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Mac # 114, o movimento que fez “tremer” a classe política cabo-verdiana 07 Abril 2015

Até há poucos dias era um ilustre desconhecido, à margem da agenda mediática e ignorado nas listas das diferentes castas da chamada sociedade civil e política. Autointitula-se Movimento de Acção Cívica (Mac# 114) e fez esta semana tremer a classe política cabo-verdiana ao arrastar multidões para as ruas em protesto contra a aprovação do novo Estatuto dos Titulares de Cargos Políticos na Assembleia Nacional. Chefiado por Rony Moreira (foto), ex-militante e ex-dirigente da JPAI em Portugal, o Mac# 114 surgiu a 20 de Janeiro, Dia dos Heróis Nacionais. Nessa altura, fez a sua primeira intervenção pública: um protesto silencioso junto ao Memorial Amílcar Cabral, quando altas personalidades do país, nomeadamente o Presidente da República Jorge Carlos Fonseca, prestavam a habitual homenagem aos heróis nacionais. Agora tem tentáculos em quase todo o país, mas está mais organizado em Assomada, liderado por Adilson Correia; nos Espargos, chefiado por Jassy Sousa; e no Mindelo por Vacilísio Gomes. O movimento integra, sobretudo, jovens, estudantes e desempregados, mas a cada dia que passa agrega mais pessoas de diferentes sensibilidades políticas e religiosas e de variados estratos sociais – desde cozinheiras a agricultores, de donas de casa a comerciantes, professores. O Mac# 114 está na boca do povo e promete manter alta a bandeira das causas sociais, de uma democracia mais inclusiva e participativa, de melhor gestão da coisa pública e de defesa dos direitos do povo cabo-verdiano. "O Movimento de Acção Cívica será a voz da juventude, uma organização independente de partidos, imparcial e activa na sociedade cabo-verdiana, prometem os líderes". Conheça-os agora na entrevista que se segue.

Mac # 114, o movimento que fez “tremer” a classe política cabo-verdiana

O líder Rony Moreira

A Semana - Os cabo-verdianos querem saber. Quem é Rony Moreira, o jovem que fundou o Movimento de Acção Cívica (Mac# 114) que esta semana mobilizou a nossa sociedade para protestos nos principais centros do país e na Diáspora?

Sou Rony Luís Moreno Moreira e tenho 33 anos. Sou licenciado em Sociologia pela Universidade Lusófona de Lisboa. Nasci na cidade da Praia e sou originário de uma família de Santa Cruz, interior de Santiago. Trabalho como agricultor num terreno da minha família perto da Barragem de Poilão.

Por que escolheu trabalhar na agricultura?

Porque é uma área que está a expandir em Cabo Verde e que tem uma janela de oportunidades que, acredito, devem ser aproveitadas.

O Movimento

Como surgiu o Movimento de Acção Cívica (Mac#114)?

O MAC surgiu nas redes sociais como um grupo de jovens que estão insatisfeitos com o rumo que o país está a tomar. Cabo Verde está a ser controlado por uma pequena classe política que é detentora de recursos financeiros, absorve quase tudo e deixa poucas oportunidades para os outros. A ascensão social está relacionada com o poder que as pessoas têm, e a função pública em Cabo Verde é controlada pelos dois maiores partidos, PAICV e MpD, que defendem o statu quo. Entendemos que isso não pode continuar. Por isso decidimos criar o movimento.

Qual foi a sua primeira intervenção social?

Começámos a pensar no MAC a 13 de Janeiro, Dia da Liberdade e da Democracia. Convocámos pessoas através das redes sociais e apareceram somente nove. Mas não desistimos e no dia 20 de Janeiro conseguimos juntar vários líderes associativos da cidade da Praia e outras pessoas que aderiram de forma autónoma. Fizemos a nossa primeira intervenção pública – um protesto silencioso junto ao Memorial Amílcar Cabral, no momento em que altas personalidades do país, entre eles Jorge Carlos Fonseca, prestavam a habitual homenagem aos Heróis Nacionais. Foi aí que começámos a mostrar o nosso descontentamento para com as coisas que estão a acontecer no nosso país.

