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A SEMANA : Primeiro di?rio caboverdiano em linha

JMN: “Os partidos políticos não podem se transformar em meras máquinas eleitorais, sem ideário, sem referência, sem valores, sem princípios” 28 Agosto 2011

“Enquanto presidente do PAICV, voltaria a fazer tudo o que fiz, antes e depois destas presidenciais. Agiria da mesma forma. Só vou tomar alguns cuidados nas minhas intervenções para não introduzir frases que, quando colocadas fora do contexto, criem polémica e celeuma. Mas não me arrependo absolutamente de nada, tenho minha consciência tranquila e continuarei a ser o mesmo José Maria Neves de sempre”. Palavras do presidente do PAICV, num primeiro balanço ao sismo que abalou as estruturas do seu partido e que culminou no desaire eleitoral do seu candidato, Manuel Inocêncio Sousa. Nesta longa entrevista exclusiva ao jornal A Semana, o também primeiro-ministro diz ainda que fará “tudo o que estiver ao meu alcance para manter a estabilidade política no país”. Apesar de admitir que esse desiderato não depende só dele, vai “cumprir com os compromissos assumidos com os cabo-verdianos até ao final da legislatura” até porque acredita numa coabitação “normal” com o Presidente Jorge Carlos Fonseca. Para dentro do PAICV defende que devem ser discutidos e reflectidos “problemas” que aconteceram durante a campanha e, a haver congresso extraordinário, terá de ser ainda este ano, ou seja, “muito antes das eleições autárquicas”. JMN garante também que não se candidatará a cargo algum em 2016, nem de Presidente da República, nem de Primeiro-ministro e porque quer voltar à Universidade para fazer o doutoramento. Ao A Semana ainda confessa que não se queria candidatar a um terceiro mandato no governo, só o fez por causa das pressões existentes. E se fosse hoje, não cederia.

Entrevista: Filomena Silva e Isabel Marques Nogueira

Fotografias: Eneias Rodrigues

JMN: “Os partidos políticos não podem se transformar em meras máquinas eleitorais, sem ideário, sem referência, sem valores, sem princípios”

Cabo Verde fechou um ciclo eleitoral, no que tange a legislativas e presidenciais. Temos um novo Presidente da República (PR) e, pela primeira vez na história do país, temos um Presidente que não é da mesma corrente política do governo e da maioria parlamentar. Como prevê essa coabitação?
Acho que será uma coabitação normal. As instituições da República já são maduras, a democracia cabo‑verdiana é consolidada e considero que temos todas as condições para que todos os órgãos de soberania continuem a funcionar nos termos da Constituição, e de acordo com os princípios e valores que enformam o Estado de Direito Democrático.

Sabemos que já enviou uma mensagem a felicitar o novo Presidente mas, convenhamos, não era o Presidente pelo qual torcia.
Claro que apoiei um outro candidato à Presidência da República, que estava na área política que eu claramente propugno e defendo, mas o povo escolheu e, em democracia, temos de respeitar a escolha dos eleitores. O povo sempre escolhe certo e temos de respeitar as regras do jogo e as decisões da maioria. Neste caso, desde o dia 21 Jorge Carlos Fonseca é o PR de todos os cabo‑verdianos. No nosso sistema semi‑presidencial não há maioria presidencial, o PR ao ser eleito não constitui uma maioria para governar ou para se opor ao governo. O PR é de todos os cabo‑verdianos, é árbitro e moderador do sistema político. Tem os seus poderes constitucionais e o governo exerce os seus poderes com total autonomia porque, também, ao ser constituído é independente do PR. Mais do que isso, no nosso sistema constitucional, o governo não depende politicamente do PR ainda que haja uma relação de responsabilidade política, como diria Gomes Canotilho.

Defendeu durante a campanha com Manuel Inocêncio Sousa que era “vital dar continuidade ao desenvolvimento do país”. Isso não vai acontecer com Jorge Carlos Fonseca?
Vai continuar a acontecer porque o governo é que conduz a política interna e externa do país. O PR não governa e, portanto, nas próprias palavras do Presidente eleito, há toda a legitimidade e todas as condições para o governo continuar a exercer todos os seus poderes com total autonomia e nos termos do programa que foi sufragado pelo Parlamento.

Mas há pontos que demandam convergência. A nossa Constituição obriga também o governo a negociar em alguns aspectos com o PR. Estou a referir‑me nomeadamente à nomeação do Chefe do Estado‑Maior das Forças Armadas, também a política externa, no que toca à indigitação de embaixadores. Portanto, tem de haver um certo entendimento.
Em relação à política externa, quem a conduz é o governo mas é claro que tendo em conta o PR, o seu prestígio, o seu poder de representação do país, a sua magistratura de influência. O governo pode sempre pedir a cooperação do PR para determinadas acções no plano internacional, para apoiar o país na realização dos seus grandes objectivos de desenvolvimento. Há poderes que são partilhados, designadamente a nomeação de altos cargos civis e militares. Temos o chefe do Estado‑Maior, os embaixadores, o presidente do Tribunal de Contas e nesse caso tem de haver uma cooperação institucional entre o governo e o PR. Mas penso que temos maturidade suficiente para estabelecer esta cooperação entre os dois órgãos de soberania sem quaisquer problemas.

O governo está disponível para pedir esse apoio sempre que necessário?
Sempre que necessário, e o PR eleito também já se manifestou neste sentido. Quem conduz a política externa e interna é o governo mas ele está disponível, sempre que solicitado, a dar a sua colaboração. Até porque o PR eleito já foi ministro dos Negócios Estrangeiros de Cabo Verde e é uma personalidade do mundo académico e literário, portanto pode, com o seu conhecimento, dar também o seu apoio e contributo para a promoção da imagem de Cabo Verde e para o desenvolvimento global do país.

