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Carnaval: Instrumentos de percussão “made in” Cabo Verde 15 Fevereiro 2016

O Carnaval está a entrar numa interessante onda industrial de cariz local. Cada vez mais, de ano para ano, vê-se que além dos andores, roupas, os instrumentos de percussão, antes importados do Brasil, agora são fabricados nas ilhas. As mãos de Mike Lima não são inocentes neste novo atelier para o Carnaval que cria o “made in CV”. Mike percebeu que importar estes materiais era muito mais dispendioso que produzir tudo aqui. Mais tarde o aprendiz Elton Lima, dirigente do Sambatucada que levou a batucada do Carnaval à capital cabo-verdiana, resolveu ‘industrializar’ este hobby, que aprendeu com o mestre Mike. E com a sua pequena indústria, já conseguiu, além de liderar as actividades carnavalescas na Praia, exportar também kits destes instrumentos para o estrangeiro.

Carnaval: Instrumentos de percussão “made in” Cabo Verde

“Comecei a tocar com instrumentos vindos do Brasil. Mas depois vi que transportar estes materiais para Cabo Verde era uma ´dor de cabeça´. Começámos a fabricar, montar e afinar os nossos próprios instrumentos em São Vicente. Agora importamos apenas pele sintética e tamborim”. Aliás, esclarece, para “a pele de cabra não é necessário importar”, “apesar de ser difícil de encontrar e de preparar. O resto - corpo, arco, varão, platex, alumínio e a afinação – é tudo nacional”, congratula-se Mike Lima.

Entretanto, com o passar do tempo, Mike Lima conta que sentiu necessidade de duplicar o seu stock de instrumentos devido ao aumento da procura. Quando isso acontece, diz que precisa requisitar mão-de-obra para dar vazão à procura, principalmente em relação aos instrumentos que são feitos, na maioria das vezes, à última da hora. Este ano, “com um grande sacrifício consegui fazer cerca de 13 kits, que foram enviados para o Fogo, Praia, S. Nicolau, Santo Antão, e Brava”, informa-nos Mike Lima.

O artista também recebe encomendas de pessoas que vivem na diáspora. Este ano enviou instrumentos de percussão para Lisboa, Holanda e França, o que confirma que o negócio é rentável. Daí que Mike Lima pondera aumentar o investimento na área, isto apesar da incerteza sobre a procura.

“Tem tido alguma rentabilidade. A única razão de queixa é o facto de as pessoas pensarem que tenho uma loja já montada e fazem os pedidos ’na última da hora’. A dois dias do Carnaval, fizeram-me um pedido grande para Santo Antão. Infelizmente tive de desculpar os clientes, porque não era possível satisfazer esse pedido. Entretanto, tenho receio de mandar buscar materiais em grande quantidade. É que pode ser dinheiro investido sem retorno, porque não tenho certeza se terá saída ou não. Até porque os grupos de Carnaval em São Vicente já têm os seus materiais. Por isso, pode ser arriscado expandir o negócio e montar uma loja. Aposto numa quantidade mínima de materiais e não numa importação a grande escala. Tudo para evitar que os instrumentos fiquem encalhados – até porque os materiais que utilizo não são baratos”, explica Mike Lima.

Revela que este ano traz uma inovação: um saquinho onde os tocadores poderão trocar de instrumento. Ou seja, colocam o tamborim e apanham a caneca para tocar um funaná, que está numa das músicas do Carnaval.

Mike assevera que no verão também fazem encomendas para as actividades, porque nesta época é que há mais pedidos. E é com orgulho no seu trabalho que nos conta como chegou à conclusão de que o seu ofício tem qualidade: foi depois de ver em São Nicolau como o seu trabalho tem inspirado muitos dos novos que surgem na ilha de Chiquinho, onde o Carnaval está a crescer cada dia mais.

Para o próximo ano, Mike pensa em investir mais capital para aumentar o seu stock de encomendas e satisfazer assim os possíveis clientes. “Muitas pessoas estavam a contar com o meu trabalho e por isso mandaram importar pele. Para além disso, formo pessoas para fazer esse trabalho, o que é muito bom. Aprendem a tocar e a fazer os instrumentos. Por isso, fico com um pé atrás para investir na área. Mas assim é bom, porque há uma concorrência mais saudável”, analisa o mestre que já passou este saber a outros que já fazem o mesmo ofício noutras paragens do país.

Exemplo disso é Elton Lima, que está a fabricar os materiais para o Carnaval na capital cabo-verdiana. Depois de aprender com o mestre Mike, Elton conta que começou os seus trabalhos numa oficina na rua, improvisada com uma cobertura de madeira. Com a expansão do negócio, emprestaram-lhe uma cave onde fabrica também instrumentos de percussão. Além de exportar para as ilhas, Elton já enviou encomendas para alguns países da diáspora, inclusive para os Estados Unidos da América.

Elton que é dirigente do grupo Sambatucada que leva a alegria do som do Carnaval à capital desde 2008 - conta agora com 40 elementos -, tem sempre agenda cheia. Há 7 anos consecutivos que são os detentores do prémio de melhor batucada na Praia. Com o tempo, Elton também teve a visão de expandir o ofício que aprendeu com o seu mestre Mike Lima.

“Aprendi este ofício desde a adolescência”, conta. “Aprendi também a tocar no grupo de Mike Lima. Vim viver na cidade da Praia, onde comecei a ensinar crianças a tocar. Entretanto, apareceram adultos interessados, pessoas de São Vicente e de outras ilhas que gostam de tocar. Começámos a actuar em actividades e principalmente na época de Carnaval. Com o tempo, começaram a requisitar também os materiais”, conta Elton Lima que faz este ofício há 7 anos e já conta com 19 anos a tocar.

Diz que, desde o mês de Novembro, já tinha um stock quase pronto. Há uma semana fez praticamente só as pinturas e montagem. Somente o Ministério de cultura requisitou 6 Kits (Cada um com 3 surtos, 2 caixas, 2 repeniques, 1 chocalho e 2 tamborins) Recorre aos serviços de serralharia para trabalhar os arcos.

Elton Lima junta-se com Dénis Rodrigues nesta aventura. No seu djunta-mon trabalham minuciosamente os surtos, repeniques, tamborim, chocalhos, entre outros instrumentos. E embora ainda não o tenham como um negócio formalmente concebido, vão continuar a investir nele. Ambos garantem que não querem desistir do ofício, porque notam que, a cada ano que passa, aumenta a procura pelos seus produtos.

Vanina Dias

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