por um total de 120 candeeiros de petróleo e uma população de 3:300 habitantes, foi formalmente elevada à dignidade de cidade.

A nível do comércio e de serviços a cidade estava provida de um armazém de venda por grosso da casa Millers, que fornecia não só aos negociantes da terra como também a muitos das ilhas; três lojas de fazendas, mercadorias e bebidas, com venda por atacado e a retalho; onze lojas de fazenda de primeira ordem com venda a retalho; quinze lojas de fazenda de segunda ordem; cento e oito tabernas; sete padarias; dois talhos; cinco casas de comida; três hotéis com casa de pasto e dois botequins com jogo de bilhar. A água à cidade é que continuava a ser fornecida por poços, sendo 13 públicos e 22 particulares.

Mas não só em infraestruturas crescia a cidade. A instrução era também objecto de cuidados e funcionavam escolas de instrução primária para o sexo masculino e outras para o sexo feminino, para além de ensino particular de francês, inglês e escrituração comercial, tendo mesmo os alunos da escola municipal formado uma “filarmónica de música marcial que, se não é boa, atenta a idade dos executantes, pode considerar-se bastante sofrível”. A 10 de Junho de 1880, dia do tricentário da morte do épico Camões, inaugurou-se a escola do seu nome, destinada ao sexo feminino, e também a biblioteca pública, ainda que a mesma só viesse a realmente ser posta à disposição do público a partir de 1 de Outubro de 1887, porém já com mais de mil volumes, todos adquiridos através de dádivas dos munícipes. Nessa data de 1880 foi também lançada a primeira pedra para a construção do hospital da ilha.

E finalmente em 1886, precisamente a 27 de Maio, chegava canalizada até à cidade as águas do Madeiral e do Madeiralzinho, a que se juntaria, quatro anos mais tarde, a chamada água do Norte, cuja exploração fora concedida a Augusto da Silva Pinto Ferro, John Visger Miller e John Hollway, cumprindo desse modo, no dizer do administrador Botelho da Costa o ditado popular, “não há falta que não dê em fartura”, sobretudo porque em Janeiro de 1891 acaba-se por se negociar a junção das duas concessões numa única exploração que fica com o nome de “Empresa das águas da cidade do Mindelo” e cujos depósitos são ligadas entre si por canalização, e o público maioritariamente servido pelo construído no do largo do Madeiral que “se compõe de um vasto e elegante reservatório de água com dois compartimentos, tendo anexo um recinto ajardinado, gradeado de ferro, onde se encontra um repuxo, e dois pavilhões servindo de habitação do guarda do depósito e arrecadação de ferramentas. Neste jardim há um tanque com seis bicas onde vai encher o povo. Como dependência deste depósito e comunicando-se por canalização com o mesmo,há uma ponte bem construída, com o seu respectivo cais, paralela à ponte-cais da alfândega, onde atracam as embarcações que recebem aguada para os navios”, escreve Botelho da Costa num dos seus relatórios sobre a ilha, acrescentando que apenas num periodo de 42 anos se transformou na actual cidade do Mindelo a insignificantíssima povoação de nome Leopoldina. Opinião que, porém, não é partilhada por João Augusto Martins que em 1891 observa a cidade com mordaz ironia: “Tem bons edifícios, tem uma boa casa da câmara, tem mercado, tem praças, tem um péssimo hospital em exercício e um monstruoso em construção, tem um palácio raquítico para os governadores e um quartel de aparência e condições regulares para tropas”.

De todo o modo, em 1899 a Revista de Cabo Verde insinua a criação de um liceu em S.Vicente, e em 1900 os habitantes da ilha dirigem um memorial ao ministro da Marinha e do Ultramar mostrando-lhe a necessidade de estabelecer na ilha um escola de instrução secundária e uma outra para o estudo das línguas estrangeiras.

Porém, a partir dos finais dos anos oitenta do século XIX o Porto Grande começa a ser confrontado com o problema da falta de procura externa e consequente desemprego que conduz ao mais desenfreado alcoolismo.

E pouco e pouco a situação da população vai ficando cada vez pior, a ponto de uma comissão de operários da cidade ter tido a iniciativa de apresentar à Câmara uma petição, assinada por numerosas pessoas, na qual solicitava ao Governador que proibisse a entrada de toda e qualquer aguardente em S.Vicente, quer provincial quer de origem estranha, “cujo consumo representa para os pobres nada menos que um crime de lesa-humanidade”.

A surdez do governo central ao drama de Cabo Verde em geral e de S.Vicente em particular, conduziu um povo já cansado de esperar a finalmente reclamar justiça no dia 7 de Junho de 1934 saindo pelas ruas da cidade, gritando a sua fome e depois saqueando as lojas e armazéns do Estado e de alguns comerciantes locais. Feito, sem dúvida, memorável, pois que não há, na dolorosa história das nossas ilhas, nenhum outro exemplo do povo de Cabo Verde a exigir em confronto aberto com o poder o seu direito a uma existência digna.

Vista à distância, a história de S.Vicente pouco mais parece que uma sucessão de desastres, se se exceptuar o facto de o porto carvoeiro e tudo que a ele ficou associado em termos de grandeza e miséria, ter tido o poder de criar nos filhos de todas as ilhas que ali se juntaram uma grande consciência de identidade local que as crises e também as desatenções do poder mais não têm feito que aprofundar.

No presente o povo de S.Vicente é sem dúvida o mais livre de Cabo Verde, liberdade que lhe advém do total despojamento que se pode surpreender nas novelas de Aurélio Gonçalves, o escritor que mais atentamente procurou entrar na alma de uma gente que vive o desencanto com mais alegria que fatalismo. Marx bem que poderia ter estado a pensar nesta cidade quando escreveu acerca dos proletários que nada têm a perder e um mundo inteiro a ganhar, com a diferença de que este povo sabe que não tem mais nada a ganhar para além do que consegue para o seu passadio diário. Mas é isso mesmo que faz dele um povo de anarquistas, impossivel de ser contido à volta de um qualquer ideal, a menos que o limite desse ideal não ultrapasse o imediato, porque mais inconscientemente que consciente, ele aprendeu à sua custa que o amanhã, ou não lhe pertence ou pode ser bem pior que o hoje, e por isso pouco se preocupa com ele. Nos vida é ganhá, gastá/sem pensá na dia de manhã, traduz bem a realidade do seu desencantamento.

Desencantamento das suas ilhas de origem que não lhe proporcionaram condições de sobrevivência, mas também desencanto com a miragem desse paraíso que, como disse alguém, afinal se acabou revelando para a maioria um pequeno inferno. Mas de qualquer modo, é esse desencanto na esperança de uma vida de felicidade que faz do homem de S.Vicente um ser livre quase até à soberba, que aprendeu a sobreviver de expedientes diversos, quer seja do jogo, quer seja do empréstimo, quer seja das pequenas trapaças que lhe vão garantindo o dia-a-dia. E talvez por influência de um porto que em cada dia o metia em contacto com gentes das mais diferentes latitudes, é igualmente um povo que encara as mudanças, seja qual for a sua natureza, com um optimismo capaz certamente de fazer arrepiar os cabelos a um nativo da conservadora Boa Vista.

galmeida@cvtelecom.cv

tel 322121;fax 324154

CP 300-S.Vicente

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