Nesta segunda‑feira, o PR propôs que dividissem as áreas de influência, nomeadamente na política externa.
Isso geralmente acontece com qualquer PR. Tem havido uma cooperação com os outros até porque já trabalhei com dois PR. Com Mascarenhas Monteiro, embora por pouco tempo, e com Pedro Pires. E as solicitações internacionais foram discutidas sempre com os dois. Com o Presidente Pedro Pires também trabalhamos naturalmente as questões externas. Portanto, não prevejo quaisquer problemas com o Presidente eleito. Já mandei uma mensagem a reafirmar a minha disponibilidade e a do governo em estabelecer com o Presidente eleito uma cooperação estratégica no quadro da lealdade institucional e dos valores que enformam o Estado de Direito Democrático. Ele já me respondeu da mesma forma, manifestando‑se totalmente disponível e aberto para colaborar com o governo. E hoje (terça‑feira) também manifestou na comunicação social essa disponibilidade de trabalhar com o governo legítimo e democrático de Cabo Verde.

Os dossiers urgentes já estão sobre a mesa? Volto a insistir, a nomeação do novo chefe do Estado‑Maior e também as de embaixadores de países com que mantemos relações externas intensas, estou a pensar em Portugal…
Alguns processos de embaixadores já estão em curso, porque o processo começa com o pedido de “agrément” (luz verde/aprovação). Outros não. Mas é uma questão que terei de discutir com o novo PR, após a sua tomada de posse.

Mesmo estando o processo em “agrément”?
Para os que já temos a “agrément” também terei de discutir com ele, porque ele terá de fazer a nomeação desses embaixadores.

TC e Provedor de Justiça

Uma das promessas feitas por Jorge Carlos Fonseca durante a campanha é a de trabalhar para a criação do Tribunal Constitucional e do Provedor de Justiça. De que forma tenciona discutir com o PR estes dossiers?
Isso não depende do PR, ele poderá, basicamente, exercer a sua influência para que o Parlamento decida nesta matéria. São dossiers importantes que estão a depender dos consensos no Parlamento, e espero que os deputados possam chegar a acordo o mais cedo possível para a constituição do Tribunal Constitucional e a designação do Provedor de Justiça.

Mas tenciona conversar com ele sobre estes dois casos em particular?
(Pausa) O PR, querendo, poderá exercer a sua magistratura de influência para que os deputados dos dois partidos possam chegar a um entendimento nesta matéria. Mas, como já disse, a questão depende essencialmente do Parlamento, neste momento. Já há negociações para se chegar a um entendimento, espero que no início do ano parlamentar se consiga consenso nesta matéria.

Já há proposta para o novo chefe do Estado‑Maior?
Não. Estamos a discutir. Em Setembro apresentaremos essa proposta ao PR. Já foi aceite o pedido de demissão do chefe do Estado‑Maior e, em Setembro, quando o Presidente tomar posse discutiremos com ele o perfil do novo chefe do Estado‑Maior e far‑lhe‑emos a proposta.

Há pouco, disse‑nos que alguns processos da “agrément” já estavam em andamento. Quais é que ainda não foram viabilizados?
São processos que merecem alguma discrição, porque dependem de decisões de outros governos e portanto não gostaria de me pronunciar especificamente sobre esta matéria.

Já que falamos em demissões. Também já foi aceite por Pedro Pires a saída de Felisberto Vieira do Governo.
O PR já aceitou a proposta que lhe fiz para exonerar, a seu pedido, o ministro do Desenvolvimento Social e da Família.

Como é que vai reformular o governo?
Não nomearei nenhuma outra pessoa para esta pasta. Vou propor uma mudança da lei orgânica do governo, e redistribuirei as funções actuais desse ministério por outros departamentos ministeriais.

Podemos, ou não, pensar numa remodelação governamental nos próximos tempos?
Não. Definitivamente não penso em qualquer remodelação governamental.

Há outra questão que ficou adiada por causa das eleições presidenciais, a mudança das chefias intermédias.
A mudança das chefias intermédias está em curso, e vai continuar. Dentro de pouco tempo haverá mudanças em quase todas as empresas do país e institutos sob tutela do Estado.

Antes do fim do ano?
Sim, antes do fim do ano.

Quando diz que não vai haver remodelação no governo é até às eleições autárquicas ou poderá acontecer depois?
A remodelação do governo pode acontecer a qualquer momento, é uma questão que não se anuncia. Mas, neste momento, não tenho nenhum dado, nenhum elemento que me permita falar em remodelação governamental.

Ao desfazer este ministério (Desenvolvimento Social e Família) é porque não tem ninguém para substituir Felisberto Vieira ou é porque, realmente, há ministérios a mais neste novo governo? Ou, como diziam, arranjou um ministério especial para Felisberto Vieira?
(Pausa) A mudança que decidi fazer agora é sempre na linha do enxugamento da estrutura governativa e é nesta linha que vamos continuar. Não só da macro estrutura como da estrutura da administração pública. Como o ministro pediu para sair, decidi não nomear um novo titular e redistribuir as competências por outros ministérios, dentro dessa estratégia de racionalização da macro estrutura do governo.

Vai racionalizar mais?
A nível da estrutura do governo não tenho nenhum dado para fazer uma remodelação do governo. O governo vai manter‑se. A nível das estruturas intermédias, aí sim, vamos continuar o processo de racionalização das estruturas.

Falou da nova orgânica, vai enxugá‑la um pouco mais também?
A orgânica já está enxuta e prevê o ministério de Desenvolvimento Social e Família. Portanto, vamos alterar e redistribuir as competências para outros departamentos governamentais. É só essa mudança que vamos fazer.

Já estão definidos os ministérios que vão acolher estas competências?
As propostas estão a ser trabalhadas e assim que estiverem concluídas divulgaremos os elementos essenciais dessas mudanças.

