OPINIÃO

A SEMANA : Primeiro di?rio caboverdiano em linha

Júlio César – Um contador «di parti sabi» de Ponta Gato -Tarrafal 08 Julho 2017

Júlio César Borges ”noz kontador di storia) de Tarrafal, não impera, mas ordena, não canta, mas, encanta a todos com a sua simpatia e a sua franqueza. Activo, descomplexado, sociável, afável, sempre aberto ao diálogo. Um septuagenário lúcido e inteligente com muitas histórias já vividas e com uma vasta experiência de vida com quem muito se pode aprender. Um contador de “estória” particularmente nas noites de “triznota” (vigília) em casa de algum amigo ou conhecido acamado e, um participante activo nas chamadas “rezas”.

Júlio César – Um contador «di parti sabi» de Ponta Gato -Tarrafal

Por: Nataniel Vicente Barbosa e Silva

Continuando nessa trajectória recordando nome de pessoas já quase apagadas pelo tempo cuja vida e o seu “modus vivendi” marcaram uma época. Muitos dos quais se destacam pela literatura, medicina, música, dança e outras artes e outros tantos apenas pela sua postura. Desta feita, vem à tona uma figura simples: Um nome pelo qual dispensa qualquer tipo de apresentação para quem vive no Tarrafal de Santiago: O “Djulay” Júlio de Margarida ou, simplesmente, Júlio de Txuka.

Significado do nome: Júlio, do latim Julius, que significa "aquele que é jovem" e César, possivelmente de caesaris, que quer dizer "cabeludo" ou "cheio de cabelo".
O nome Júlio César foi popularizado pelo imperador romano com esse nome e mantém-se bastante comum em várias línguas até hoje.

Nu ben konxi anton noz Júlio César Borges.

Mas, afinal, quem é Júlio César Borges? Júlio César ou “Júlio di Txuka” não é mais de que um homem simples, isto é, um homem do povo, ou se quiser, “un omi di partis sabi”. Nascido em Covão Sanches a 14 de Março de 1938. O 4º filho da Srª Margarida Borges num grupo de cinco. Três já falecidos, a mais velha ainda viva vive nos Estados Unidos de América.

Recorde-se que Júlio César (nome real de Gaius Julius Caesar) foi um famoso Imperador Romano que nasceu em 13 de Julho de 100 a. C. assassinado em 15 de Março de 44 a C. por Brutus (filho adoptivo ) após uma conspiração no Senado.

As preferências de Júlio César Borges

Dias de semana: Sábado

Mês: Março

Cor: Azul

Religião: Católica

Animal: Cabra

Desporto: Futebol

Equipa: Benfica

Estilo de música: Morna

Artista: Ildo Lobo

Passatempo: Jogo de cartas

Companhia: Mulher

Júlio César Borges ”noz kontador di storia) de Tarrafal, não impera, mas ordena, não canta, mas, encanta a todos com a sua simpatia e a sua franqueza. Activo, descomplexado, sociável, afável, sempre aberto ao diálogo. Um septuagenário lúcido e inteligente com muitas histórias já vividas e com uma vasta experiência de vida com quem muito se pode aprender. Um contador de “estória” particularmente nas noites de “triznota” (vigília) em casa de algum amigo ou conhecido acamado e, um participante activo nas chamadas “rezas”.
(“Reza ou ladainha” uma manifestação cultural santiaguense muito antiga ainda mantida por algumas pessoas mais conservadoras. Hoje, a reza, está cada vez mais confinada ao interior da ilha de Santiago, é reservada exclusivamente ao sétimo dia de luto, em certas condições e para personalidades muito especiais).

Júlio César Borges e a sua infância

Júlio César passou toda a sua infância e adolescência no lugar onde nasceu em convivência com as demais crianças do seu tempo. Muito cedo na vida (16 anos de idade) se entregou ao mundo do trabalho. A sua primeira experiência foi na loja de um tal “Nhonho di Ponta Belém” no centro da Vila. Para os mais novatos “Ponta Belém” situava-se no lugar onde se encontra hoje edificado a Igreja do Nazareno. Nhonho era um modesto comerciante natural de São Vicente que passou algum tempo cá no Tarrafal. Foi um grande dinamizador do futebol de Mangui na altura. Tanto mais pela sua grande paixão pelo futebol para manter o campo limpo pagava os garotos do seu bolso para esse trabalho. Como se sabe décadas atrás os campos do futebol existentes no país, inclusive até os da Capital eram todos de terra batida. Bons velhos tempos! Importa pois sublinhar que o antigo campo de futebol de Mangui situava-se onde se encontra hoje o Palácio da Justiça que na altura era uma parte desértica da Vila. Como as coisas mudam!

