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ANTÓNIO VAZ CABRAL (NTONI DENTI D ́ORU) O“REI” DO BATUKU E FINASON QUE AINDA CANTA E ENCANTA AOS SEUS ADMIRADORES 04 Abril 2017

António Vaz Cabral, ou, (Ntoni Denti D ́Oru), alcunha pelo qual é popularmente conhecido. Ganhou esse epíteto em Cabo Verde logo após o seu regresso de Portugal em 1974 na sequência da extracção de alguns dentes, onde aí trabalhava como emigrante, substituídos estes por uma prótese “Denti D ́Oru”, como designamos em nosso crioulo. O nome ficou e adaptou-se bem com o artista.

Por: Nataniel Vicente Barbosa e Silva

ANTÓNIO VAZ CABRAL (NTONI DENTI D ́ORU) O“REI” DO BATUKU E FINASON QUE AINDA CANTA E ENCANTA AOS SEUS ADMIRADORES

O nome vem da origem latina Antonius, que por sua vez origina-se do grego Antónios. Significa "valioso, inestimável, digno de apreço". Sem dúvida, uma bonita definição.

Vamos então resumidamente saber quem é António Vaz Cabral ou, “Denti D ́Oru” se assim preferir. Trata-se pois, de uma figura mítica da ilha de Santiago respeitado e acarinhado por todos. Nascido em São Domingos a poucos quilómetros da cidade da Praia a 15 de Fevereiro de 1926, no seio de uma família de camponeses tal como sucede a uma boa parte de artistas da terra da nossa música tradicional (gente iletrada) com uma extraordinária capacidade imaginativa que faz inveja a qualquer um. A propósito, Denti D ́Oru celebrou com pompa e circunstância no dia 15 de Fevereiro de 2017 o seu octogésimo nono aniversário com presença da mulher, filhos, netos e o grupo que ostenta o seu nome numa tarde cultural organizada pelo próprio grupo “Fidjus de Ntoni Denti O´oru”, em São Domingos onde reside.

Recorde-se que em São Domingos nasceu também um grande vulto da nossa música: Ano Nobo, que foi compositor de vários temas cantados por vários artistas nacionais de renome internacional.

O casamento

António Vaz Cabral é casado com a Sr.ª Maria dos Reis Afonso de Carvalho, 7 anos mais nova. O enlace deve ter acontecido provavelmente nos meados de 1954 a 1955; dessa união nasceram 5 rapazes e uma rapariga.

António Vaz Cabral emigra para Portugal Em 1973, com a idade de 47 anos António Vaz Cabral emigra para Portugal à semelhança de outros tantos cabo-verdianos, tentando a sua sorte, ali trabalha numa fábrica de cimento e regressa à terra por altura da Independência em 1975. Conta que assistiu de perto a Revolução de 25 de Abril de 1974 em Portugal. Denti D ́Oru assegura pois, que se sente mais inspirado à noite, que, através dos sonhos surgem as letras para a finason de que é indubitavelmente um mestre na matéria.

Denti D ́Oru um homem de sorriso franco e aberto Este octogenário prestes a entrar na casa dos 90 fisicamente debilitado com uma perna amputada e com uma saúde muito instável continua a ser um homem muito procurado e com uma incrível vivacidade vem surpreendendo a tudo e a todos com o seu ar de boa disposição de sorriso franco e aberto. Um homem de fino trato, simples na maneira de estar e de ser e simples na sua maneira de brincar e de fazer entreter os seus admiradores. Enfim, como fiz referência no meu artigo anterior a respeito da Nha Balila da Praia, Denti D ́Oru também se inscreve naquela geração de gentes: “espécie rara em extinção.”

António Denti D ́Oru -uma fonte de inspiração

Franzino de corpo pequenino de estatura mas com uma alma gigantesca, com aquela voz calma e serena e, mui particularmente aquela genica extraordinária que faz trair até aos mais austeros dos santos nas suas brincadeiras. Numa palavra: “Un homi alegri pa genti alegri” Não obstante as intempéries da vida “Nhu N Toni Denti D ́Oru” continua “brindando” aos seus admiradores o seu sorriso mágico. Bem-haja Nhu Ntoni! Desde há muito que venho acompanhando o artista através da rádio e da televisão nacional as suas actuações pelo interior de Santiago. A sua peculiar maneira de batucar e de fazer finason fascina na verdade a qualquer um. Infelizmente, dado a distância que nos separa é óbvio que este trabalho está longe de ser o que eu desejava. Mas, lá diz o nosso bom crioulo “Kumida sabi ka mesti txeu. Não restam dúvidas que uma pessoa dessa característica tudo quanto se escreve a seu respeito é insuficiente. António Denti D ́Oru é verdadeiramente uma fonte de inspiração como tantos outros homens de valor cultural que vão escasseando aos poucos na nossa terra. Não é comum ver um homem a batucar com esse vigor particularmente numa idade tão avançada, ipso facto, Denti D ́Oru se destaca sobremaneira numa área onde predomina a classe feminina. Destarte, António Vaz Cabral apresenta-se como um “rei” nesse domínio confirma -se isso uma vez que aos 10 anos já se preparava para entrar no mundo do “batuku” abandonando os banquinhos da escola que provavelmente não era o seu fraco.