Eleições com fortes danos emocionais no PAICV

O PAICV ficou bastante dividido nestas eleições e a pergunta que se põe é: a família PAICV como é que fica?
Na prática, não devia haver quaisquer reflexos no partido porque as eleições presidenciais não são de base partidária, todos os candidatos são da cidadania, propostos pelos cidadãos. Os partidos políticos apoiam candidaturas presidenciais. Mas é claro que nestas eleições, tiveram reflexos profundos no seio do PAICV, com fortes danos emocionais e no relacionamento inter‑pessoal. De modo que teremos de reflectir sobre isso, dentro do partido, com serenidade e tranquilidade, para preservarmos a coesão e a unidade do PAICV que é o nosso maior património. Penso que há maturidade organizacional e individual para fazermos esta reflexão e tomarmos as melhores decisões, até porque temos eleições autárquicas no próximo ano e há que garantir condições para que o partido possa enfrentar com sucesso os próximos desafios eleitorais.

Estes resultados poderão ser um prenúncio das autárquicas?
Não necessariamente. O povo de Cabo Verde tem demonstrado uma grande maturidade nas escolhas que tem feito. Perdemos as autárquicas de 2004 e ganhámos com maioria absoluta as legislativas de 2006, o candidato por nós apoiado para a Presidência da República também ganhou as eleições. Em 2008, também perdemos as autárquicas – e aqui com a agravante de termos perdido as principais câmaras do país, designadamente a da capital – e, em 2011, ganhámos as legislativas com maioria absoluta. O povo sabe distinguir bem as eleições. Cada eleição tem os seus protagonistas e o povo escolhe de acordo com a avaliação que faz dos protagonistas, portanto, não podemos tirar qualquer conclusão destas eleições e extrapolá‑las para as próximas eleições autárquicas.

Reformularia, não para as autárquicas mas para dentro do PAICV, porque muitos dizem que a partir destas eleições dificilmente o PAICV volta a ser o mesmo, quanto mais não seja porque esse movimento da cidadania cresceu e há vozes que pedem um certo crescimento deste movimento para se transformar ou num movimento cívico autónomo ou, até, num partido político. O PAICV vai a congresso? Há Conselho Nacional nos próximos tempos? Como é que se vai dar este diálogo?
Temos de reunir os órgãos do partido. A Comissão Política e depois o Conselho Nacional, e este decidirá se deverá haver um Congresso extraordinário para se discutir estas matérias. Acho que estas eleições constituem um importante espaço de aprendizagem. Eu mesmo aprendi muito nestas eleições. Mostram vários fenómenos políticos em Cabo Verde. Mostram que os partidos ainda são extremamente frágeis e que os campos políticos não estão consolidados ou não têm contornos definidos. Que determinados valores e princípios neste momento contam muito pouco. E por isso – eu que sou um cidadão activo mas exerço a minha cidadania no quadro do partido político – acho que os partidos políticos devem fazer uma profunda reflexão para não se transformarem em meras máquinas eleitorais sem ideário, sem referências, sem valores, sem princípios. É esta reflexão que um partido que se diz de esquerda como o PAICV, uma esquerda moderna, plural, congregadora, deve fazer neste momento.

“PAICV é um movimento da cidadania”

Nestes últimos dias afirmou que “existe um espaço dentro do partido para a criação de novas tendências”, o que é que isto quer dizer?
Qualquer partido político tem um normativo organizacional, princípios e valores que constituem instrumentos de coesão de todos os seus membros. Tem‑se falado muito em cidadania, é como se os cidadãos que estão nos partidos políticos perdessem os seus direitos de cidadania. Não. Os partidos políticos são associações de cidadãos que decidem, livremente, exercer a sua cidadania de forma activa, aceitando o normativo organizacional, os princípios e valores. É por isso que dizemos que há partidos de direita, de esquerda, porque cada um tem a sua própria identidade, o seu ideário. Devemos valorizar os partidos políticos enquanto espaços de participação política dos cidadãos, escolas de cidadania e pilares importantes da democracia. Norberto Bobbio dizia que os partidos políticos têm um pé na sociedade civil e um pé no Estado. A nossa Constituição da República (CR) acolhe os partidos políticos em sede dos direitos, liberdades e garantias, de participação política e de exercício de cidadania; e em sede de organização do poder político, porque estes concorrem para a organização do poder político com base em eleições livres e democráticas. Dentro dos partidos políticos é preciso exercer a democracia, respeitar as regras do jogo e as decisões da maioria, mas cada um deve expressar livremente as suas opiniões e até criar tendências se for caso disso. O nosso estatuto abre a possibilidade de criação de tendências dentro do partido.

Espera que esse movimento de cidadania seja uma tendência dentro do PAICV?
Não, o PAICV é um movimento de cidadania.

Tem a lista Jota também.
É um movimento de cidadania. Desde que assumi a liderança do partido deixei de ter qualquer sensibilidade. Sou presidente do PAICV e sou presidente de todas as sensibilidades dentro do PAICV.

Para que tudo isso aconteça, os partidos têm de ser seres vivos, que respiram, têm espaço de participação para que todos possam se reencontrar num grande partido, com tendências é claro, mas que vão confluindo. Durante este processo, o senhor e o próprio Conselho Nacional foram acusados várias vezes de não ter deixado espaço às tendências, para que estas também se fizessem vincar dentro do próprio PAICV e na liderança do partido, para tomarem parte das grandes questões do PAICV que são também questões de Cabo Verde.
Desde que assumi a liderança do partido, houve uma profunda democratização interna. Primárias para a escolha dos candidatos a presidentes de câmaras, a descentralização do partido com a criação das regiões políticas. Mais do que isso, a eleição directa pelos militantes das lideranças regionais, as eleições directas para o presidente do partido. Foram feitas todas as eleições e, pela primeira vez, o presidente do partido foi eleito directamente pelos militantes. Houve disputas internas em várias regiões para a escolha das lideranças regionais, houve algumas primárias para a escolha dos presidentes das câmaras. Portanto, não há mais exercício de liberdade e de democracia do que o que está a acontecer, neste momento, dentro do PAICV.