- O que é que significa esse 114?

Tem a ver com o artigo 114 do Regimento Interno da Assembleia Nacional. É usado quando os deputados querem defender a sua honra. Nós usámo-lo porque queremos repor a honra dos desempregados, das pessoas mais desfavorecidas e que passam por dificuldades, bem como, dos cidadãos não políticos em Cabo Verde.

O que é o Movimento de Acção Cívica (Mac# 114) ?

- O MAC é um movimento civil apartidário. As pessoas que fazem parte do MAC são sobretudo jovens. Alguns são estudantes, outros são desempregados e outros trabalham. Mas a cada dia vai agregando pessoas de várias sensibilidades políticas, credos, dos mais variados estratos sociais - cozinheiras, agricultores, donas de casa, comerciantes, professores, funcionários da Administração Pública, sector privado. A nossa base é cada vez mais abrangente.

Qual é a vossa filosofia?

O nosso objectivo é ser um grupo de pressão para ajudar a elevar a democracia cabo-verdiana, tornando-a mais participativa para que o povo não seja chamado apenas de cinco em cinco anos para decidir quem vai governar. Queremos fazer ouvir a nossa voz em prol de uma mudança capaz de trazer mais equilíbrio social, económico e político para Cabo Verde.

De que forma pretendem fazer isso?

Para conseguir alcançar esses desideratos, é necessário que primeiro a classe política cabo-verdiana mude a sua postura e passe a defender os cabo-verdianos em vez dos seus interesses. Também é necessário que a nossa sociedade seja mais esclarecida e interventiva. Estamos a fazer a nossa parte, vamos continuar a mobilizar, a esclarecer as pessoas e a mostrar-lhes que devem defender e lutar pelos seus direitos.

A polémica do Estatuto

Falemos sobre as recentes manifestações contra o novo Estatuto dos Titulares de Cargos Políticos. Como conseguiram mobilizar as pessoas nas principais cidades do país - Praia, Assomada, Mindelo, Espargos - e até mesmo na Diáspora?

Surgimos como uma plataforma, mas fomos agregando pessoas à medida que dávamos a conhecer as nossas motivações. Esse impacto não foi à toa, foi conseguido a partir de um trabalho que começou a ser feito há muito tempo. Os jovens ansiavam por uma oportunidade de sair à rua e tornar público um descontentamento que está a aumentar a cada dia que passa por causa do desemprego, da fragilidade económica e social, da desigualdade de oportunidades, do poder concentrado nas mãos de um grupo restrito de pessoas. Foi uma forma de mostrar a nossa revolta e o descrédito nos partidos políticos, pois não estão a acreditar na capacidade do homem comum. Acreditam neles mesmo. Mas falo de todos – PAICV, MpD e UCID. Foi uma manifestação extremamente ordeira e os cabo-verdianos estão de parabéns.

O que mais desagrada ao MAC # 114 no Novo Estatuto dos Titulares de Cargos Políticos?

Há alguns pontos exagerados no Estatuto que acabam por deitar por terra todo o diploma. Por exemplo, como é possível aumentar os salários dos políticos em 65%? Defendemos uma actualização, mas dentro daquilo que o país pode pagar. O estatuto choca por ser imoral, num momento em que estamos a viver uma conjuntura económica desfavorável. Há chefes de família com um agregado elevado que recebem um salário de 11 a 18 mil escudos e passam por grandes dificuldades para satisfazer as necessidades básicas.

Já fizeram os protestos. E agora?

Agora vamos esperar pela reacção do Chefe da Nação Cabo-Verdiana. Mas antes vamos apresentar propostas porque não se pode causar rupturas ou contestar algo sem apresentar alternativas.

Que alternativas são essas?

