Caso Monte Tchota

A SEMANA : Primeiro di?rio caboverdiano em linha

Crime macabro em Monte Txota que chocou o país: "Entany" estava de sentinela e era o único armado 09 Maio 2016

Os meandros que envolvem a morte de oito militares e três civis no Destacamento Militar em Monte Txota (Rui Vaz), Santiago, arrepiam Cabo Verde pelos laivos de crueldade do presumível assassino, que terá baleado à queima-roupa as onze pessoas. Por um lado, o crime reabre o debate sobre a segurança no país e, por outro, põe a nu não só o “descaso” das Forças Armadas quanto à inspecção rigorosa das pessoas que entram para as fileiras da tropa por vontade própria como também denuncia maus-tratos a que os militares são alegadamente submetidos.

Crime macabro em Monte Txota que chocou o país:

Este caso também chocou a comunidade internacional – quanto mais não seja porque entre as vítimas contam-se dois espanhóis. E enquanto as reais causas deste crime continuam por desvendar, o que veio a público são relatos oficiais das Forças Armadas e da Polícia Nacional, que apontam como causa desta barbárie uma suposta briga entre o suspeito e um colega soldado. Versão que, ao que parece, não está a convencer a população, que continua incrédula e questionando se será prudente as autoridades tomarem como “quase certo” o que é a declaração da única testemunha, aliás, o próprio suspeito desse assassinato em massa.

Outras perguntas inquietam, no entanto, a todos: Será que "Entany" seria capaz de arquitectar sozinho os detalhes de tamanha barbárie? E se este assassínio for uma resposta de traficantes ao Estado de Cabo Verde devido ao cerco ao narcotráfico, tal como aventam militares que conhecem bem a casa e a própria Polícia? Porquê em Monte Txota e porquê as Forças Armadas? Respostas que os cabo-verdianos esperam receber das autoridades que, neste momento, fazem de tudo para que a comunicação social não tenha acesso a mais informações do caso, fechando-se em copas.

A Semana apresenta o filme cronológico dos acontecimentos, partindo do princípio de que "Entany", o único suspeito da chacina, seja o autor do crime, como, aliás, consta que terá confessado às autoridades e familiares.

Segunga-feira, 25 de Abril...

Por volta das duas horas da madrugada, Manuel António Ribeiro Silva, “Entany", que, segundo fonte oficial, era o único que estava de sentinela enquanto os colegas estavam a dormir, deixou o posto e dirigindo-se à caserna com uma espingarda AKM disparou contra todos os colegas. Não se sabe ainda quem foi o primeiro alvo, mas seis soldados morreram em cima da cama e os dois restantes no chão: um à porta e o outro debaixo da cama. Após matar os colegas, foi ao quarto do sargento e apanhou as armas pertencentes aos oito militares mortos, que normalmente eram recolhidas e guardadas pelo sargento, além de uma caixa contendo mais de mil munições. Meteu-os numa “mochila militar” e ficou a aguardar a chegada dos técnicos civis, dois espanhóis e um cabo-verdiano, que há cerca de um mês faziam trabalhos nessa estação de comunicação, onde ficam as antenas das rádios e televisões, da AMP, PJ e PN. A ideia era apoderar-se da viatura e fugir do local levando o armamento.

Manhã de terça-feira, 26…

Entre as 8h30 e 9 horas de terça-feira, chegaram ao destacamento militar os espanhóis Angel Martinez Ruiz e David Sanches Zamarreno - que prestavam serviço à CV Telecom -, acompanhados do professor universitário cabo-verdiano e assistente Danielton Monteiro. Manuel "Entany" Silva esperava-os e disparou contra os três. Tudo indica que o professor tentou esconder-se num dos cantos de uma muralha, mas sem sucesso. Foi baleado à queima-roupa. Terá sido este último disparo que chegou aos ouvidos dos moradores de Rui Vaz. Estes no entanto não se alarmaram já que, para eles, é “normal” ouvir-se tiros em locais militares.

Foi nesse ínterim que o assassino terá roubado o carro dos espanhóis para pôr-se em fuga. Segundo uma moradora, o “Terios” foi visto a passar entre as 10 e 11 horas a alta velocidade e por pouco capotava, ao fazer uma curva nessa zona. Ao que tudo aponta, "Entany" continuou o trajecto, mas até hoje as autoridades não sabem explicar como é que ele, que não possui carta de condução, conseguiu conduzir na estreita e inclinada estrada que liga Rui Vaz a São Domingos.

Em São Domingos…

Chegado a São Domingos, "Entany" embateu com o carro em pelo menos dois Hiaces na estrada principal de Várzea da Igreja. Segundo Djenis – condutor de um Hiace que seguia no sentido Assomada-Praia –, quando parou à berma da estrada de São Domingos para deixar clientes, o veículo conduzido por "Entany", após ultrapassar uma carrinha parada diante duma agência bancária, bateu no parachoques do seu Hiace. O militar, no entanto, não parou e seguiu em direcção à cidade da Praia.

De imediato, o hiacista desceu do carro e apanhou uma boleia num Ford Ranger para tentar parar o carro em fuga. “Durante o percurso informei a Polícia de São Domingos do sucedido, no sentido de accionarem os agentes que estavam na estrada de Ribeirão Chiqueiro para deterem a viatura. Só que "Entany" não parou quando viu os agentes, continuou directo para Praia. Logo, deixei o Ford Ranger e apanhei boleia no carro de um colega de volta a São Domingos, onde deixara o meu Hiace com os passageiros”, conta.

Quarta-feira, … mais de 24 horas após o crime

Por volta das 10 horas, três técnicos da CV Telecom chegam a Monte Txota. Estranhando o facto de não terem sido recebidos por nenhum militar à porta do destacamento, como era habitual, accionaram o Comando da 3ª Região Militar na Praia, que logo pôs uma equipa no terreno para averiguar o que se passava. Coincidência ou não, a Polícia Nacional da Praia entrou em contacto com as FA informando que haviam encontrado uma viatura de marca Terios na Cidadela com uma mochila contendo oito armas e uma caixa com mais de 1000 munições.

A viatura alugada a uma empresa da Praia teria sido abandonada naquela segunda-feira, 25, alegadamente pelo autor do crime. Segundo testemunhas no local, "Entany" teria recebido apoio de duas pessoas para empurrar o carro que tinha parado o motor, alegadamente por falha mecânica. Incapaz de pôr a viatura a funcionar, deixou-a no local. Não se sabe como lá chegou, mas o certo é que ele foi à casa da irmã no Palmarejo, onde ficou à espera que a notícia se espalhasse.

Assim que a informação começou a circular, "Entany" saiu de casa e ficou a deambular pela cidade da Praia de táxi, tendo deixado a sua metralhadora AKM na residência da irmã. Segundo fonte policial, o visado refugiou-se numa barraca no bairro de Coqueiro. Ao ver que estava sendo perseguido, apanhou um táxi - alegadamente fazendo o motorista de refém - e ficou por cerca de três horas a circular pela ruas da capital, até ser detido por policiais e militares na zona da Fazenda. Estava disfarçado com uma peruca quando foi capturado. Apresentado em tribunal, o juiz aplicou-lhe a prisão preventiva como medida de coacção. Aguarda julgamento nas instalações militares da 3ª Região Militar.

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