CN e as primárias

Mas, dizem os seus críticos, a Comissão Política e o próprio Conselho Nacional (CN) muitas vezes não aconteciam com a antecedência devida, e muitos queixam‑se de não serem ouvidos. Outra questão, há quem não se reveja na lista que deu o CN, no congresso, porque que não encontraram espaço, não tiveram voz.
(Risos) Há muitos ruídos. O presidente do partido não é membro do CN, ele participa nas reuniões. Há um presidente do CN, há o debate no início das reuniões do Conselho Nacional, da agenda proposta. Cada conselheiro pode propor alterações na agenda, colocar as questões que quiser nas reuniões do CN ou da Comissão Política; nos congressos pode apresentar alternativas; nas eleições o presidente do partido pode também apresentar alternativa de liderança, de equipa, de programas e de estratégias. De modo que o PAICV tem todos os mecanismos e instrumentos de exercício da democracia à disposição de todos os dirigentes e de todos os militantes do partido e isto é exercido normalmente e naturalmente dentro do partido. Relativamente à escolha do candidato a PR, a escolha foi feita nos termos dos estatutos, de acordo com regras pré‑estabelecidas, aprovadas por unanimidade na Comissão Política e com o concurso dos três pré‑candidatos. A reunião do CN foi feita nos termos dos estatutos e dos regulamentos aprovados consensualmente; todos os candidatos tiveram oportunidade de apresentar as suas ideias e a escolha foi feita por escrutínio secreto. Ninguém sabe em quem os conselheiros votaram. Houve a escolha de Manuel Inocêncio Sousa numa segunda‑volta, porque numa primeira volta houve um equilíbrio entre dois candidatos. O presidente do partido engajou‑se na escolha e no apoio ao candidato escolhido pelo CN. Se fosse Hopffer Almada, engajar‑me‑ia da mesma forma. Se fosse Aristides Lima engajar‑me‑ia da mesma forma, com o mesmo entusiasmo, com a mesma motivação. Foi assim que eu fiz em relação a São Filipe, em 2008, quando houve problemas, o conselho de sector tomou a decisão de apoiar Eugénio Veiga, dei todo o meu apoio institucional e político ao candidato escolhido de acordo com os estatutos. Em Santa Catarina de Santiago, a mesma coisa. E os dados que tínhamos disponíveis, em termos de sondagem, na altura da escolha do CN, diziam o seguinte: Aristides Lima, Hopffer Almada ou Manuel Inocêncio Sousa ganhariam a Jorge Carlos Fonseca numas eleições a dois. Qualquer um dos candidatos. É claro que com a campanha eleitoral e a divisão que houve no seio do PAICV, os dados mudaram completamente.

Mas Aristides Lima estava à frente dos outros dois.
Em termos de sondagem estava à frente, mas qualquer um deles ganharia a Jorge Carlos Fonseca e é preciso respeitar as escolhas. Costumo dizer que, se fosse por sondagens, o PAICV não apoiaria Pedro Pires em 2001. Temos é de respeitar as escolhas, até porque os resultados da primeira‑volta também não corresponderam às sondagens feitas. Há a campanha eleitoral, há a dinâmica eleitoral e temos de considerar tudo isto.

Não teria feito sentido a realização de primárias, dentro do próprio PAICV?
Não faz sentido porque a candidatura presidencial não é de base partidária, é de base cidadã e os partidos políticos apoiam. O CN não decide escolher um candidato, o Conselho Nacional decide que candidato deve apoiar.

Mas, uma espécie de primárias entre os três candidatos existentes, mas a nível dos militantes, os cidadãos.
Pode‑se até vir a discutir isso e fazer mudanças nos estatutos. Acho que seria forçado, partidarizaria, aí sim, as eleições presidenciais. Mas se for essa a decisão da maioria dos membros do PAICV, estarei de acordo. Acho que as candidaturas presidenciais devem surgir da dinâmica da cidadania, os candidatos devem lançar‑se no terreno, e a partir daí…

Mas sabe que isso não acontece.
Mas fiz o apelo, antes ainda da reunião do CN, para despartidarizarmos as eleições presidenciais, porque não são de base partidária, resultam da dinâmica da cidadania e era isso que queria. Portanto, uma independência das candidaturas.

Então porque é que o PAICV entrou nas presidenciais?
Porque surgiram três pré‑candidatos a pedir apoio ao PAICV, e nós tínhamos de decidir esse apoio. Assim como no MpD: surgiram dois candidatos, pediram apoio ao MpD, que fez a reunião da sua Direcção Nacional e decidiu. Houve dois candidatos – Aristides Lima e Jorge Carlos Fonseca – que pediram apoio à UCID, a UCID reuniu os seus órgãos dirigentes e decidiu da mesma forma. Se formos analisar todos os estatutos dos partidos democráticos, são os órgãos nacionais que decidem a escolha dos candidatos. Desta vez só houve problema no seio do PAICV porque havia três candidaturas e a escolha era sempre muito difícil e não houve consenso em relação à escolha feita pelo CN.

Porque é que o presidente do partido entrou de forma tão directa e activa na campanha, uma vez que havia mais do que um candidato da ala do PAICV?
Não, candidato da ala do PAICV só havia um, o candidato apoiado pelo CN, ou seja Manuel Inocêncio Sousa. O próprio candidato Aristides Lima dizia que era candidato da cidadania, portanto eu estava a apoiar o…

Mas o AL nunca se desvinculou do PAICV.
(Pausa) Penso que é uma pergunta que deve fazer…

Mas o presidente do partido não sabe se Aristides Lima entregou o cartão de militante?
O cartão de militante é entregue na estrutura do partido.

