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Lançamento do livro Jardim das Hespérides: O Sentir Literário da Época de José Lopes e o Húmus da sua Poesia 20 Março 2017

A poesia de José Lopes, esse gigante da arte de Minerva e “da Hespéria oriundo”, faz-nos sentir a dor do seu tempo, “as secretas lágrimas vertidas”, a universalidade e inclusão do seu pensamento, o sentido do seu verbo e da sua sintaxe, o chão hesperitano da sua mensagem e a grandeza de um ideal que, como um iluminado precoce, chegou a antever a dignidade das suas ilhas respeitadas, como acontece no Jardim das Hespérides, ainda que no derradeiro momento da sua vida. Este excerto é do apontamento que se segue, do escritor Manuel Veiga, sobre o livro «Jardim das Hespérides» de José Lopes, reeditado pela Academia de Letras de Cabo Verde, que vai ser lançado, nesta terça-feira,21, pelas 18H00, no Instituto de Língua Portuguesa, na Praia.

Por: Manuel Veiga (Prefaciador da Obra)

Lançamento do livro Jardim das Hespérides: O Sentir Literário da Época  de José Lopes e o Húmus da sua Poesia

A poética de José Lopes está molda em conformidade com o sentir da sua época e com os constrangimentos sociais, culturais e ambientais do seu tempo. Acontece que o sentir literário e a expressão artística, em Cabo Verde, nem sempre foram interpretados com tolerância e espírito de inclusão crítica.

É assim que a “claridade” foi quase que um “muro” em relação tanto à geração literária antecedente (a dos ditos pré-claridosos) como, de alguma maneira, a subsequente (a dos rotulados pós-claridosos), particularmente aqueles que recusaram ler pela cartilha, única e exclusivamente, do telurismo étnico. Ora, na época protagonizada por José Lopes, por Pedro Cardoso, Eugénio Tavares e Luís Loff de Vasconcelos, entre outros, havia um sentir literário emergente num contexto de pátria lusitana e de mátria africana, ligado mais ao ritmo e estética romântica, grandiloquente e classizante, do que aos cânones do realismo, do modernismo e do pós-modernismo protagonizados seja pelos claridosos, seja por vários escritores das épocas subsequentes.

Ao que tudo indica, tanto José Lopes como Pedro Cardoso recorreram a um passado mítico hesperitano (um passado glorioso) para denunciar a situação de miséria e de abandono por que passavam as ilhas de Cabo Verde, na época em que viveram.

Como terá surgido o mito hesperitano? Tudo indica que, frente aos rigores de uma natureza que, ciclicamente provocava a seca e a fome, bem como o colonialismo que privava os caboverdianos da liberdade, justiça social e respeito pelos direitos fundamentais, alguns intelectuais, como José Lopes e Pedro Cardoso sonharam e arquitetaram o mito hesperitano, uma espécie de pasárgada do seu tempo, como forma de exaltação da história das suas ilhas.

Assim visto, o mito hesperitano teria por função a procura de equilíbrio (ainda que apenas sonhado) num ambiente sufocado pela estiagem natural, cultural e política.

José Lopes, desiludido com o esquecimento das ilhas, por parte da então “Metrópole”, estando na altura na Boavista (em 1899), proclama o desejo de as ver independentes.

Ora, quem age assim não pode ser apodados de poeta alienado ou de evasionista telúrico, mesmo sendo defensor, ao mesmo tempo, da pátria lusitana e da mátria caboverdiana, o que para muitos era uma posição dúbia e inaceitável.

O chão da poesia de José Lopes é, pois, hesperitano. Tanto no título desta obra (Jardim das Hespérides), como nas várias referências feitas pelo autor, o ambiente hespiritano é uma constante. Dir-se-ia que o vate enraíza, poeticamente, a identidade e a pátria crioulas nesse chão hesperitano que outros chamam, também, “arsinário”.

É por isso que, denunciando a situação degradante em que viviam os caboverdianos, José Lopes afirma, em 1899, no número 14 da Revista de Cabo Verde “… dia virá em que o povo há-de triunfar dos que ou o desprezam, ou o oprimem, ou o envenenam (…) tenho anseios de que algum dia, embora no derradeiro momento da vida, pudesse ter o prazer de ver estas pobres ilhas independentes”.

Quem, como ele – ou como Eugénio Tavares, Pedro Cardoso, Luís Loff de Vasconcelos - reclama a cidadania inclusiva para Cabo Verde e para os caboverdianos, não pode ser considerado alienado e desenraizado, mesmo defendendo, em uníssono, a pátria portuguesa e a mátria caboverdiana.

Podemos, pois, afirmar, que o chão da poética de José Lopes, para além do sonho hesperitano de ver as ilhas alcandoradas a um patamar mais alto de dignidade e de desenvolvimento, expressa também um “telurismo” – não, propriamente, o da valorização do crioulo ou da esconjuração da insularidade madrasta (com o seu coro de fomes, secas e estiagem), mas um telurismo que se confunde ou que dialoga com um humanismo de horizontes abertos. E isto porque, na sua conceção, o mundo só seria hesperitano quando passasse a ser uma aldeia global, de cidadania plena, de dignidade reconhecida e vivida, de direitos respeitados e de deveres assumidos.

Um tal telurismo de rosto humano e de janelas abertas para o mundo - a partir do chão das ilhas (as suas hespérides) - não é, de forma alguma, nem alienado, nem alienante. Com efeito, “Tempora Mutantur, Nos et Mutamur in illis” (os tempos estão mudando e nós estamos mudando com eles), num sentir diferente, é certo, mas sempre em defesa das hespérides e dos hesperitanos (entenda-se Cabo Verde e caboverdianos).

Ora, um poeta “e pluribus unum” (plural e uno), com uma visão do global, sem perder a geografia do local, defendendo (em português, inglês, francês e latim) a cidadania do humanismo e a dignidade da sua mátria hesperitana, com pergaminhos de reconhecimento em vários pontos do globo – um poeta, dizia, com esta dimensão, engrandece o nosso ser, fecunda e vitaliza o nosso existir, quer nas ilhas hesperitanas, quer nas achadas, cidades e ribeiras de Cabo Verde, quer em qualquer ponto do mapa, com todas as cores e harmonia do arco-íris.

A poesia de José Lopes, esse gigante da arte de Minerva e “da Hespéria oriundo”, faz-nos sentir a dor do seu tempo, “as secretas lágrimas vertidas”, a universalidade e inclusão do seu pensamento, o sentido do seu verbo e da sua sintaxe, o chão hesperitano da sua mensagem e a grandeza de um ideal que, como um iluminado precoce, chegou a antever a dignidade das suas ilhas respeitadas, como acontece no Jardim das Hespérides, ainda que no derradeiro momento da sua vida.

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