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A SEMANA : Primeiro di?rio caboverdiano em linha

“Uma língua que não se ensina no mundo de hoje está condenada” 07 Dezembro 2008

Nicolas Quint esteve recentemente em Cabo Verde para lançar o seu mais recente livro - “Africanismos na língua cabo-verdiana”. Em entrevista ao asemanaonline, o linguista francês fala dessa obra e dá o seu parecer cientifico sobre os mais polémicos tópicos sobre o ensino e a oficialização do crioulo, deixando um aviso para os cabo-verdianos: “Uma língua que não se ensina de todas as formas está condenada no mundo de hoje”

“Uma língua que não se ensina no mundo de hoje está condenada”

Entrevista por: Teresa Sofia Fortes

- “Africanismos na língua cabo-verdiana” é o título do seu mais recente livro. Como nasceu este projecto?

- Este projecto nasceu há muito tempo. Na verdade, a primeira vez que me debrucei sobre a questão da herança africana na língua cabo-verdiana foi aquando da redacção da minha tese de doutoramento em 1990. Já no segundo volume sobre o meu doutoramento, intitulado “O cabo-verdiano: origens e futuro de uma língua mestiça”, tratei desta questão dos africanismos. A seguir, fui contactado por uma editora inglesa para fazer um artigo abrangente sobre a questão, que foi redigido em 2002 e que é uma versão mais extensa do que aquela que tinha escrito em francês. Este artigo está a ponto de sair. Como provavelmente sabe há sempre um prazo bastante extenso entre a data de elaboração e a data de publicação no que diz respeito às publicações científicas, Entretanto, apresentei no ano passado ao Centro Cultural Francês da Praia a versão inglesa do artigo e pensamos que seria interessante pôr essa informação à disposição do público cabo-verdiano numa língua que fosse mais natural para os cabo-verdianos, ou seja, o português. Uma vez que estava a colaborar com o Centro Cultural Francês, fazia também todo o sentido que houvesse também uma versão francesa. Então, o CCF patrocinou a tradução para o português e a formatação do livro e consegui outro financiamento para a tradução para o francês. Findo o trabalho de tradução, já em 2008, lancei o livro a 23 de Setembro, em França, e quase imediatamente depois na Praia e no Mindelo.

- Neste livro, você afirma que 5% do léxico da língua cabo-verdiana é de origem africana e aponta 70 exemplos de palavras originárias de línguas africanas. Qual é o peso que isso tem na língua cabo-verdiana?

- Depois de concluir o livro, identifiquei outras palavras da língua cabo-verdiana que são de origem africana. Neste momento, perfazem cerca de 80 palavras. Respondendo à sua pergunta: o peso do léxico africano na língua cabo-verdiana é reduzidíssimo, equivale a 3%. Exemplos: djobi (olhar), de origem mandinga, funko, de origem timene, da Serra Leoa. Não só é pouquíssimo em termos de número mas também em termos de vocabulário nuclear, ou seja, as palavras que mais se usam na língua cabo-verdiana - por exemplo, homi, mudjer, água - vêm do português, sem excepção. Esse elemento africano da língua cabo-verdiana é no entanto importante para se saber que línguas africanas contribuíram para o surgimento do crioulo. Contudo, a influência africana na língua cabo-verdiana vai mais além. Poder-se-ia pensar que o peso marginal do léxico africano na língua cabo-verdiana é semelhante ao do gaulês na língua francesa. O francês tem algumas palavras de origem gaulesa, mas de maneira nenhuma se pode dizer que o francês é uma língua gaulesa. Pelo contrário, o francês é uma língua românica, tudo ou quase tudo deve ao latim. Aqui reside a grande diferença entre a herança africana da língua cabo-verdiana e a herança gaulesa da língua francesa. É que, se do ponto de vista léxico a herança africana na língua cabo-verdiana é reduzidíssima, do ponto de vista gramatical a influência é grande, em particular no que diz respeito à morfologia do verbo. Com a mesma flexão conjuga-se tempos verbais diferentes. Se traduzirmos para o português - e aqui há que ter em conta que toda a tradução é uma traição - isso soa muito estranho. A conjugação verbal na língua cabo-verdiana é regida pelo aspecto e não pelo tempo. É uma mudança muito radical com as línguas românicas como o português. O mesmo acontece com as flexões nominais, por exemplo fidju matcho e fidju fêmea (filho e filha) que tem a ver provavelmente com uma herança mandinga. Outro exemplo: burmedju d’obo (o vermelho do ovo), que corresponde traço por traço ao que se observa na maioria das línguas do Níger-Congo, que desempenharam um papel no surgimento do crioulo. Também na semântica a influência africana tem peso, pois há muitas expressões que têm origem no wolof, por exemplo. No que toca ao léxico talvez um dia cheguemos a 150 ou 200 palavras de origem africana. No léxico é o português que domina quase de forma absoluta, mas na gramática e semântica são as línguas africanas. Por isso, posso dizer quase com certeza absoluta que o crioulo é uma língua afro-europeia.