Mas saberá se o entregou ou não.
Não fui informado disso, portanto é uma questão que terão de perguntar… Eu sei que o engenheiro Manuel Inocêncio Sousa se desvinculou de todas as estruturas do partido, do Dr. Aristides Lima não tenho essa informação, mas apresentou‑se como candidato da cidadania e não como um candidato apoiado pelo PAICV.
Convenhamos que o MpD geriu muito melhor essa disputa, porque o MpD também tinha dois candidatos a pedir o apoio, só que Amílcar Spencer Lopes perdeu na Direcção Nacional e depois só se ouviu uma ou outra coisa, do Victor Osório. E não se falou mais no assunto.
É que, a democracia tem a ver com as instituições, com as pessoas, com as regras do jogo. O MpD já fez o seu processo de cura das cisões que aconteceram na década de 90. Lembrem‑se que o próprio Jorge Carlos Fonseca é um dissidente do MpD. Em 2000 candidatou‑se sem apoio partidário, contra Carlos Veiga e poderá também ter contribuído para a não vitória de Carlos Veiga em 2001. Criaram um partido e lembrem‑se que houve trocas acesas, violentas, de acusações entre os diferentes protagonistas – que fundaram o PCD – e com termos que hoje até poderão ser impublicáveis. É a evolução da democracia em Cabo Verde. Mas as feridas sararam‑se. No caso do PAICV é a primeira vez, houve danos emocionais com impactos no relacionamento interpessoal. Da primeira para a segunda‑volta não foi possível curar essas feridas, sarar esses danos emocionais e agora temos de trabalhar para que isso venha a acontecer. Se falássemos, há 10 anos, num apoio do MpD à candidatura de Jorge Carlos Fonseca toda a gente diria que nós estaríamos a sonhar.

Agora, boa parte do eleitorado e dos militantes do PAICV está a temer a reedição da história, com outros actores. Quer dizer, o MpD já fez a sua cura, o PAICV está a retomar um capítulo que o MpD já deixou para trás?
Penso que temos é de ter muita serenidade, muita tranquilidade e muita responsabilidade neste momento. Para discutirmos internamente as questões. Ter a paciência política necessária para discutir as questões dentro do PAICV. A política não se faz com ressentimentos, temos de fazer a política de acordo com ideais, com valores e com princípios. Espero, tendo em conta até as nossas responsabilidades neste momento, enquanto partido maioritário, que haja bom senso, serenidade e inteligência para discutirmos todas as questões dentro do partido, garantirmos a unidade e a coesão, e assumirmos todas as nossas responsabilidades políticas que são enormes neste momento.

Aristides Lima e os históricos

Já falou com Aristides Lima?
Não. Falei com todos os dirigentes do partido que estiveram com ele, logo após a realização da primeira‑volta e foi, precisamente, esta conversa que tive com todos. Na primeira oportunidade que tiver, falarei com o Dr. Aristides Lima.

Ainda não tentou ou ainda não conseguiu?
Não era fundamental a conversa com o Dr. Aristides Lima. Ele fez as suas declarações públicas, disse que não é dono do voto das pessoas e que não daria indicação de voto. Não achei imprescindível falar com ele no momento.

Reserva algum posto ou proposta para Aristides Lima?
Não, eu não distribuo cargos. Acho que todos nós somos protagonistas e úteis dentro do partido e este não é o meu timbre. Ele tem capacidades, tem competências, pode exercer muitos cargos, querendo, dentro do país. Mas eu não prometo nem ofereço cargos a ninguém para condicionar a atitude e o comportamento de ninguém, apesar de tudo o que se disse. Vejam que estiveram com Aristides Lima, ministros, directores‑gerais, presidentes de conselhos de administração de empresas públicas e de empresas participadas do Estado, administradores de empresas, etc, contrariamente ao que se disse sobre pressão e tachos para as pessoas apoiarem a candidatura de Manuel Inocêncio. É só ver como é que as coisas aconteceram.

Aristides Lima poderá ser o novo Provedor de Justiça?
Não entro neste tipo de discussão.

Mas não é um nome que está a ser discutido?
Aristides Lima tem capacidade para fazer muitas coisas. Vai depender da escolha dele, do que ele quiser fazer, das discussões que tivermos dentro do partido. Já vos disse que não distribuo cargos, não discuto estas questões.

Mas esse recalcamento, como um vulcão que expeliu agora, vem de trás. Falou‑se num certo ajuste de contas entre os históricos e a nova geração do PAICV, nomeadamente a nova geração encarnada em José Maria Neves, a famosa lista J. Como que um pequeno acerto de contas, um pouco retardado, entre a lista J e a lista P. Quer comentar?
Não acredito nisso. O PAICV é de todas as gerações. Durante o tempo em que Pedro Pires foi PR, tivemos excelentes relações de trabalho e eu avalio pelo nosso relacionamento, pelas conversas que tivemos, e não posso fazer nenhuma avaliação, nenhuma análise, a partir do que as pessoas dizem. Só tomo decisões e analiso as questões a partir dos dados concretos que tenho em mãos. E do meu relacionamento com o Presidente Pedro Pires, não resultam elementos que me permitam fazer essas análises ou tirar essas conclusões.

E com Tolentino, Olívio Pires, Júlio Carvalho, cito de cor, que estiveram todos do lado de Aristides Lima?
Tenho boas relações com todos eles e respeito a posição deles.

Mas não será isso que se passou? Uma reedição do primeiro confronto entre históricos e a nova geração? Não estaremos perante um conflito geracional no seio do PAICV?
Não. No congresso de 2000 tive o apoio de Olívio Pires, por exemplo.

Mas falo de agora, 2011.
Sim, estou a mostrar‑lhe que em 2000, por exemplo, tive o apoio de Olívio Pires e de vários combatentes da Liberdade da Pátria. E todas as principais questões que me foram colocadas em relação a esses heróis da independência também já as resolvi. Vejam que resolvi o problema da aposentação dos combatentes, que tinham as suas pensões completamente congeladas e descongelei‑as; resolvi os problemas da polícia, dezenas de oficiais e agentes da polícia que estavam numa situação precária, reintegrei alguns que tinham saído; também fiz a lei da reconciliação que permitiu a reentrada na Função Pública dos ex‑quadros privativos do PAICV que tinham sido, por razões políticas, expulsos da Administração Pública. Criei as condições para que a Fundação Amílcar Cabral tivesse uma sede própria com toda a dignidade e temos participado nos principais actos que promove, como o Simpósio Amílcar Cabral e agora, a comemoração dos 50 anos da Fuga e noutros que os combatentes têm organizado. Tenho as melhores relações, e as avalio pelo que as pessoas me dizem, pelas nossas conversas.

