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Txupeta – A centenária de Colhe Bicho-Tarrafal que ainda soma anos e conta nos dedos a sua história de vida 06 Abril 2017

Ermelinda Gomes Varela ou, simplesmente, “Txupeta”, como é popularmente conhecida no Tarrafal de Santiago nasceu em Achada Biscainho a 24 de Março de 1913, filha de Manuel Varela e de Maria Gomes. Tendo vivido toda a sua infância e juventude no lugar onde nasceu. Hoje reside na casa de um dos filhos em Colhe Bicho-Tarrafal.

Por: Nataniel Vicente Barbosa e Silva

Txupeta – A centenária de Colhe Bicho-Tarrafal que ainda soma anos e conta nos dedos a sua história de vida

Ermelinda: Escudo e serpente do deus Irmin. O nome vem de origem germânica que suscita evidentemente alguma curiosidade: Optimista, afectuosa e cheia de vida, a pessoa de personalidade 9 é geniosa e ao mesmo tempo muito compreensiva, carismática e generosa. Gosta das coisas bem-feitas, mas não esconde seus sentimentos quando identifica incompetência ou preguiça. Todos estes atributos combinam plenamente com a pessoa de que vamos sucintamente descrever:

. Bem-humorada, brincalhona, alegre e bem-disposta ainda conserva em si o respeito e a educação do passado. Em jeito de brincadeira gaba-se de ter memória melhor de que certa gente jovem. Recorda nitidamente o Desastre da Assistência na Praia, em 1949. Recorda as grandes crises cíclicas de fome em Cabo Verde. Recorda nomes de padres antigos que passaram na sua paróquia. Com isto nota-se naturalmente que é muito religiosa o que se pode constatar no seu quarto com alguns objectos religiosos: crucifixo, terço grande e a imagem de Virgem Maria, chega mesmo a afirmar no seu crioulo puro: kenha ki ka di grexa pa ka ben nha kaza”. Enfim, uma anciã que celebrou no passado dia 24 de Março de 2017 em festa rodeada de filhos, netos, bisnetos e trinetos a bonita idade de 104 anos com uma lucidez que surpreende quem a viste.

Nha Txupeta é, tanto quanto sei, uma das poucas centenárias na área de Colhe Bicho-Tarrafal, onde presentemente reside. Apesar da idade e outras circunstâncias da vida mantém ainda intacta uma boa parte da sua memória. Nota-se apenas como é óbvio alguma dificuldade na audição e na visão. Nha Txupeta levou uma vida muito discreta na sociedade ao contrário de outras suas contemporâneas - como é sabido, uma boa parte delas lançaram-se no mundo de batuque e outras actividades culturais características da época e da terra. Contudo, Nha Txupeta é amplamente conhecida no meio

Tarrafalense: Uma vida bem repleta de histórias, algumas pouco agradáveis outras nem por isso. Como é evidente, na vida nem tudo são rosas. Foi mãe de 9 filhos dos quais apenas quatro se encontram vivos. Um dos filhos perdeu a vida há já alguns anos, bastante novo, num grave acidente de moto ao embater num camião de carga a poucos quilómetros da Vila, e deixou mulher e filhos um facto que provavelmente marca profundamente a Mãe causando-lhe como é natural algumas alterações na sua vida do dia-a-dia.

Ora, um facto curioso: Nha Txupeta nunca relata uma história mesmo que seja longa sem contar nos dedos da mão. Conta, com uma certa graça um episódio interessante que se passou com ela à volta de uma parturiente.

Tendo esta dado à luz a uma criança de forma inesperada e num lugar impróprio ela sem experiência alguma na matéria serviu de parteira utilizando uma “laska di cariz” para cortar o bico ao recém-nascido, o tal “korta biku” como denominamos em crioulo. Uma cirurgia improvisada que Nha Txupeta consciente do risco se aventurou e, que no entanto resultou ficando-lhe esta cena até a data na lembrança. Coisas que acontecem. Conta também que gostava de andar de cavalo. A propósito, vamos descrever um outro episódio não menos interessante relacionado às festas de um casamento:

Um dia, diz ela: N ba festa di un kazamentu na kabalu di nha pai y madrinha ka tinha kabalu e pidin pan pistal nha kabalu mi pan ba ku pe, N flal: ma ki N ta pistau nha kabalu mi pan ba ku pe na txon bu ka sabi ma si nha pai da konta dja N fronta kol.?

Que efectivamente chegou à festa de casamento de cavalo e madrinha a pé. Provavelmente a madrinha tinha menos posse. Coisas do tempo! Nha Txupeta diz que gostava de batuque mas o pai proibia-a de participar nessas brincadeiras. Conviveu com Bibinha Cabral uma figura mítica do Concelho do Tarrafal.

Nha Bibinha já um pouco mais velha de idade mas que entretanto não chegou a bater esse “record” almejado de 100 anos. Recorde-se que Nha Bibinha faleceu aos 85 anos e que foi também objecto de uma crónica minha exactamente no dia em que completara 30 anos sobre a data do seu desaparecimento.

Voltando ao tema do artigo: Nha Txupeta viria então a casar-se na Igreja Paroquial de Santo Amaro Abade com Germano Mendes e tiveram 5 filhos. Contudo, antes já era mãe de outros quatro. Não recorda a data do enlace matrimonial. Finalmente

Nha Txupeta muito sorridente calcula ter hoje na sua linhagem mais de cem netos e dezenas de bisnetos e alguns trinetos.

Gostou da história?

Hasta la próxima.

Tarrafal, aos 03 de Abril de 2017

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