- Então é isso que faz com que muitas vezes os cabo-verdianos falem erradamente o português?

- O que engana os cabo-verdianos é o facto de os pontos lexicais serem comuns com o português. Mas a gramática, na sua maioria, não é de origem portuguesa. Acho que a conscientização da população cabo-verdiana de que o crioulo não é o português ajudaria muito a aprender bem o português. Ou seja, é importante compreenderem que há dois esquemas mentais que são diferentes, apesar dos pontos comuns.


- Mas há cabo-verdianos que são contra o ensino do crioulo e a sua oficialização porque dizem, dificultaria a aprendizagem do português. Existe outra corrente que diz o contrário, ou seja, que aprender crioulo (gramática, sintaxe e semântica) facilitaria a aprendizagem do português.

- Esta última seria a minha posição. Compreendo perfeitamente este receio porque o português é a língua materna ou veicular de mais de 200 milhões de pessoas no mundo e o crioulo tem um número reduzido de falantes, por volta de 1 milhão de falantes, incluindo a diáspora. É evidente que há muitas vantagens sociais que levam as pessoas a querer aprender e falar o português. Aliás, creio que ninguém em Cabo Verde está a pensar em substituir o ensino do português pelo ensino do crioulo. Mas é preciso ter cuidado. Se se ensinar apenas o português corre-se o risco de ver o crioulo desaparecer. Pode não ser daqui a 100 ou 200 anos, mas um dia vai acontecer. Uma língua que não se ensina de todas as formas está condenada no mundo de hoje. Os cabo-verdianos devem aproveitar as duas línguas que fazem parte do seu património cultural. Acho que não há nenhum impedimento de se optar a aprendizagem paralela das duas línguas. Um ensino bem construído e bem programado do crioulo ajudaria a tornar as crianças e o resto da população conscientes de que estão a lidar com duas línguas diferentes e provavelmente ajudaria muita gente a falar melhor o português pois teriam uma base sólida para depois se abrirem para outras línguas.

- Como se explica a influências de línguas como mandinga, timene e wolof na língua cabo-verdiana?

- Dois pontos. No que diz respeito à identidade das línguas africanas que desempenharam maior papel na génese do crioulo, o mandinga domina de modo absoluto, seguido pelo wolof e, de modo muito mais marginal, o timene. Se considerarmos a porção da costa africana que correspondia à zona de predomínio comercial português no século XVI e XVII, constatamos que essas três línguas eram as maiores línguas veiculares da zona. Ainda hoje, sobretudo o mandinga e o wolof continuam a ser línguas veiculares importantíssimas, ou seja, não são só línguas maternas de milhões de pessoas mas também são usadas por vários outros milhões de pessoas que falam outra língua em casa mas que usam o mandinga ou o wolof na sua vida pública quotidiana. O que se verifica é que as três línguas que mais marcaram o crioulo do ponto de vista lexical são as três maiores línguas veiculares da zona Níger-Congo. Essas línguas não eram as línguas maternas da maioria dos escravos que chegaram a Cabo Verde, mas eram as línguas internacionais da época. Na época dos descobrimentos portugueses, os mandingas fundaram o Reino do Gabu, que durou até o século XIX, se bem me lembro. Eles vendiam escravos não mandingas aos portugueses para povoamento de Cabo Verde. Esses escravos não eram mandingas mas eram capazes de usar o mandinga como língua veicular. Quando esses escravos se juntavam, uma vez que não podiam usar as suas línguas locais, usavam de forma predominante o vocabulário português e para outras noções usavam as línguas africanas que estavam ao seu alcance, que eram o mandinga, o wolof e timene. O timene é a língua menos conhecida pelos estudiosos da língua cabo-verdiana. É uma língua que agora se fala a norte da Serra Leoa, no extremo sul da então capitania de Cabo Verde. Actualmente, é uma língua que tem um papel veicular muito mais reduzido do que naquela época, era a língua mais usada no negócio das nozes de cola. Aliás, as nozes de cola ainda são o produto de base do processo de negociação do dote matrimonial em toda a África Ocidental. Por causa deste papel muito importante na vida social das pessoas é que muita gente sabia falar timene. Há dois tipos de palavras de origem africana na língua cabo-verdiana. Há umas que entraram no crioulo porque correspondiam a realidades ignoradas pelos portugueses, que são um povo europeu e com outra cultura. Um exemplo: Polon. A palavra vem do timene. Não existia essa palavra em português, porque não há polon em Portugal. Mas o português também pediu emprestada essa palavra ao timene e hoje se diz poilão. Ou exemplo: bombu (levar às costas) é uma coisa que não se faz na Europa, mas se faz muito na África Ociddental e em Cabo Verde, pelo menos em algumas ilhas. Esses termos de origem africana permaneceram no crioulo pelo facto de elas expressarem realidades desconhecidas dos portugueses. Depois, há outra camada de africanismos cuja presença na língua cabo-verdiana se explica pela especificidade do seu significado semântico. Vou dar-lhe um exemplo: a única palavra de origem africana atestada nesse grupo é kundindin que em português corresponde ao cóccix. Não sei se em português popular há uma palavra precisa porque cóccix é o termo científico. Outro exemplo: em crioulo se diz “kume” (comer) “nheme”, que em português corresponde a roer. “Nheme” é uma palavra de origem mandinga. Ora, é muito mais fácil aprender kume quando se aprende português do que “nheme” porque roer é de uso mais reduzido.