Não pode negar que quase todos os históricos estiveram do lado de Aristides Lima.
Sabe que nem sequer fiz a identificação de quem esteve de um lado e do outro. As pessoas são livres e apoiam a candidatura que acharem que devem apoiar.

Presidenciais: “Não sou o principal derrotado”

Mas o senhor foi crucificado, e de que maneira, porque disseram que levou Inocêncio ao colo. Aliás, há quem o aponte como o principal derrotado desta campanha.
Faz parte das análises e nós que estamos na vida política temos de nos sujeitar a isso. Respeito todas as outras análises, todas as opiniões, umas são infundamentadas, são injustas, mas não há nada que possa fazer. Não sou o principal derrotado porque não fui candidato a nada nestas eleições. Desempenhei o meu papel de apoiar o candidato apoiado pelo meu partido, como fiz em 2001 e em 2006. Também em 2001 e em 2006, o Dr. Carlos Veiga acusou‑me de estar a interferir na campanha eleitoral de Pedro Pires. Fi‑lo enquanto presidente do PAICV.

Acha que, neste momento, o próprio CN não tem de procurar aliados ou alguém que faça a reconciliação, porque o próprio CN não está em condições de protagonizar essa reconciliação?
Penso que os órgãos do partido são integrados por pessoas idóneas, maduras, a maioria do CN e das estruturas do partido fundiram‑se em torno da candidatura de Manuel Inocêncio Sousa.

Maioria parlamentar, Filú e estabilidade

E como é que vai ser esta convivência no Parlamento com os deputados que deram a cara por Aristides Lima? A maioria do PAICV estará em causa?
(Pausa) Deram a cara por uma candidatura presidencial, mas foram eleitos com base numa plataforma eleitoral, ainda que o mandato seja do deputado eleito. Todos foram eleitos num determinado quadro e espero que haja responsabilidade e maturidade para não se criar instabilidade, porque, neste momento, compete ao Primeiro‑ministro e líder da maioria e, sobretudo, ao grupo parlamentar garantir a estabilidade governativa no país. Estamos numa situação extremamente complexa a nível internacional, a crise é aguda, ainda nem sequer temos todos os contornos desta crise, nem uma ideia clara de todas as consequências dessa crise na Europa, nos EUA, tal como a situação na Líbia e no Médio Oriente, e os impactos desta crise em Cabo Verde. Desde Fevereiro há uma forte agudização da crise internacional e temos especiais responsabilidades, os desafios são enormes. E se não houver muita serenidade, muita inteligência e muita responsabilidade, podemos estar a agir contra os interesses do país. Portanto, é fundamental, neste momento, e eu vou trabalhar arduamente neste sentido, garantirmos a estabilidade do governo e enfrentarmos com sucesso os desafios que se colocam ao país e que são essencialmente do governo. Vou dizer‑vos uma coisa: a decisão mais difícil que tomei nos últimos anos foi candidatar‑me a um terceiro mandato, não queria. O meu desejo era sair e ir para a Universidade fazer o meu doutoramento. Aceitei as pressões que me foram feitas, e se fosse hoje não aceitaria.

Pressões por parte de quem?
Fundamentalmente dentro do PAICV para me recandidatar a um terceiro mandato. Vi que muitas das pressões eram estratégias de poder, mas já que aceitei candidatar‑me a um terceiro mandato, tendo sido reeleito com maioria absoluta, e tendo assumido compromissos fortes perante os cabo‑verdianos, compete‑me agora fazer tudo para cumpri‑los. E é por isso que vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para garantir a estabilidade do governo e enfrentar com sucesso os principais desafios que se colocam a Cabo Verde neste momento. E todos nós, enquanto deputados, nos nossos círculos eleitorais também assumimos compromissos, fizemos campanha eleitoral, para que esta vitória de 6 de Fevereiro fosse uma vitória de todos, do PAICV, dos cabo‑verdianos. Temos responsabilidades enormes que espero sejam assumidas por todos.

Felisberto Vieira vai regressar ao Parlamento, Aristides Lima também e outros deputados dessa ala, ou tendência como a queria chamar já estão lá. Fala‑se numa nova liderança no grupo parlamentar do PAICV. Sabe disso?
(Risos) Essas questões terão de ser discutidas no seio do grupo parlamentar. São questões que terão de ser analisadas e discutidas. Não estamos num partido onde impera o caos, e os dirigentes do PAICV também não fazem política conspirativa. A questão essencial é…

Poderão querer assegurar um melhor controlo interno antes de ir a um confronto nacional?
Dificilmente haverá um governo que debata tanto com o seu grupo parlamentar como este. Todas as decisões, todas as principais questões são discutidas entre o governo e os deputados, e há uma presença permanente dos ministros no grupo parlamentar e no parlamento.

Está a encarar Felisberto Vieira como próximo presidente do grupo parlamentar?
(Pausa) Não quero discutir nomes nem pessoas, isso caberá ao grupo parlamentar. O grupo tem autonomia, nem sequer nos nossos estatutos é órgão partidário, tem de discutir e construir os seus consensos internos. Não devemos antecipar as questões nem fulanizar a partir de agora o debate político dentro do PAICV. Espero que todo o debate político venha a ser feito em torno de ideias e não em torno de pessoas.

Autárquicas e Congresso extraordinário

Tem vários desafios pela frente, como as autárquicas, que serão mais um teste ao PAICV. Já estão a surgir sinais de vários cantos como Fogo, Santo Antão, São Vicente, de vários candidatos que já estão posicionados na grelha da partida, também disputando o apoio e a lista do PAICV. Com esta lição das presidenciais como é que vão ser as autárquicas? Vai haver primárias?
Foi o que disse há pouco. Nenhum partido político deve funcionar adequadamente se se transformar meramente numa máquina eleitoral. O PAICV deve parar para reflectir em termos dos seus princípios, dos seus valores, e os militantes devem agir em consequência. Há necessidade de uma reflexão profunda no seio do PAICV para que a disputa pelo poder não descaracterize completamente o partido e mercantilizemos a política.Por isso acho que temos de fazer uma reflexão profunda antes das autárquicas.

