OPINIÃO

A SEMANA : Primeiro di?rio caboverdiano em linha

Postal de Lisboa 26 Novembro 2009

Poucos saberão que, quando um doente cabo-verdiano chega ao aeroporto de Lisboa, perdido perante um local desconhecido, pode ter alguém da associação “Girassol Solidário” que o encaminha onde ficar ou o acompanha ao hospital. Muitos desconhecem ainda que jovens universitários cabo-verdianos são, em Setúbal, “tutores” de adolescentes de bairros sociais problemáticos e que, não fossem as suas orientações escutadas, andariam pela rua sem rumo. Estes actos constituem ajudas estruturantes de uma comunidade vasta que enfrenta adversidades de uma crise económica e laboral generalizada e que precisa de suportes valorativos e educacionais para não se desmoronar. Por: Otília Leitão

Postal de Lisboa

Lucas da Cruz, um conhecido gestor e de profundo conhecimento associativo, notou que, se não fosse o trabalho das associações cabo-verdianas em Portugal – são perto de oito dezenas que cooperam na insercão social e reforço cultural - haveria muitos mais problemas, “desgraças”. Por isso apela para que os quadros que possam partilhar conhecimento ou fazer voluntariado, que se voltem do interior das associações para as comunidades, onde os seus contributos podem erguer vidas.

Há sempre formas das pessoas serem úteis. Embora menos comum em Portugal do que noutros países, porque não o “apadrinhamento” de crianças carenciadas, no sentido de apoiarem o seu desenvolvimento escolar e educacional?

Existem experiências de pessoas que dirigem um donativo a uma criança determinada, apoiando-a nos estudos, com quem estabelecem uma relação de acompanhamento, às vezes até só por escrito porque vivem longe. A surpresa é de verificarem no fim desse caminho, que proporcionaram a alguém uma vida melhor.

Lucas da Cruz, um quadro qualificado que foi um dos principais fundadores da Casa de Cabo Verde (hoje Associação Cabo-verdiana de Lisboa) também criada em época tempestuosa para os cabo-verdianos, assistia a um debate sobre “associativismo” na passada semana, na Associação dos Antigos Alunos do Ensino Secundário de Cabo Verde, em Carnide, e que juntou um naipe de dirigentes das principais associações que deram ao público uma explanaçao do seu trabalho ao serviço da comunidade, facto que a maioria desconhecia.

Embora a configuração do associativismo esteja envelhecida, um problema comum a todos os movimentos, é notória a urgência do seu rejuvenescimento de forma a atrair as os interesses das camadas mais jovens, uma transição sempre dificil, para um trabalho diversificado, meticuloso e muitas vezes ingrato pelo qual já passaram destacadas personalidades cabo-verdianas nas várias associações. O trabalho é sempre voluntário, abnegado, com magros subsídios estatais, sempre insuficientes para as necessidades a que se propõem, num jogo de responsabilidades perante a comunidade cujos interesses não devem ser traidos.

Alguns dirigentes integram um órgão consultivo do Alto Comissariado para o Diálogo Intercultural (ACIDI), um organismo do Governo para quem os projectos têm de ser cumpridos e com quem muitas vezes se debatem perante situações de desigualdade. Fazem também “lobyng” para que as leis sejam menos restritivas sobre a imigração, embora para quem está em aflição, sempre pareça que não fazem nada.

Teresa Noronha, responsável pela “Girassol Solidário”, uma associação recente que apoia actualmente 96 doentes e acompanhantes, dos quais 30 são crianças e jovens, mostrou o trabalho que, em cooperação com a Embaixada de Cabo Verde, conforta os cidadãos que vão do território crioulo tratar-se em Portugal, no âmbito de um acordo antigo que prevê o apoio a 300, anualmente, e para doenças que exigem tratamentos mais sofisticados ou do foro oncológio. Começou por visitá-los em pensões onde ficavam em situações degradantes. O subsidio que lhes é atribuido é de 67 euros por mês, valor quase esgotado com o transporte frequente ao hospital. Depois, com uma equipa de voluntários, conseguiu ajuda do Banco Alimentar, parcerias com outras associações e hoje, com cedência pela Câmara de Lisboa, arranjou uma Casa de acolhimento para 9 pessoas, equipada com as necessidades básicas onde as familias podem cozinhar e estar de forma digna, até terminarem o seu tratamento. A equipa preocupa-se em organizar jantares para angariação de fundos que sustentem esta solidariedade e em proporcionar alguns momentos felizes: idas ao teatro, festas tradicionais, sem esquecer pedidos dos doentes como uma romagem ao Santuário de Fátima.

Rui Machado, um dirigente experiente que também o foi da Casa de Cabo Verde e da Associação dos Antigos Alunos do Ensino Secundário de Cabo Verde, assumindo agora a orientação da Associação Cabo-verdiana de Lisboa – mostrou o percurso associativo em Portugal, historiando os seus fundadores e sucessores. Referiu que se está a pensar um rumo para esta associação, “mãe” de todas as outras (até os estatutos juridicos foram beber na sua matriz) , mais virado para a cultura. Aqui se fizeram os mais diversos debates, se reuniram quadros e concretizaram concertações sobre as politicas de emigração e alterações de leis . Nesta associação se acolheram todos aqueles que precisavam de algum tipo de apoio.

