HISTÓRIA

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CABO VERDE: VIAGEM PELA HISTÓRIA DAS ILHAS (continuação) 13 Agosto 2010

SANTO ANTÃO – os grandes abismos sob o céu

Mesmo que não fosse por mais nada, a ilha de Santo Antão sempre acabaria por ter lugar cativo na História. É que ela foi o ponto escolhido para servir de partida de uma das famosas linhas de demarcação usadas para separar o que deveria ficar como possessões de além mar dos portugueses das que eram para os espanhóis, numa primeira versão da partilha que anos depois viria a ser consagrada no célebre tratado de Tordesilhas confirmado pelo papa Alexandre VI em 1493.

Germano Almeida

CABO VERDE: VIAGEM PELA HISTÓRIA DAS ILHAS (continuação)

Com 300 milhas quadradas de área, Santo Antão é a maior ilha depois de Santiago.É recortada por altos e imponentes rochedos perpendiculares que se ainda no presente têm o inconveniente de não permitir que a ilha seja melhor servida de estradas, tiveram no passado a grande vantagem de ajudar os habitantes a se defenderem de não poucos invasores. Sobre ela se escreveu em 1840: A ilha de Santo Antão é excessivamente montuosa e d’um aspecto horroroso, principalmente para quem está fundeado, pois parece uma massa informe de rochedos a desabar sobre a embarcação. Bem, sem dúvida alguém que não soube apreciar a solene majestade daquele belo animal em gigantesco repouso!

É uma experiência única atravessar Santo Antão saindo de Porto Novo até chegar a Ponta do Sol. Vai-se subindo a serra agreste, muitas vezes penosamente, os próprios carros como que resfolegam à beira do estertor na pressão das curvas e contra-curvas, e fica-se a pensar em quanto esforço e sacrifício, inclusivamente de muitas vidas de trabalhadores anónimos, não foram necessários para se conquistar à Natureza dura e seca aquela estrada de três metros de largura e quarenta quilómetros de comprimento. Porém, quando se atinge o alto, a paisagem muda como que por milagre para uma beleza de um verde quase deslumbrante. Ali foi o único lugar onde os pinheiros portugueses conseguiram criar raízes e aguentar as violências do nosso clima e foi ali também que por volta de 1816 se estabeleceu uma colónia de espanhóis vinda das Canárias, e que naqueles terrenos deram início ao cultivo do trigo, da cevada e do centeio, para além de outras plantas tidas na época como exóticas.

A seguir inicia-se a descida rumo à vila de Ribeira Grande, ainda hoje chamada de “Povoação”, embora tivesse começado por ter o nome de Santa Cruz, diz-se que em homenagem aos condes de Santa Cruz, antigos donatários da ilha. Situada no cruzamento dos caminhos que conduzem aos vales de Paul e de Chã de Pedra e também ao planalto de Ponta do Sol, Povoação era em 1732 a mais importante aldeia da ilha, possuindo um total de 16 ruas, “as quais são muito estreitas e guarnecidas de casas de pedra e barro e em geral, ainda que algumas são rebocadas e caiadas, cobertas em parte com telhas de madeira chamadas conchas, que importam da américa, ou com folhas a que dão o nome de soca”. Não obstante, foi nesse ano elevada à categoria de vila com o nome de Ribeira Grande, e em 1875 já era considerada amena e de ruas largas e arborizadas, isso mercê dos trabalhos nela levados a cabo com vista ao seu melhoramento sanitário e urbanístico.

Só muitos e muitos anos depois de ter sido descoberta, a ilha de Santo Antão começaria a ser povoada. Com efeito, Diogo Afonso tê-la-á encontrado entre 1460/62, mas só por volta de 1548 teria os seus primeiros habitantes, e mesmo assim apenas escravos negros levados da Guiné. Isso porque era considerada excessivamente distante das ilhas já habitadas, no caso, Santiago, Maio e Fogo, ou seja, as ilhas para onde existiam carreiras de navegação.

A ocupação apenas com escravos não resultou de obra de acaso, parece que os primeiros donatários não quiseram saber de europeus nas suas terras. É que não só eram muito exigentes, apressados que estavam em enriquecer, como também não aguentavam a mais pequena moléstia. De todo o modo, esse tipo de colonização não foi uma boa experiência. É que, abandonados a si próprios, os escravos meteram-se no exclusivo cultivo da vinha e depois nos copos e relaxaram os demais trabalhos, tendo chegado em breve tempo a grande estado de degredação e até quase de barbarismo. Hábito, aliás, que o passar dos anos de forma alguma melhorou, antes pelo contrário, facto que certamente terá levado o administrador da Ribeira Grande, Francisco Tavares de Almeida, a escrever em Abril de 1888 no relatório ao Governador Geral sobre o estado do concelho que “é a embriaguês o vício que predomina neste povo. Encontra-se o bêbado por toda a parte e as estatísticas mostram que é a bem dizer a causa primordial da maior parte dos crimes. É que o povo deste concelho, com honrosas excepções, reputa a aguardente como género de primeira necessidade; os pais ensinam os filhos ainda de terna idade, a tomarem o seu grog, e o próprio sexo frágil não desdenha um copo de límpido licor, quando é límpido, o que nem sempre acontece.”