Será para quando essa discussão?
Haverá Comissão Política, depois o CN e eventualmente um congresso extraordinário para discutirmos estas questões. Porque nós precisamos do poder para quê? Para realizarmos as nossas ambições pessoais? Ou para transformarmos os nossos ideais, os nossos princípios, os nossos valores, em recursos materiais e institucionais, ou em recursos legais que possam conformar a vontade política nacional? É fundamental reflectirmos sobre isto e não transformarmos o partido num espaço de disputa do poder pelo poder, sem quaisquer outras referências ou ideais.

Mas quem está nessa disputa do poder, dentro do partido?
Em qualquer partido político há sempre disputa pelo poder. Quando se concorre para a liderança do partido, quando se concorre para cargos como deputados, quando se concorre para câmaras, etc. Mas as disputas devem ser feitas num quadro definido, com regras do jogo claras e com o respeito escrupuloso pelas decisões da maioria, porque se não for assim haverá uma completa descaracterização. Imaginem o que acontece se amanhã o partido decidir que candidato apoiar, por decisão da maioria e nos termos dos estatutos, à presidente da Câmara de São Vicente, e um outro militante disser, não, eu não aceito esta decisão e vou candidatar‑me como independente e subverter o partido para apoiar a candidatura? Perdemos completamente as referências, o partido transforma‑se num caos organizacional. Há que haver regras e respeito pelas regras do jogo que são consensualmente definidas e também respeito pelas decisões da maioria. São princípios norteadores de qualquer organização política e temos de reflectir sobre isto dentro do PAICV, senão não teremos hipóteses enquanto partido político. Foi isto que levou às cisões no seio do MpD, o próprio Carlos Veiga disse depois que não era necessário que estivessem de acordo em relação a 100 por cento das questões. E sobretudo, em qualquer partido político é preciso aceitar a diferença e a pluralidade de opiniões mas é preciso haver tolerância e respeito pelas regras do jogo. Se estes ingredientes estiverem reunidos nós podemos fazer as disputas no seio do PAICV, respeitamos as decisões que são tomadas e conseguimos depois ter sucesso nas próximas eleições. Apoiei um candidato a PR e acho que seria o melhor PR. Esta é a minha opinião, mas a maioria do povo escolheu Jorge Carlos Fonseca e eu, humildemente, tenho de aceitar a escolha da maioria dos cabo‑verdianos. Desde o dia 21, Jorge Carlos Fonseca é também meu Presidente. Eu não posso dizer que é uma má escolha ou não serve, porque o meu candidato era melhor e o povo escolheu mal e a partir de agora não aceito este PR. Não. A democracia exige de mim muita tolerância, o respeito pela diferença, pelas regras do jogo e o respeito pelas decisões da maioria.

Era isso que deveria ter acontecido no CN?
Esta é a minha opinião. Mas Aristides Lima tinha toda a legitimidade para se candidatar a PR, sem o apoio do PAICV. Tinha até a legitimidade de não ir ao CN e de lançar a sua candidatura, independentemente da decisão do CN, e respeito…

Jorge Carlos Fonseca fez isso.
Jorge Carlos Fonseca fez isso. E, em São Tomé houve quatro candidatos da área do MLSTP (Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe), só um foi escolhido pelo CN, os outros não foram ao CN, decidiram autonomamente lançar a candidatura deles. Foi muito positivo porque não criou problemas dentro do MLSTP. O MLSTP tinha um candidato, escolheu um candidato, os outros viram que o CN ia escolher esse candidato, resolveram não ir ao CN e candidatar‑se autonomamente, fora do quadro partidário, mas todos da área do MLSTP. Ganhou Manuel Pinto da Costa e, na segunda‑volta os outros três, também da área do MLSTP apoiaram a candidatura de Manuel Pinto da Costa, e este ganhou as eleições.

E isso falhou nestas eleições presidenciais em Cabo Verde?
Não posso dizer redondamente. O que posso dizer é que, na primeira‑volta houve excessos de ambos os lados e esses excessos provocaram danos emocionais fortes que não foram curados até à realização da segunda‑volta. Primeiro houve um desgaste enorme do CN, falou‑se em manipulação, compra de votos; os apoiantes de Inocêncio foram chamados de tachistas, de carneiros, de manipuláveis; eu mesmo fui chamado de manipulador, de ditador, fui comparado num comunicado da candidatura de Aristides Lima a Wade, fui chamado de estratego malandro, mentiroso, etc, etc. Acho que do lado dos apoiantes de Manuel Inocêncio Sousa também houve excessos e não foi possível curar os danos causados por tais excessos antes da realização da segunda‑volta. Não avalio nem julgo – nem é esse o meu papel – a atitude e o comportamento de cada um, acho que cada um é livre para agir conforme entender.

Essa reflexão interna do PAICV vai ser feita ainda este ano?
Sim, penso que sim, ainda este ano.

Em que datas?
Não posso adiantar datas.

Comissão Política ainda este mês?
Sim, sim, eventualmente na próxima semana haverá reunião da Comissão Política.

E o Conselho Nacional?
A Comissão Política vai tomar as decisões em relação ao CN e o CN discutirá, eventualmente, um congresso extraordinário.

Que seria em…
Se o CN entender convocar um congresso extraordinário, terá de ser muito antes das autárquicas, para se poder criar um novo clima, uma nova dinâmica para essas eleições.

