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Pepetela sugere o termo “cepelépes” para os falantes do português. 26 Maio 2013

No âmbito dos “Encontros com as literaturas Lusófonas”, Pepetela (Angola), Germano Almeida (Cabo Verde) e Luís Patraquim (Moçambique) foram os convidados da UCCLA presentes no Auditório da Associação Portuguesa de Livreiros, na Feira do Livro de Lisboa, na passada sexta feira, para uma "Conversa à volta dos desafios da Língua Portuguesa".

Pepetela sugere o termo “cepelépes” para os falantes do português.

Vítor Ramalho, o novo presidente da UCCLA, congratulou-se com o facto de poder contar neste seu primeiro acto público, com a presença de três vultos da literatura lusófona.

Pepetela, o primeiro a intervir, disse que “há um aspecto curioso sobre as nossas literaturas africanas: a utilização da língua portuguesa. Poder-se ia pensar na utilização de outras línguas. Cabo Verde está à espera até agora de escritores em crioulo”, disse o escritor angolano para logo acrescentar que “em Angola foi forçada a escolha do português, por uma clara influência urbana, pese embora o discurso oficial incentivar o desenvolvimento de línguas de origem africana, o que não tem acontecido na prática".

"O português é a tal porta para o mundo e um instrumento de facilitação da Nação angolana no desenvolvimento dos seus projectos, na construção de um novo país.”

Acerca do peso da língua como factor de ligação entre os países que falam português advertiu que “não deve ser exagerado, visto que existem outros factores por vezes tão importantes como a história, a geografia, a diferenciação, entre outros”.

Sobre a CPLP, Pepetela mostrou-se bastante crítico pela sua ineficácia na união dos países que a compõem, sugerindo que poderia ser designado como “uma associação ou um sindicato”.

Por sua vez, Germano de Almeida começou a sua intervenção dando importância ao facto de viver num país que tem uma língua, o crioulo, “mais propriamente a língua cabo-verdiana, como está na moda designá-la”, ironizou, acrescentando que “a vida decorre em crioulo em Cabo Verde, que não é um pais bilingue. Seria desejável que assim fosse, pois todos poderiam beneficiar desse bilinguismo”.

Sobre a influência que a língua portuguesa exerceu sobre a escrita de Germano Almeida, afirmou que, praticamente, só fala em português, primeiro porque os seus pais não falavam com os filhos noutra língua. Depois, tendo-se mudado para Praia, sofreu com a troça dos santiaguenses pelo seu crioulo da Boa-Vista. Daí ter optado, de vez, exprimir-se na língua de Camões.

Do facto de não escrever em crioulo confessou que não o domina de modo escrito e que poucas pessoas nas ilhas sabem ler a língua cabo-verdiana. Daí duvidar que as próximas gerações vindouras o crioulo venha a vingar-se enquanto veículo da literatura em Cabo Verde.

No fim, o escritor Germano Almeida deixa uma certeza: “ a oficialização do crioulo só nos afastará do mundo. Mas se há coisa oficial é o crioulo” concluiu o escritor da Ilha das Dunas.

Outra impossibilidade apontada por Germano Almeida é a tradução do crioulo para o português, aliás ele já fez essa tentativa, mas acabou por desistir frente à força genética das duas línguas, sobretudo no que se refere à morna.

De seguida, Carlos Patraquim começou por falar da situação geográfica do seu país - cercado por outros países com línguas diferentes. Quanto ao receio do desaparecimento da língua portuguesa foi certeiro: “essa coisa das línguas não vale a pena. As línguas não se decretam”.

Sobre a língua portuguesa disse que “é nacional, curricular, oficial e que nos dá possibilidade de nos reinventarmos como moçambicanos. É dentro dela que encontramos as ressonâncias e os ecos de outras línguas", assegura.

Carlos Patraquim falou ainda sobre a experiência de um escritor moçambicano que escreveu dois livros em chironga e que foi acusado de tribalismo. Por isso, considerou que “não existe acto mais erótico do que a criação de um bom neologismo". Para o escritor moçambicano, a lusofonia mais se assemelha “ a uma espécie de colonialismo endógeno” e “Palopes” com o “Ultramar”, muito ligados à ideia do império. Afinal é “ maior o universo mental do que o territorial e o território é onde se está e se vive.

Colocada por um dos presentes a questão do “Acordo Ortográfico”, os três escritores puseram-se de acordo para não dar muita importância ao assunto neste momento, afirmando que continuavam a escrever da forma como aprenderam a fazê-la.

A questão editorial foi respondida por Germano Almeida, dizendo que “não escreve para ganhar dinheiro” e que teve de criar, com uns amigos, a Ilhéu Editora, em 1980 para publicar “O Testamento do sr. Napumoceno”. E conta: "uma vez, indagado pelo fisco onde era o escritório da editora respondi que era no porta bagagens do carro da Filomena”- a esposa de Germano Almeida.

A última intervenção foi de Pepetela que de forma telegráfica disse: “Lusofonia não gosto, nem uso. A língua dos lusos não a conheço. Francofonia é um projecto neo-colonial. Experimentemos inventar outros termos como, por exemplo, “cepelépes”.

AC

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