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Prémio Carreira: O insuperável Zeca di Nha Reinalda 11 Mar�o 2013

O funaná impregna-lhe a pele, vem da alma, dá-lhe vida. Ele é a voz do funaná: é Zeca di Nha Reinalda, dono de um timbre vocal ímpar e único entre os intérpretes deste género que brotou do chão rural de Santiago. Com Zeca o funaná conquistou Cabo Verde e revelou ao mundo que, para além da melancólica morna e da alegre coladeira, a música de Cabo Verde tem a força telúrica da gaita e do ferro embalados num bom finaçon. Cantor e compositor, há 40 anos Zeca di nha Reinalda cunha o funaná com uma mística de Griot mandinga que se mistura na grande cachupada de sentimentos de uma nação feita de encontros e desencontros com o mundo. Primeiro no Opus 7, a seguir no Bulimundo, em dueto com o irmão Zézé, depois com o Finason e finalmente a solo, o músico tem colecionado discos e êxitos, apesar de ser o oposto da estrela pop. O Prémio Carreira que os Cabo Verde Music Awards lhe atribui é a coroação desta voz que sai do âmago para transportar com ela toda a liberdade que é a música na alma crioula. Curvemo-nos, pois, diante do senhor do Funaná.

Prémio Carreira: O insuperável  Zeca di Nha  Reinalda

Aos 56 anos, Zeca di Nha Reinalda, aniversariante no próximo dia 26, é senhor de um percurso de cantor e compositor que começou nos anos 1960, no mítico Bairro Craveiro Lopes, na cidade da Praia, onde nasceu e se estreou na música, inspirado pelo som do violão do pai, que lhe deu o nome Emanuel Maria Dias Fernandes.

Sempre fincado nos ritmos tradicionais de Santiago – funaná e finason principalmente –, no início da carreira Zeca fazia duetos com o irmão Zézé. Mais tarde os dois entraram para o grupo Opus 7. Mas o sucesso e a fama chegariam com o mítico Bulimundo – banda que Katchás fundou e para onde Zeca entrou em 1978.

Se é certo que os Bulimundo trouxeram uma nova roupagem e estilização ao funaná com a introdução de instrumentos electrónicos, há quem diga também que Zeca Nha Reinalda introduziu uma nova forma de cantar o funaná, com a sua voz rouca em tom de “choro”, escreve a organização dos CVMA sobre o “rei” do funaná.

Para a história ficam “Fomi 47”, “Febri di Funaná” e “Pé di Pedra”, composições de Codé Di Dona, o mestre “por quem nutria um imenso respeito e admiração e uma das suas maiores inspirações no funaná”. Outros êxitos como “Djan Brancu Dja”, “Bulimundo”, “Batuco” e “Mundo ca bu caba” estão nos quatro discos que Zeca di Nha Reinalda gravou e cantou com os Bulimundo nas ilhas, Europa e Estados Unidos.

No auge do sucesso da banda, em 1982, o músico abandonou os Bulimundo. Nunca porém Zeca di Nha Reinalda ia deixar calar a sua voz. Afinal, Cabo Verde já o tinha marcado para cantar. E quando Zeca canta, a Nação une-se e pára para o ouvir. Com o irmão Zezé gravou dois LPs - N’Ka por Sí e Combersu Tristi – antes de integrar outro conjunto, os Finason. Do casamento nasceram seis álbuns - “Horizonte”, “Rabesindadi”, “Doutorado”, “Farol”, “Simplicidadi” e “Quel qui ta da ta da” – e outros tantos hits.

A carreira a solo descola em 1994, com “Rapsódia de Funaná”. Seguiram-se “Na Urna”, “Vinti ano depos”, “Camponês”, “Dia a Dia”. Em 2007, após 20 anos de funaná, arrisca gravar um batuco e uma coladeira no disco “Na Caminho”, géneros que desvendam a versatilidade pouco conhecida de Zeca di Nha Reinalda. Ele que é também autor do célere “Si Manera”, que os Finason lançaram em 1990, e outros êxitos como “Pamodi” e “Proverbio”.

Ao vivo, depois de mais de quatro décadas de carreira, Zeca di Nha Reinalda ainda é rei, apesar de discreto. Não usa roupa vistosa, movimenta-se pouco ou quase nada em palco, mantendo um olhar aparentemente alheio ao que o rodeia. Mas “continua a arrastar e a encantar multidões nos bailes de conjunto ou nos palcos que pisa. E serve de inspiração a toda uma nova geração de jovens que encontram no funaná a sua forma de expressão”, afirma o mentor do prémio.

A cantar um funaná lento como “Tó Martins” ou rapicado como “Sant´Antoni la Belém”, Zeca di nha Reinalda continua até hoje com um domínio de voz inigualável – mantendo um vibrado impressionante mesmo quando atinge as notas mais agudas. Mas é sem dúvida o sentimento que imprime às músicas que faz dele um cantor ímpar.

Teresa Sofia Fortes

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