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Porto Novo “revoltióde” com festa de santo padroeiro: Romaria de Son Jon candidata a património imaterial nacional 23 Junho 2015

O ambiente em Porto Novo já está por estes dias “revoltióde” a preparar para a explosão popular que marca a maior festa de romaria do país – São João Baptista. A logística já está montada para receber em segurança milhares de peregrinos, festeiros e turistas vindos de todos os cantos do país e da diáspora. Concentram-se na Ribeira das Patas para, após muitas horas de “kolá-Sonjon” e “cmida de camin”, invadirem a cidade ao som dos tambores com o santo padroeiro aos ombros. Este ano a festa pode ser condimentada com a classificação da Romaria de Son Jon como Património Cultural Imaterial de Cabo Verde pelo Ministério da Cultura.

Porto Novo “revoltióde” com festa de santo padroeiro: Romaria de Son Jon candidata a património imaterial nacional

O tambor de Jon Nhonhô já está afinado à espera de um dos momentos mais simbólicos da festa de Son Jon em Porto Novo: a chegada da imagem de São João Baptista à cidade, acompanhada por milhares de peregrinos e festeiros vindos do povoado rural de Ribeira das Patas. Apesar da idade, este octogenário promete estar entre os tocadores a “repicá pau na tambor”, movido pela inabalável fé no santo padroeiro do seu município natal.

Este ano, Jon Nhonhô não vai buscar Son Jon ao interior do concelho, talvez por causa do peso da idade. Afinal, percorrer os 22 quilómetros que separam Ribeira das Patas e a cidade do Porto Novo no meio de um sol abrasador é uma jornada cansativa, mesmo para um fervoroso devoto. Mas ele sabe que São João Baptista vai cumprir a tradição e não fará esse caminho como um solitário aventureiro. Muito pelo contrário, terá a companhia garantida de milhares de pessoas, quando abandonar a capela de Ribeira das Patas rumo à igreja matriz do Porto Novo. E, apesar do simbolismo religioso da romaria – cânticos e reza – a sua viagem será também embalada pela dança e batida frenética do ritmo kolá-sonjon.

Logo pela manhã do dia 23 de Junho, o santo já estará na rua, pronto para essa longa jornada. Movidos por uma força quase que sobrenatural, peregrinos de todos os recantos da ilha e de outras paragens vão fazer uma viagem de quase oito horas, rezando, cantando, dançando e tocando tambor. Pelo caminho, terão ao seu dispor água, alimento e apoio médico.

Há quem diga que nada se compara em Cabo Verde com a romaria de São João Baptista no concelho do Porto Novo. Estar no meio da festa é descrito como uma experiência inesquecível. Apesar da longa distância percorrida, e em grande rebuliço, os festeiros conseguem aguentar a carga com uma felicidade contagiante. Velhos, jovens, crianças e adultos acompanham o santo e entram no centro da cidade do Porto Novo numa explosão de energia e alegria. A chegada é assinalada com badaladas do sino da igreja e o repicar mais forte dos tambores.

Festa popular nascida em Porto Novo, o Son Jon santantonense conserva ainda características originais, defendem os portonovenses. A peregrinação da Ribeira das Patas para Porto Novo é uma delas. Ciente das particularidades dessa manifestação sociocultural, o Ministério da Cultura deve classificar a romaria como Património Cultural Imaterial de Cabo Verde, ainda durante a celebração deste ano. Embora o anúncio seja aguardado com ansiedade, o desejo da Câmara Municipal era que a festa no seu todo, e não apenas a romaria, fosse merecedora de tamanha distinção. No entanto, o argumento sustentado pelo Ministério da Cultura é que São João é celebrado noutros concelhos do arquipélago, pelo que seria injusto sobrepor a festa do Porto Novo à da ilha Brava – também famosa.

Para a edil Rosa Rocha, é um erro pretender-se dissociar a romaria da festa de Son Jon do Porto Novo, concelho onde essa manifestação nasceu e tem uma força sociocultural ímpar. Mesmo assim, a edilidade está disposta a aceitar esse título e espera ser informada da decisão pelo ministro Mário Lúcio até a próxima segunda-feira, 22 de Junho, véspera da peregrinação.

“Na verdade são 44 quilómetros, se levarmos em conta que as pessoas vêm trazer o santo a Porto Novo no dia 23 e fazem o percurso inverso no dia 25, para devolver Son Jon ao seu aposento na Ribeira das Patas”, realça Miguel Autinho, vereador dos pelouros da Educação, Formação e Cultura. Este movimento, que chega a ultrapassar as sete mil almas, é, para Autinho, um dos elementos diferenciadores do Son Jon do Porto Novo. Apesar de a festa ser celebrada noutras ilhas, como Brava, Autinho afirma que a força social da peregrinação nesse concelho de Santo Antão é única.

Todos os anos, faça sol ou faça chuva, Porto Novo mobiliza-se para enaltecer a figura do seu santo padroeiro. Por causa da distância e das altas temperaturas próprias dessa região árida, o desfalecimento de peregrinos é uma constante. Isto apesar do apoio da população, que oferece comida e água aos peregrinos ao longo do percurso. “Estamos cientes dos riscos para a saúde que essa actividade representa. Mas toda a logística já está preparada com a Polícia Nacional, Delegacia de Saúde, Bombeiros e outras entidades. Há casos de desfalecimento por cansaço que podem ser resolvidos imediatamente, os mais complicados são enviados para a Delegacia de Saúde”, explica Miguel Autinho, acrescentando, por outro lado, que o serviço de saneamento da edilidade está também de prontidão para manter a urbe limpa e apresentável.

Desde 6 de Junho que Porto Novo tem estado a respirar e a transpirar a festa de Son Jon. As pensões estão cheias e o movimento marítimo entre o Porto Grande e o Porto Novo ficou mais intenso.

Para não fugir à tradição, a edilidade programou um vasto leque de actividades desportivas, culturais e recreativas, que começaram desde o dia 6 e só terminam na próxima quinta-feira, 25 – quando os peregrinos regressam com o santo à localidade de Ribeira das Patas. Muitos dos eventos culturais tiveram como palco a Aldeia Cultural Nôs Reíz, que recebeu espectáculos de música e dança, “boxôn” (com tamboreiros e coladeiras), rabecada e oficinas de produção de objectos em cabedal. Logo ao lado, no recinto 5 de Julho, aconteceu a feira de produtos agrícolas Fepasa.

E a festa continua: na próxima terça espera-se uma multidão no tradicional baile popular, que este ano será abrilhantado pelos artistas Joceline, Fatu Djakité, Beto Dias, Kino Cabral, Djodje e o grupo Melodie.

A nível desportivo, o programa abrange todas as modalidades praticadas em Porto Novo: futebol, futsal, karaté, andebol, voleibol, corrida de bote, equitação, ciclismo, parkur, capoeira, halterofilismo, skate e patinagem. No entanto, as atenções estão centradas nas eliminatórias da corrida de cavalos, marcadas para o dia 23. Outro grande momento da festa está reservado para as cerimónias religiosas que acontecem na próxima quarta-feira, dia de São João. Já com o santo na cidade, será celebrada a Eucaristia, com procissão pelas ruas, venda e arrematação de ramos e muito kolá ao ritmo dos exímios tamboreiros da ilha de Santo Antão.

Kim-Zé Brito

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