- Apontou exemplos de palavras de origem africana que ainda fazem parte do léxico do crioulo de Santiago. Mas também há resquícios de africanismos nas outras variantes do crioulo, tanto da região Sotavento como da região Barlavento do arquipélago, não é?

- Claro que sim. Bem, este meu trabalho não tem a pretensão de ser o fim da investigação nesta área. Este campo está aberto. Estou absolutamente seguro que nas variantes do crioulo das ilhas do Fogo e da Brava há elementos de origem africana que não existem na variante de Santiago, já foram feitos alguns levantamentos. Nas variantes de Barlavento existem menos palavras de origem africana, mas há. Por exemplo, “tchapéu de gongon”. É preciso fazer mais estudos dentro dessa área. O problema é que actualmente existem poucas obras sistemáticas descritivas do crioulo do norte do arquipélago.

- Se não me engano, a projecto de ensino da língua cabo-verdiana propõe que se ensine nas escolas duas variantes: a de Santiago e a de S. Vicente. Acontece que as pessoas das ilhas cujas variantes de crioulo não são contempladas por essa ideia estão revoltadas e não aceitam aprender a variante dos outros. Como se pode desemaranhar este novelo?

- Os cabo-verdianos têm de resolver este problema entre si. Acho que o importante é as pessoas entenderem que o caso cabo-verdiano não é uma excepção, é a regra. Cada língua de cultura escrita que se desenvolveu fez isso com base em escolhas radicais num determinado momento da história e que venceram sobre as outras.

- Escolhas políticas?

- Sim, também, claro. Se olharmos para essas línguas que nos parecem tão naturalmente padronizadas como o português, o espanhol, o inglês, o francês, veremos que passaram pelo mesmo processo que Cabo Verde. O inglês de hoje desenvolveu-se a partir do dialecto de Londres, ou seja, a cidade de Londres impôs o seu inglês às outras regiões do Reino Unido e às outras partes do mundo. O mesmo aconteceu com o francês. Foi o dialecto da região de Paris, que é pequena mas que já tinha muito poder económico na época e era a sede do poder real, que se impôs sobre as outras variantes do francês e de outras línguas que se falavam na altura e ainda se falam. O espanhol de hoje é o espanhol de Castela Velha, ou seja, da Cantábria, uma parte reduzidíssima em temos de superfície do norte da Espanha que se foi espalhando com a conquista dos castelhanos e que agora é a língua de 400 milhões de pessoas. Quer dizer, se olharmos para a História vamos ver que em cada caso houve uma variante que venceu por motivos obviamente políticos ou derivados da política. Sempre houve esta escolha arbitrária mas que se tem de fazer. Os cabo-verdianos terão de fazer essa escolha também seja qual for a variante. Cabo Verde é uma terra pequena em termos de superfície e de população e os que realmente contam para o mantimento do crioulo a longo prazo são os que residem cá, mais ou menos 500 mil pessoas, e com os recursos económicos e humanos do país parece-me muito difícil desenvolver seriamente o ensino das várias variantes da língua cabo-verdiana, produzir os materiais didácticos, recrutar especialistas do crioulo que à volta do mundo perfazem mais ou menos 20. Como já disse isso é assunto dos cabo-verdianos, e eu não sou cidadão cabo-verdiano, mas duvido que seja possível alguma vez ensinar todas as variantes do crioulo. Os cabo-verdianos têm que conversar seriamente sobre o assunto para determinarem uma variante de consenso.