Antónia Pimentel, presidente da “Morabeza”, fundada em 1988, mais virada por incutir nos cidadãos um espírito de uma “uma cidadania plena”, exemplificou o trabalho junto dos bairros onde se concentram os cabo-verdianos, no sentido do seu recenceamento, acção executada de porta a pora e quase de um a um, para os incentivo à participação eleitoral local. A sua equipa visita mulheres presas em diferentes cadeias do país e promove interações com outras associações em actividades de lazer e desportivas .

Anualmente, organiza a tradicional festa de S. Nicolau que junta mais de meio milhar da cabo-verdianos. É uma espécie de reavivar de afectos e ternuras para a alma, às vezes tão carente devido à azáfama do quotidiano, António Carlos, médico de saúde pública e dirigente da ASJP – associação de jovens promotores da Amadora Saudável, criada em 1990, presta apoio a doentes com o HIV-Sida. Construi u o projecto “Viver com o HIV” e estabeleceu uma rede com 14 ajudantes e, em coordenação com o Ministério da Educação, concretiza uma vasta teia de apoios quer escolar quer na saúde.

Felismina Mendes, a mais jovem dirigente associativa á frente de uma associação essencialmente composta por mulheres, falou do desafio que se lhe colocou há quatro anos e das dificuldades particulares onde está inserida: no coração do bairro da Bela Vista, em Setúbal, uma zona habitacional onde vivem varias comunidades marginalizadas e de culturas diferentes. Ali funciona também um serviço consular da Embaixada de Cabo Verde para resolver questões correntes de uma comunidade estimada em mais de 20 mil cabo-verdianos.

O bairro da Bela Vista, marcado por alguns incidentes estigmatizantes, bate o recorde de estudos e subsidios a ONGs, gastando-se muito dinheiro, mas de pouca visibilidade para o bem estar de quem nele vive. Tem sido preocupação desta associação fazer com que os resultados saiam dos seus habitantes para o exterior, ocupando jovens, criando grupos de música, teatro e outras actividades formativas. É uma das organizações melhor apetrechadas e cuidadas, mantendo o apoio a crianças e jovens em risco. Edita mensalmente um boletim informativo “Mantenhas” onde dá conta da de noticias estruturantes e edificantes para a comunidade.

Felismina notou que neste bairro “há jovens que ficam sós todo o dia e os seus pais quando dão conta, os filhos já está agarrados a interesses perigosos”. Outros vivem com o rendimento minimo garantido e deixaram de lutar pelo trabalho. Por isso, com apoio voluntário, criaram ateliers para os tempos livres de crianças, gratuitamente. Instituiram a figura de “monitores” ou tutores” ou seja jovens universitários cabo-verdianos, como matriz de referência. Estabeleceram parcerias com o Instituto de Emprego e Formação Profissional, e apoiam alguns jovens nos estudos , sem descuidas as actividades de indole cultural e recreativa.

Manuel Correia, um deputado municipal, dirigente de um dos mais importantes sindicatos portugueses – industria eléctrica – é presidente da Federação onde estão filiadas 46 associações e organizações cabo-verdianas. Explicou que a sua missão é de congregação de politicas de cooperação e “não é fazer festas nem convívios”, mas fá-los-á sempre que isso ajudar a aproximar e fortalecer a comunidade. É disso exemplo “Nós Tradison”, festival que atraiu perto de 20 mil pessoas.

Notou o papel que as organizações e associações fazem nas suas zonas de implantação, sendo prioritário “que os jovens não percam a escolarização”. Referiu o papel da federação junto de instancias do poder para encontrar soluções que melhorem a vida da comunidade. Citou alguns exemplos de empenho para ajudar também o país, salientando, conjuntamente com a Fundação Gulbenkian, o apetrechamento com livros e cadernos, das bibliotecas de escolas em S. Vicente . Prepara-se para o fazer para Santo Antão e outras ilhas, também com computadores, roupas, brinquedos “tudo coisas novas e úteis, poi rejeitamos tudo o que possa dar problemas a Cabo Verde. O país precisa de soluções não de problemas”. Referiu ainda a campanha de angariação através dos bombeiros voluntários e a ajuda do campeão Nelson Évora que leiloou a sua bota da vitória. Outros contentores estão a ser preparados, com materiais de primeira necessidade, sobretudo medicamentos com destino a S. Nicolau, para minimizar as consequências da recente intempérie.

Realçou a importância do programa de Rádio Cabo-Verdeano Horizonte, uma criação apoiada pela Federação e que emite especificamente matéria de interesse para os cabo-verdianos, das 19h00 às 21h00. Possui além de um bloco informativo, consultório Jurídico, programa musical, entrevistas, opiniões. Em frequência 92.8 “Cabo Verde no Horizonte pode ouvir-se em todo o mundo”.

Naturalmente que isto é uma amostra da informação que estes dirigentes associativos prestaram, contribuindo para um melhor esclarecimento daqueles mais arredados. Constitui também uma parcela importante, das muitas que precisam de ser feitas e que necessitam de outras boas vontades.. Mas, parafraseando Lucas da Cruz, “há coisas muito bonitas a acontecer, graças ao empenho das associações. Podíamos ter mais gente perdida da juventude se não fosse o trabalho da nossa gente”.

otilia.leitao@gmail.com

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