António denti D ́Oru e o seu pessimismo ao futuro do batuku em São Domingos

Afirma: “Nha mai ta kantaba mas mutu poku.” Realça:” mi n prendi finason ku Miranda Tavares, un homi ki pa si voz y forma di kanta krial un sertu fama na San Dimingu. Era fidju di un grandi kantadera di finason, Chumpinha Mendi.” Apercebe-se com isto que o célebre Denti D ́Oru já trazia um pouco no seu DNA alguma coisa da mãe.

Numa entrevista concedida a um jornalista há 5 anos o Vaz Cabral mostra o seu pessimismo quanto ao futuro do batuque em São Domingos depois do seu desaparecimento. É peremptório: “Dia kin sai dez mundu n sta konvensidu ma na S. Dimingu ka ta parci alguen pa subustituin pamodi jovens di gosi ka sta interesadu na kuzas di batuku.”

Após o lançamento de seu primeiro disco em 1998, Ntoni Denti d’Oro retornou à Europa e viajou também para os Estados Unidos para promover o seu trabalho. Apresentou-se em vários países entre os quais Portugal, França, Holanda, Estados Unidos e obviamente em Cabo Verde. António Vaz Cabral sobrevive a um suposto envenenamento

Do seu historial, como artista, consta uma tentativa de envenenamento através de aguardente. O intento fracassou porque conseguiu descobrir que o grogue oferecido continha substâncias estranhas.

Diz o artista: “Mi e kautelozu pamodi nha mai ta flaba mi senpri ma grogu di tudu mo ka ta bebedu.”

António Dente d’Oro e a sua presente situação

Hoje vive numa situação que merece mais atenção do Ministério da Cultura. Doente, confinado a uma carrinha de rodas oferecido por dois dos seus grandes amigos: Manel de Kandinhu e Gil Moreira, ambos músicos bem conhecidos na sociedade cabo-verdiana. Segundo Pascoal Fernandes que é também músico a sua habitação precisa de melhoramentos, de adaptação à actual condição do artista, considerando que os 25 mil escudos que Ntoni Denti D´oro aufere mensalmente não chegam para suportar as suas despesas.

Pascoal Fernandes vai ainda mais a longe: “a situação a que se vive o “ rei de finason” nota-se que o governo, a câmara de São Domingos e as autoridades culturais descuidaram um pouco do Denti d oru que é um dos precursores do batuku e finaçon em Cabo Verde. “

Avançou, entretanto, que Ntoni Denti D´oro, após a amputação de uma perna, nos finais do ano de 2014, não tem actuado devido a esta debilidade física, que lhe dificulta a locomoção.

Ntoni Denti D´oro, assim como Nha Bibinha Cabral e Nácia Gomi, são os propulsionadores deste género musical e cultural mais antigo de Cabo Verde.

Conclui o Pascoal Fernandes: “Por isso, as autoridades deviam dar uma maior atenção ao ´Toni Denti D´oro, porque dada às suas actuais condições físicas deveria estar a viver em melhores condições.”

Com isto, espero que o Ministério da Cultura analise a situação do senhor António “Denti D´oro”. É exactamente pois, na vida que se deve valorizar uma pessoa.

Citando pois, a Bíblia Sagrada é na dor e na tristeza que se reconhecem os verdadeiros amigos. Lealdade, fidelidade e companheirismo.

Infelizmente ainda não tive o prazer de conhecer fisicamente o António Denti D ́Oru mas julgo ser um homem muito cordial e de muita coragem.

Fico comovido nas suas palavras na sua linguagem simples: “ Mi e pobri mas n sta di brasu abertu pan resebi na nha kaza kualker un.”

Poucas palavras que valem muito. Denota com isto a amabilidade e cavalheirismo desse senhor que bem merece atenção de quem de direito independentemente daquilo que fez em prol da nossa cultura. Bem-haja António Denti D ́Oru.

Hasta lá próxima

Tarrafal, 03 de Abril de 2017

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