Júlio César e a sua breve passagem para a Capital

Na expectativa de uma vida melhor Júlio César ainda na fase de adolescência na casa dos seus 16 anos imbuído desde cedo de espírito lutador dá um pulo à Capital aí trabalha com o Zebedeu como ajudante do seu carro com um módico salário de 150$00 mensal que só dava para se desenrascar. Ciente do valor que representa a escola na vida de uma pessoa decide então agarrar ao livro e aprende a ler e escrever. Coincidência ou não Júlio disse a alguém: Si bu ten bu fidju se pa bu dal 4ª classe di Tarrafal mandal pa Praia e ba djuga boton.

O Júlio quis evidenciar com isto no seu estilo metafórico a diferença da vida citadina (Capital) e a do interior (Tarrafal). Creio que tal afirmação se outrora tinha naturalmente uma certa lógica na sua perspectiva, hoje já não, e, certamente o Júlio não terá presentemente nos dias que correm a mesma lógica de pensamento. Agora, uma coisa é certa: O meu amigo Júlio na sua percepção ao enaltecer a Capital do País esqueceu-se redondamente dos seus inúmeros pontos negativos e as suas consequências. Foi na Praia porém, que efectivamente o “contador de estória” abriu os olhos diga-se de passagem, ao decidir entrar no mundo de aprendizagem. Convém salientar que ironicamente Júlio veio concluir na idade adulta em 1969 a sua instrução primária cá no Tarrafal tendo como examinadores os senhores Cirilo António Oliveira, D.ª Fátima, esposa do ex-administrador do Concelho, António Figueiredo e um tal Kay da Praia. Este último leccionou algum tempo na Vila e posteriormente em Achada Longueira. Dois anos depois, ou seja, em 1971 tirou a sua carta de condução que o habilitou profissionalmente para a sua entrada na Função Pública que vamos falar mais a frente.

Regresso à casa

Júlio deixa a cidade da Praia e volta então à casa com a idade de 22 anos sempre com aquele espírito de entrega ao trabalho aventura-se desta feita para Assomada e ali trabalha na “Brigada Estrada” como ajudante de uma viatura do Estado. Algum tempo depois após o seu regresso de Assomada trabalha no ex-Campo de Concentração durante 8 anos como servente da central eléctrica, com um vencimento de 450$00 mensal.

Júlio César e a sua juventude

Júlio César passou toda a sua juventude em Cabo Verde, nunca se aventurou por terras distantes. Com sucessos e insucessos como qualquer jovem “curtia” de tudo um pouco na vida desde festas, danças, e outras actividades recreativas de então, mas, muito moderado nas bebidas. No seu percurso afirma que já passou pela música brincando um pouco na bateria. A música na verdade está na alma de um cabo-verdiano como futebol está no espírito de um brasileiro.

Júlio César e o seu enlace matrimonial

O casamento desde sempre foi normalmente aspiração de qualquer jovem. Assim, maduro já pai de 4 filhos (fora de casamento) e com uma certa experiência de vida decide então abraçar o compromisso matrimonial com quem mais amava. No entanto, “quem casa quer casa” como se costuma dizer, “Djulay” tinha já a sua habitação construída quando abraçou o matrimónio.

Assim, no dia 03 de Agosto de 1968, com a idade de 30 anos dá o nó na Igreja matriz de Santo Amaro Abade com a rapariga dos seus sonhos: Mercinda Lopes de Brito, 7 anos mais nova com quem veio a ter mais 6 filhos. Um casamento que graças a Deus, realça: foi, até hoje bem sucedido e perspectiva celebrar já no próximo ano se Deus assim o entender a sua boda de prata, como é da praxe. Avô de uma dezena de netos e alguns bisnetos. Como diz a velha máxima: Por detrás de um grande homem há sempre uma grande mulher. Sua esposa, uma mulher exemplar, recatada e bem disciplinada, de pouca fala e sempre agarrada aos serviços da casa.

Júlio César Borges e o seu ingresso na Função Publica

Em 1978, isto é, 10 anos após se ter casado ingressa nos serviços públicos como condutor do MDR no Tarrafal e aí permanece até a sua reforma em 17 de Março de 1995.

Hoje, vive em casa própria acompanhado da mulher. Os filhos todos maiores com a família constituída vivem nas suas respectivas casas.

Júlio César Borges hoje apesar da idade e alguns problemas com o seu estado de saúde, apresenta-se ainda como um homem rijo e bem orientado no tempo e no espaço e, sempre atento às evoluções sociais e políticas do seu país.

Termino com os meus sinceros agradecimentos ao meu amigo Djulay por ter gentilmente partilhado comigo um pouco o retrato da sua vida: sua história e as suas vivências. Votos de muita saúde e longos anos de vida.

Hasta la próxima.

Tarrafal, 07 de Julho de 2017

Os artigos mais recentes

100% Prático

publicidade






Mediateca
Cap-vert

Uhau

Uhau