Primeiro, defendemos que os salários dos titulares de cargos políticos sejam iguais ou só um pouco superior aos da Administração Pública. É o que o país pode pagar. Segundo, devem servir em exclusividade o Estado, porque não se pode defender os interesses do Estado na Casa Parlamentar num dia e no outro ser contra esses mesmos interesses como advogado. Isso é promiscuidade e não pode continuar. Também há que limitar as regalias e eliminar outras. Como é que se pode pagar uma viagem a um deputado para receber tratamento médico onde quiser, sabendo que ele é beneficiário do INPS? Não somos um país rico e temos de viver de acordo com as nossas possibilidades. Defendemos que os deputados devem ter o necessário para desempenharem as suas funções da melhor forma, tal como os polícias e médicos que lidam com situações difíceis mas recebem o que o país lhes pode pagar.

Mac# 114 vai continuar

O MAC é para durar ou será que, depois da onda de protestos, o movimento vai desvanecer?

O MAC vai continuar porque não há nem haverá assédio político, monetário em forma de emprego ou de status social que nos vai travar. E mesmo que surjam empregos de forma legítima para os nossos membros vamos continuar a dar a cara. Há problemas sociais em Cabo Verde que não são resolvidos, não por falta de recursos, mas porque não há vontade política para resolvê-los. É isso que nos move para continuar a lutar.

- Liderou alguma outra organização antes de fundar o Mac# 114?

Sim, fui um dos dirigentes da JPAI em Portugal, quando estava a cursar sociologia, e fui um dos que trabalhou no terreno e ajudou o partido a vencer as eleições de 2006 e 2011. Mas expulsaram-me do partido.

Divergências com o PAICV

Por que o expulsaram do partido?

Porque não estava de acordo com a forma como alguns dirigentes do partido se posicionavam. Defendo os ideários da filosofia de esquerda que são a favor de uma melhor divisão dos recursos públicos, de maior igualdade e de oportunidades iguais para todos. Mas infelizmente os dirigentes do PAICV não querem saber disso. No congresso do PAICV em 2011, manifestei a minha insatisfação contra a liderança do partido que estava a fugir da essência daquilo que Amílcar Cabral defendia. Fui expulso porque não queriam que eu protestasse contra o statu quo. Mas estou convicto de que estou a fazer a minha parte enquanto cidadão cabo-verdiano.

Quer dizer que o PAICV perdeu a sua essência?

Sou cabralista, nacionalista e de esquerda. Ideologicamente o PAICV também o é, mas na prática não. Amílcar Cabral defendia que as pessoas devem pensar com as suas próprias cabeças. No PAICV falam que as pessoas devem pensar livremente, mas é o próprio partido que compra votos nas eleições.

É um ex-JPAI e está a afirmar que o partido comprou votos?

Foi o próprio líder parlamentar Felisberto Vieira que afirmou isso em público e está registado na comunicação social.

O que tem a dizer sobre a liderança de José Maria Neves no PAICV?

- Decepcionou-me enquanto líder porque ele pôs em causa muitas ideias que o partido defendia. Não concordo, por exemplo, com o facto de ele ter tornado o Conselho de Ministros numa extensão do PAICV.

Lobby e cidadania

Mas há quem diga que criou o MAC #114 para se vingar do partido que não lhe arranjou um “tacho” quando chegou a Cabo Verde. Quer comentar?

Repare. Fui militante e um dos dirigentes activos da JPAI em Portugal, estive no terreno e ajudei o partido a vencer duas eleições consecutivas – 2006 e 2011. Conheço todas as pessoas dentro do PAICV, dos líderes até às estruturas de base. Portanto, se quisesse “tachos” bastava engolir sapos, concordar com tudo e bajular os dirigentes. Não estou à procura de “tachos”. Se estivesse não estaria a trabalhar como agricultor, apesar de ser formado em Sociologia. Não estou a fazer lobby para ascender.

Acha que os membros do Mac # 114 vão sofrer represálias por causa dos protestos?

Ainda não estamos a sofrer represálias, mas começamos a ser assediados pelos partidos políticos. No entanto, continuaremos no terreno porque queremos ser um movimento que representa os jovens que lutam por uma democracia mais participativa.

