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A História de Luto 21 Março 2017

Vestir de preto é um acto de mais alta consideração e demostração pública da importância que a pessoa falecida representa para os enlutados. Actualmente o luto está meio em desuso, especialmente nas grandes cidades. Argumentam que “luto está no coração e por isso vestir de preto não significa nada”.

Por: Alberto Lopes Sanches

A História de Luto

O nascimento e a morte são dois acontecimentos marcantes da vida de qualquer ser humano. Se o nascimento traz a alegria, a felicidade, a festa, e comemoração, a morte pelo contrário traz a dor, a consternação, a angústia para os homens. As vezes nós seguimos determinadas orientações sociais, desde bem cedo, sem nos questionarmos por quê. Mas na matéria de hoje iremos debruçar sobre o luto e a sua praticamos em Cabo Verde.

Como sabemos a cor de luto varia em vários países do mundo. A título de exemplos no Egipto usa-se a cor da folha seca que representa o fim da vida, na India utiliza-se o vermelho, na China veste-se o azul-escuro e na Etiópia utiliza-se a roupa cor de cinza.

A história de luto remonta ao fim da República de Roma Antiga, em que alguns magistrados começaram a vestir roupas escuras que simbolizam publicamente o luto. Esta tradição começou-se a alastrar lentamente e acaba por ter maior expressão na Europa, no século XVIII.

Em Cabo Verde os rituais da morte são profundamente influenciados pela tradição católica, que demostram a infelicidade da família enlutada perante a sociedade. As cerimónias fúnebres contemplam traços e performances europeus e africanos que se aglutinam e se traduzem em manifestações típicas de Cabo Verde. O anúncio da morte era feito de boca em boca, aliás rogavam pessoas para andarem lugares distantes e muitas vezes a pé para levarem a notícia da morte. Algo que hoje deixou de acontecer puro e simplesmente com estas novas tecnologias de informação e comunicação.

No dia do enterro do defunto a maioria dos presentes tem de estar, no mínimo, vestido de algum traje preto: calças, camisa, blusa, saia ou vestido. Caso contrário tem de levar roupas escuras e que não transmitem alegria. Dispensam roupas vermelhas, amarelas, alaranjadas ou cor-de-rosa. Hoje em dia alguns grupos organizados ou associações de determinadas comunidades têm estado a levar t-shirts, com mensagens de condolências e homenagem ao falecido, para as cerimónias fúnebres.

Durante sete (7) dias, após o enterro os familiares estão sujeitos a receber visitas “xinta na stera”.Visitas que se iniciam com orações e determinados comportamentos rituais como é caso do choro e finaliza com mensagens de condolências à família enlutada.

O luto recai sobre filhos, irmãos, esposa, companheira, afilhados, sobrinhos, primos, netos, namorado (a). Entretanto há quem diga que os netos não devem pôr luto casos os pais estiverem vivos.

Em regra os pais, avós, tios, madrinha, padrinho, crianças não devem vestir-se de luto e os pais, em particular não podem tomar parte no enterro dos filhos ou netos. Existem casos especiais em que não se recomenda enlutar-se. São os casos de pessoas que estão com casamentos à porta. É que segundo reza a tradição: “kasamentu ka ta noxadu” isto é deve seguir a risca todos os rituais desta cerimónia, que tem por base a festa rija ou seja muitos comes e bebes, euforia e música dançante. Nunca pensar-se em limitar as actividades por causa da morte porque “não é bom para a felicidade futura dos noivos”.

O tempo de luto varia de acordo com o grau de parentesco e o grau de amizade e apego que as pessoas têm para com o (a) falecido(a). No que se refere ao marido ou mulher o luto estende-se para (2) dois anos. O cônjuge deve vestir de luto rigorosamente, inclusive a esposa deve laçar um lenço preto na cabeça. Caso os dois não chegarem a casar a mulher pode não vestir totalmente de preto ou pode amarrar a cabeça com lenço branco em vez de preto. Para o caso dos filhos ou afilhados o luto vai até (1) um ano. Pese embora a mulher ou marido destes podem ajuda-los com luto e fazer com que este reduza para metade, isto é prolonga até seis (6) meses. No que tange ao irmão o luto demora seis (6) meses e no caso de primo e sobrinho demora (3) três meses.

O luto do neto demora também (3) três meses, mas caso tem mãe ou pai vivos nem precisa pôr. O luto tira-se (3) três dias depois de ultrapassar a data de aniversário da morte.

Vestir de preto é um acto de mais alta consideração e demostração pública da importância que a pessoa falecida representa para os enlutados. Actualmente o luto está meio em desuso, especialmente nas grandes cidades. Argumentam que “luto está no coração e por isso vestir de preto não significa nada”.

Os mais conservadores não comungam da mesma opinião. Consideram que isso não passa de uma manobra para poderem continuar a levar a vida normalmente, depois da morte do parente, como se nada tivesse acontecido. De qualquer das formas, o mais importante é vestir o luto não no sentido físico, material mas da forma como se determina a conduta. Os jovens são, geralmente os que mostram mais reticentes quanto a utilidade do luto e são os que mais questionam: para quê pôr luto se nos outros países nem sequer vestem-se de preto?

Da nossa parte só nos resta deixar alguma recomendação, isto é não deixemos a nossa tradição morrer. Já imaginemos um povo sem a sua identidade ou mesmo um povo em descompasso com as suas raízes? Será, seguramente um povo sem nexo, sem norte. É claro que nenhuma cultura tem tudo bom ou de positivo e cabe a nós evitar aquilo que não é valioso e agarrar com unhas e dentes aquilo que nos representa condignamente, preservá-lo e fazer um bom uso dele. O luto, neste particular, não foge à regra.

Não restam dúvidas de que as influências externas, mormente a influência dos media e a forte abertura ao mundo têm-nos induzido bastante, mas cabe a nós também saber driblá-las e tirar melhor proveito delas e nunca ficar refém dentro da nossa própria terra.

Março de 2017

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