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A SEMANA : Primeiro di?rio caboverdiano em linha

Poema: Um menino que respondeu 20 Janeiro 2017

Então tiveram medo os meninos Cabral: E se em toda a terra não houvesse árvores Nem rápidos rios onde deslizassem as leves pirogas?
Mas quando enfim chegavam ao Planalto O medo fugiu com espanto e alegria. Tão diversa a paisagem Ora vestida de cinza solene Ora vermelha, castanha ou verde, Erma ou a espaços povoada Deserto saariano ou disciplinada verdura Uma terra mestiça, como outra não há.

Por: Maria de Lourdes Lima

Tens seis anos e deste-me o mote neste dia Era uma vez... Um menino chamado Amílcar. Nasceu na Guiné, em Bafatá, Terra que atraiu a mãe e o pai Para se escrever uma parte da nossa história. Viveu até aos sete anos na rica terra vermelha, Lá onde as ribeiras são rios Que correm para o mar todo o ano, Mais rápidos que as airosas.

Um menino que respondeu Brincava em roda dos grandes poilões Que faziam cair, como alvo algodão, A suave sumaúma Sobre a cabeça dos meninos.
Um dia disseram-lhe que a vida ia mudar, Ia morar para Cabo Verde Para as ilhas do mar largo.

(Continua amanhã)

Contente ficou, oh se ficou, ia conhecer A terra do pai e da mãe e dos outros antepassados. E não se calava.

Mas na hora em que os meninos, à beira-rio, Perguntaram ao Maika de novo Se na terra de Cabo Verde Se havia o Polon, ele ficou mudo.
E à noite, quando enfim o pai lhe falou, perguntou: Papá, Polon tem lá na Somada? Juvenal, sério, retorquiu: A Assomada é nas nossas ilhas A autêntica terra do poilão. Então, o menino enfim desafogado sorriu.

(Continua amanhã)

Um menino que respondeu (2) Tens seis anos e deste-me o mote neste dia O barco que trouxe a família Parou ao largo, em pleno oceano.
Os meninos olharam e viram Tal o dístico de Jorge Barbosa Os montes alerta Implorando ao céu!

Então tiveram medo os meninos Cabral: E se em toda a terra não houvesse árvores Nem rápidos rios onde deslizassem as leves pirogas?
Mas quando enfim chegavam ao Planalto O medo fugiu com espanto e alegria. Tão diversa a paisagem Ora vestida de cinza solene Ora vermelha, castanha ou verde, Erma ou a espaços povoada Deserto saariano ou disciplinada verdura Uma terra mestiça, como outra não há.

(Continua amanhã)

Um menino que respondeu (3) Tens seis anos e deste-me o mote neste dia Diversa era também a vida O homem e a mulher, por esta ordem, Lado a lado a riscarem a montanha dura Onde iam abrir covas de milho e feijão Na esperança de as ver gerar vida.

Comprida espera Por vezes lograda Por vezes cumprida.

Diversa e afinal igual era a sombra, Pairando na Guiné e em Cabo Verde, Do monstro escondido Que a todos lograva e ninguém via.
Um monstro chamado fascismo Que tinha a cara do colonialismo, Horrendos os dois maugrado a rima Com humanismo.

Pesados os dois, dizem-se indivisos sem cor Para enganarem com o seu ar, Mais o aroma e o sabor Três sentidos, igual a doce fruto de secreto veneno Servido ao povo inocente e confiante.
Um menino que respondeu (4)

Tens seis anos e deste-me o mote neste dia Ninguém via Mas todos sentiam Na hora em que alerta O monstro omnipresente Pedia o seu tributo Mandando os seus tristes escravos.

Também eles na vida carregando os seus cravos Lá iam colectar da terra O que esta dava ao povo Que a trabalhava E a fazia dar fruto.
E o povo humilde Regava a terra com o seu suor e sangue, Dava-lhe todo o seu tempo Dava tudo Para pouco receber.

Era, vê lá tu, a vida sua, magro capital A nutrir o gordo capital, lá longe.
Dar mil e receber um Abaixo do padrão, fora a matemática Mil quilos de mancarra só dá um de óleo? Mil de cacau só uma barra de chocolate?
Ficava calado o enganado? Houve quem gritasse A terra a quem a trabalha. Cada cabeça sua sentença? A vida tem de ser mais que um ditado A vida é sumara grã, Pensamento que a gente enforma e troca e faz de novo, de novo
Ver e nisso pensar e projectar Esta a sementeira que um dia florirá em fala A contar que dava mil e recebia um Ia contar e cantar a história De quem tinha sempre de dar muito muito para pouco receber E o canto devolvido ia.
O menino via e pensava Pão para a boca. São e livre o corpo e a mente. O menino começava a pensar pela própria cabeça, Pão para a boca. São e livre o corpo e a mente.

Pensava e projectava: o mesmo querer e poder toda a gente um dia. Pão para a boca. São e livre o corpo e a mente.

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