Não se sente incomodado por o MAC #114 ser conotado com uma organização partidária?

Não dou nenhuma importância a isso. Pertencia ao jota e retiraram o meu nome da organização. Apesar disso, não acho mal nenhum liderar um movimento que defende os interesses do povo, afinal vivemos numa democracia.

E se o convidassem para entrar de novo no PAICV?

Não entraria se o partido continuasse nos moldes em que está actualmente. Isso só poderia acontecer caso o partido passasse a cultivar os ideários de Amílcar Cabral. Sou cabralista, socialista e também democrata. Estou a lutar por uma democracia mais participativa onde há uma distribuição equitativa dos recursos públicos, justiça social e igualdade de oportunidades.

Os outros líderes

Adilson Correia em Assomada, Santa Catarina: “Estamos cansados do desrespeito e da injustiça com o povo

Adilson Jesus Pereira Correia, 29 anos, professor de electricidade na Escola Técnica Grão-Duque Henri, foi quem assumiu as rédeas do Movimento de Acção Cívica (Mac# 114) na cidade de Assomada, Santa Catarina. Adilson, que já tinha experiência na liderança de grupos comunitários, académicos e religiosos, não hesitou na hora de liderar a manifestação MAC#114 naquela cidade do interior de Santiago. “Ainda estamos na fase inicial, mas pretendemos criar o núcleo de pessoas do Movimento de Acção Cívica (Mac# 114) nesta região. "Estamos cansados do desrespeito constante, do incumprimento e da injustiça para com o povo por parte dos políticos”, diz Adilson, que já fez parte de um grupo partidário. "Prefiro não falar sobre este assunto, pois quero agora centrar-me apenas nos objectivos do Mac# 114”

Vacilísio Gomes lidera em São Vicente: “Queremos actuar em todas as vertentes da sociedade

Vacilísio Fortes Gomes, de 28 anos, estudante de Ciência Política e Relações Internacionais, na Universidade do Mindelo, lidera o Mac # 114 na ilha de São Vicente, onde o movimento levou para as ruas cerca de mil pessoas insatisfeitas com o Estatuto de Titulares de Cargos Políticos. “Há três meses vi o Movimento a fazer um protesto no Memorial de Amílcar Cabral e, como sempre quis fazer algo semelhante para o meu país, ofereci-me para organizar a manifestação em São Vicente”. Gomes, que se estreia como líder cívico avisa: “Não vamos baixar os braços, queremos mobilizar mais pessoas para esta organização para continuarmos a actuar em todas as vertentes da sociedade cabo-verdiana”. Questionado sobre a sua filiação partidária, o jovem prefere não responder. "Não quero partidarizar a minha posição como membro do Mac# 114. A minha ligação ao movimento é na qualidade de cidadão e não como membro de algum partido”, justifica o jovem natural de Ribeira Grande, Santo Antão.

Jassy Sousa na ilha do Sal: “Sou amante de uma boa política e de uma boa democracia

Na ilha do Sal quem comanda o Mac # 114 é Jassy Sousa, licenciada em Relações Internacionais pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. “Sou uma pessoa que procura estar informada sobre política em Cabo Verde e no mundo. Reclamava das coisas com os amigos, mas agora senti necessidade de me manifestar porque não podemos simplesmente reclamar nos bares. Decidi aderir ao movimento por causa de várias coisas que me deixam insatisfeitas, por exemplo o aumento do IVA que está a estrangular a economia”, diz a salense que trabalha na área administrativa da empresa The Resort Group. Feita a estreia como activista, Jassy garante que vai continuar. “Estarei disponível para esclarecer as pessoas e fazer com que juntos defendamos os nossos direitos. É o início de várias manifestações que têm de ser feitas em Cabo Verde. Estamos unidos e atentos para exigir responsabilidades porque queremos deixar um país melhor para as gerações vindouras”. Partido? “Não tenho, sou apenas amante de uma boa política e de uma boa democracia”.

Carina David e Vanina Dias

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