Mas sem dúvida que Tavares de Almeida estudou bem o povo de Santo Antão enquanto ali permaneceu, surpreendendo muito bem tanto as suas virtudes como também os seus defeitos. Escreveu, por exemplo: “Nenhum povo mostra mais desejos de adquirir instrução; os pais não se limitam a mandar seus filhos aprender ler, escrever e contar, querem que eles adquiram o maior número de conhecimentos possivel.” E também: “Outro vício muito vulgar é a tendência para se apossarem do alheio; o objecto achado raras vezes é entregue a seu dono; os animais são contramarcados; as marcas arrancadas dos limites das propriedades, afim de se apossarem de mais algumas pollegadas de terreno; os frutos são roubados antes do estado de maturação. E tudo isto dá em resultado um sem número de questões difíceis de resolver, pois autores e réus se acham sempre possuidos do mesmo desejo, a posse do alheio. O testemunho falso está também no carácter do povo, e nenhuma testemunha vacila em dar um falso juramento, contanto que dele advenha benefício ao amigo ou prejuízo ao inimigo.”

Talvez por causa do seu isolamento, frequentemente a ilha foi vítima das violências dos corsários. Ficou célebre para a história a invasão do francês Dugnay-Trouin em 1712. Dugnay comandava uma esquadra e diz-se que desembarcou numa prainha entre a aldeia de Tarrafal e a de Sinagoga e rumou para a vila da Ribeira Grande que saqueou enquanto os desarmados habitantes guindavam em fuga pelas rochas acima. Tendo juntado tudo que de algum valor encontrou nas residências das pessoas abastadas, Dugnay marchou de seguida para a povoação de Ponta do Sol onde sabia que também se situavam casas abastadas.

Não contava, porém, com a fúria que tinha desencadeado na população que obrigara a trepar pelas fragas. De modo que, comandados por um padre, do alto dos desfiladeiros que dominam o caminho seguiram-lhe a marcha e quando ele e as suas tropas entraram numa mortífera passagem, provavelmente a conhecida Tatchinha, foram atacados com enormes blocos de pedra que os coléricos habitantes sem piedade fizeram rolar sobre eles e que completamente os esmagaram.

Nesses tempos Santo Antão possuía muita vinha, principalmente na Ribeira das Patas, e produzia bastante vinho, pipas e mais pipas de um vinho chamado mijarela, tão suave como o vinho verde do Minho, diziam os entendidos. E a terra era tão boa e as vides tão parideiras, que chegavam a fazer duas colheitas anuais. Mas não só isso, os chamados frutos tropicais igualmente encontraram terreno propício na ilha, tendo largamente desenvolvido e produzido a laranjeira, a goiabeira e a bananeira. E também se fazia a cultura do cacau, do amendoim e do trigo, sem já falar do dragoeiro, da purgueira e da urzela que exportava em grande abundância. A laranjeira, então, existia ainda nos finais do século XVIII em tão grande quantidade que a sua madeira era a utilizada na construção de embarcações.

“Sendo a ilha de Santo Antão uma das mais férteis da Província, pois goza da vantagem de ter abundantes nascentes d’água, escreveu alguém em 1840, é uma das mais desgraçadas, e são seus habitantes umas das primeiras vítimas da fome; eu os considero verdadeiros tântalos em o meio d’um país apto para todo o género de cultura, porque as terras de regadio são quasi exclusivamente empregadas com vinhas de que colhem anualmente para mais de mil pipas de vinho péssimo, que em sua máxima parte se consome na ilha, alimentando a ociosidade, a embriaguês e o ócio; e os terrenos áridos, que carecem de chuvas para produzir, são as que aproveitam para plantar algum milho, mandioca, etc, o que é a causa de tantas desgraças no tempo da fome, como nas ilhas que necessitam das chuvas para se alimentarem por carecerem de mananciais d’água”. Esse fulano tinha razão, porém a defesa da propriedade privada tinha como apanágio o direito de usar, fruir e abusar do bem, e daí que a imposição pelo Estado de tipos de culturas seria uma conquista de muitos anos depois, quando finalmente se se compenetrou e em certa medida se assumiu que a propriedade, ainda que privada, continua tendo uma função que acima de tudo deve ser social. De modo que nesse tempo a única medida que se conseguiu tomar para combater esse mal foi pensar em tornar o vício o primeiro tributário, obrigando-o assim a concorrer para o bem estar do município. Pelo que em 1843 o Governo da Província mandaria cobrar um imposto especial sobre todo o vinho ou aguardente consumido na ilha, quer fosse de produção local ou importado, devendo o produto desse imposto ser aplicado exclusivamente nas despesas municipais.