- Não sou pessimista, mas creio que vai ser difícil resolver este problema porque isso gera reacções extremadas.

- Sim, eu também acredito que sim, porque a língua é um dos elementos mais profundos da identidade de uma pessoa. Quero salientar o seguinte aqui. Por um lado, todas as línguas que desenvolveram uma forma padrão passaram por esta escolha, não há excepção. Por outro lado, a padronização de uma das variantes não implicará o desaparecimento absoluto das outras. O português dos Açores e da Madeira, por exemplo, são muito diferentes do português de Lisboa mas também se falam. O que importa é que haja uma referência escrita comum para a língua cabo-verdiana para o ensino ou para que a pessoa que queira saber alguma coisa sobre o crioulo a possa encontrar no dicionário. Mais, a padronização de uma das variantes não exclui obrigatoriamente as outras, pois pode-se incluir nessa variante expressões das outras variantes.

- Até porque actualmente, devido à circulação de pessoas entre as ilhas, à música, à televisão, entre outras coisas, as variantes incorporam palavras umas das outras.

- Sim, isso provoca uma certa uniformização da língua cabo-verdiana. Foi o que aconteceu com o francês, por exemplo. A língua francesa tem como padrão o dialecto de Paris, mas tem muitas palavras de outras línguas ou de outras variantes faladas em França. Ou seja, no caso cabo-verdiano, podem escolher a base gramatical de uma ilha e acolher palavras das variantes de todas as outras ilhas. Porque há uma matriz comum entre as variantes, que é a gramática.

- Pelas minhas contas, já publicou nove livros cujo tema é Cabo Verde, sobretudo sobre a língua cabo-verdiana. Tem algum outro projecto ligado à língua cabo-verdiana?

- Sim, neste momento, o maior projecto que tenho é um projecto científico de publicação de um atlas linguístico do Sul do arquipélago de Cabo Verde. Levei anos a fazer levantamentos para preparar a publicação desse atlas. Sempre se fala nas variações inter-ilhas, mas o que é importante saber é que dentro de uma mesma ilha há muitas variações. Neste momento, o meu maior interesse é concentrar-me nessas variações para mostrar que a questão das ilhas não basta para abranger a multiplicidade das variantes do crioulo cabo-verdiano.

- Disse há pouco que “toda a tradução é uma traição”. Tendo em conta esta sua declaração, gostaria que me falasse um pouco sobre o processo de tradução de contos tradicionais cabo-verdianos para o francês. Qual foi o desafio de traduzir esses contos, predominante orais, e transformá-los em livro?

- O autor da versão cabo-verdiana dos três contos que lancei na semana passada na Praia é o cabo-verdiano Aires Semedo. São contos que vêm directamente da tradição oral cabo-verdiana, principalmente da ilha de Santiago. O que fizemos foi dá-los a conhecer a outras culturas. Mas quisemos conservar o original, em língua cabo-verdiana, para que as pessoas pudessem fazer a comparação, por isso optamos por publicações bilingues nos dois primeiros casos (crioulo-francês) e trilingue no terceiro caso (crioulo-português-francês). Claro que isso fez aparecer muitos problemas porque o crioulo é uma língua muito económica, predominantemente oral e com expressões idiomáticas difíceis de traduzir, mas, tendo em conta que já temos treino na tradução do crioulo para o francês, acabamos por conseguir soluções, depois de muito trabalho, tanto para o português como para o francês, procurando conservar o original e dando uma tradução que fosse agradável para um francófono ou lusófono.

- Os dois primeiros livros foram publicados em França em 2005 e o terceiro em 2007. Qual tem sido a reacção dos franceses e francófonos em geral?

- A reacção é positiva. Quer dizer, há vendas, mas claro que não são maciças. E, cada vez que publico um livro em França sobre a língua cabo-verdiana, vendem-se várias centenas de exemplares, o que significa que na área francófona existe um público para este tipo de publicação, um público que é constituído neste momento numa proporção de 50/50 por pessoas de origem cabo-verdiana (descendentes que vivem na França e que querem saber mais da sua cultura de origem) e também por franceses, às vezes turistas mas na maioria franceses que por várias razões são levados a conviver com os cabo-verdianos, e que acham que é bom saber alguma coisa da língua cabo-verdiana para poder melhor se relacionar com os cabo-verdianos.

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