Penetrando a Ribeira Grande para oeste, vai-se encontrando povoações: Coculi, João Afonso, Chã de Pedras, Caibros, Garça e outras, todos pequenos locais de alguma concentração urbana devido às terras aráveis da zona. As estradas são péssimas, cortadas no leito das ribeiras, quando chove ficam completamente impraticáveis, a única montada que opera com algum à vontade nessas paragens é a mula.

Do outro lado da ilha, a leste, fica o Paul. Paul significa terreno alagadiço, pantanoso! E foi esse o nome escolhido para o vale de grande fertilidade que, tal qual a Ribeira Grande, fica situado também entre montanhas, ainda que menos hostis. Aliás a própria configuração da zona ajuda nesse sentido. Porque enquanto que as montanhas da região da Ribeira Grande são abruptas e cortadas a pique, Paul mais parece uma longa ladeira, um grande e imponente colosso deitado de costas num eterno repouso, de longe a longe pequenos regatos de água saindo das crostas rochosas do fabuloso corpo para alimentar as plantações de cana sacarina e bananeiras. Noutros tempos havia outras espécies de frutas como por exemplo a laranja, muito afamada e apreciada pelos ingleses que importavam toda a produção. Isso sem já referir a sua imensa riqueza em café, chegou a exportar 24 mil arrobas, sem contar com o consumo interno.

E era fatal que essa relativa abundância de águas numa terra quase toda seca despertasse o interesse, se não mesmo a cobiça das pessoas, e é verdade que uma considerável elite europeia se instalou no Paul, tendo em mira a excelência do seu terreno, produtor entre outras coisas de um grogue de alta qualidade.

O desenvolvimento da região fez com que o concelho de Paul viesse a ser criado em 1867 por ordem das Cortes Gerais de Portugal, não obstante as não poucas influências que se moveram contra a sua existência. Com efeito, só em 1870 esse decreto seria publicado no Boletim Oficial de Cabo Verde e implementado.

Foi, porém, um processo confuso, o da vida e extinção desse concelho, que se confirmaria através de uma duvidosa reforma administrativa levada a cabo em 1893, conforme aliás se encontra bem documentado no livro “Geração Dourada” de José Manuel Pires Ferreira. De todo o modo, a expansão da vila de Ribeira Grande será sempre condicionada pelo entalo das serras. Daí que em 1864 se tenha mandado proceder à elaboração do Plano de Edificação da Povoação da Ponta do Sol da Ilha de S. Antão “a fim de que ninguém pudesse ali edificar sem se conformar com o mesmo plano”, primeiro passo para a deslocação em Dezembro de 1874, da cabeça de comarca de Barlavento, de S.Nicolau para Santo Antão. Em 1885 seria criada a vila Maria Pia nesse local de Ponta de Sol e para lá transferida a sede do concelho que por sinal viria a ser instalada num dos mais belos edifícios construídos em Cabo Verde e destinado a paços do concelho, numa zona ainda hoje soberba e tendo como vizinhos uma solene igreja e o alegre edifício da enfermaria regional.

Mas Santo Antão nunca foi nem é só verde. Como todas as outras ilhas, esteve e está também sujeita às crises nacionais. Por exemplo, a de 1823, de particular violência e que ficaria conhecida como a fome do pai Thomaz. O então governador-geral Pusich, eterno sonhador da colonização de S.Vicente, aproveitou-a para convencer as famílias que viviam na miséria a mudarem para esta ilha, mas na verdade ainda S.Vicente continuava longe da sua hora.

O chamado processo de Reforma Agrária de 1981 veio mostrar que em nenhuma das outras ilhas o homem está tão ligado à terra como em Santo Antão. Pode-se mesmo afirmar que a necessidade de posse da terra, da cultura rural, impregna com a mesma força todo o homem de Santo Antão, seja ele possuidor, seja ele o mais humilde trabalhador do campo, porque todos acreditam que o único meio de um homem se realizar como pessoa é através dos fortes laços da propriedade fundiária. É neste sentido que Santo Antão é uma ilha que não aceita sequer discutir seja o que for que de perto ou de longe possa colidir com o direito de apropriação privada da terra que considera tão fundamental como o direito à vida, fazendo por conseguinte que neste aspecto seja uma sociedade conservadora até ao exagero.

galmeida@cvtelecom.cv

tel 322121;fax 324154

CP 300-S.Vicente

CABO VERDE

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