Cabral e roedores

Até porque há muita roupa suja para lavar e o melhor é lavá‑la o mais cedo possível. Há uma afirmação sua que fez muitas mossa, a que relacionou a morte de Cabral com as intrigas dentro do PAIGC. Alguns sentiram‑se directamente visados, outros, por analogia, não gostaram de ser comparados aos traidores que terão matado Amílcar Cabral. Sem sombra de dúvidas a frase mais sonante desta campanha eleitoral, por envolver quem envolveu: Amílcar Cabral.
Pode ficar estupefacta, eu nunca, em nenhum momento, chamei os apoiantes de Aristides Lima de ratos. Em nenhum momento, não há nenhum registo em relação a esta matéria, do que eu disse na reunião do CN, à porta fechada. O que eu disse na reunião foi o seguinte: Aristides Lima decidiu candidatar‑se, temos de respeitar a decisão do Dr. Aristides Lima, respeitar os seus apoiantes. E chamei a atenção para a necessidade de não haver qualquer processo disciplinar ou qualquer outra acção administrativa em relação aos dirigentes e militantes que decidissem apoiar Aristides Lima, inclusive dei o exemplo de 2001, quando muitos dirigentes do PAICV tinham apoiado Hopffer Almada e havia pressão para que os expulsasse do partido. E eu, sempre fiz pedagogia no sentido de não agirmos nesse sentido, defendi que devia haver o maior respeito, tínhamos de ser tolerantes em relação a esta matéria porque, volto a repetir, as eleições presidenciais não são de base partidária. E disse mais nessa reunião do CN, que as questões do partido deviam ser discutidas dentro do partido e não fora dele. As pessoas não deviam calar‑se dentro das estruturas do partido para ir “roer” fora das estruturas do partido.

Disse roedor.
E isso num contexto em que não estava a falar directamente dos apoiantes de Aristides Lima. Sublinhei que as questões dentro do partido deviam ser discutidas internamente, onde há espaço para qualquer tipo de debate. E que não nos devíamos calar lá dentro e roer fora do quadro partidário. E pronto, saiu toda a gente a dizer que chamei de ratos os apoiantes de Aristides Lima e, claro, naquele momento irracional, emocionalmente muito forte, era impossível desfazer esta questão até porque fazia bem à candidatura de Aristides Lima a vitimização. Aliás, achei até de mau gosto a camiseta a dizer: “sou rato, voto Aristides Lima”. Mas pronto, cada um tem as suas estratégias e faz a política como sabe e como pode. Relativamente aos intriguistas, porque, a mim, as únicas duas únicas palavras que me atribuíram são: ratos e intriguistas – não disse mais nenhuma outra palavra – eu tenho feito esta analogia, desde 2001, dentro das estruturas do partido, porque sempre me bati contra intrigas e sempre disse: “dentro do partido, temos de combater intrigas, temos de lutar contra o “diz que diz”, porque pode ser muito pernicioso para o partido. Sempre conto uma entrevista de Tancredo Neves em que dizia que sempre que as pessoas chegavam perto dele e lhe diziam: Tancredo vou dizer‑te uma coisa para não contares a ninguém, ele imediatamente respondia, então não me diga. E também digo às pessoas, as intrigas sempre trazem maus resultados, vejam como é que Lumumba foi assassinado, como é que Sankara foi assassinado, vejam como é que Amílcar Cabral foi assassinado. Por causa de intrigas dentro do partido. E, são pessoas responsáveis, ou ex‑responsáveis pelo PAIGC, perto de Amílcar Cabral, o assassinaram por causa de intrigas. E foi isso que quis dizer: que as pessoas estavam a fazer intrigas, a dizer que eu tinha pressionado o CN para votar em Manuel Inocêncio Sousa, que tinha feito telefonemas, que tinha prometido cargos no governo, etc, etc, coisas que não aconteceram. Respeito a dignidade das pessoas, não ofereci nenhum cargo a Aristides Lima nem a ninguém em troca de apoio a este ou aquele candidato. Não há ninguém dentro do PAICV, ninguém que possa dizer isso, nenhum membro do governo. Não perguntei a nenhum membro do governo quem apoiava. Quando convidei a pessoa, chamei‑a com a convicção de que era a pessoa indicada para ser titular desta pasta, não perguntei quem apoiava, quem deixava de apoiar e nem condicionei a entrada no governo a qualquer tipo de apoio. Não chamei dirigentes do PAICV, não falei com eles, e não há ninguém que possa dizer que foi pressionado para votar neste ou naquele candidato, não é meu timbre. Eu até sou acusado, por muitos, e por muito boa gente, de ser tolerante demais. Em várias eleições, pessoas estiveram a criticar‑me, deram entrevistas a dizer que não agi em relação a determinadas pessoas que eram claramente do MpD, como enfermeiros e outros agentes da administração pública. E pressionavam para eu os transferir. Eu disse não, não posso mexer com a vida das pessoas por causa da política. As pessoas diziam: Carlos Veiga quando vinha aqui não aceitava tais coisas. E eu respondia: a coisa mais difícil é ser‑se diferente, porque imitar todos podemos. Portanto, indignei‑me em relação às intrigas que estavam a ser feitas e foi em relação a isso que chamei a atenção. Mas pronto, surgiram, e penitencio‑me, por causa disso. Talvez não fosse o lugar mais adequado…

Sabia o contexto político que se vivia…
Porque o MpD fez a festa.

Claro, dentro do contexto político que se vivia. Mas quem ouviu todo o meu discurso sabe o que eu quis dizer… Vieram dizer que eu estava a acusar dirigentes cabo‑verdianos e não tinha absolutamente nada a ver.

E aproveitaram essa ponte dos históricos, inclusive o MpD, para colar as suspeições.
Sim, para dizer que chamei os apoiantes de Aristides Lima de assassinos, etc. Não tem absolutamente nada a ver.

Porque os combatentes estavam do outro lado.
Não, eu falava de intrigas, dei o exemplo das consequências que as intrigas podem acarretar. Mas eu penitencio‑me porque naquele contexto as pessoas usaram e fizeram a festa tirando a frase do seu contexto.

Nas campanhas eleitorais é o vale‑tudo?
Nesta campanha percebi muito mais determinadas coisas, vamos aprendendo. Aprendi muita coisa nesta campanha eleitoral e eu acho que na campanha eleitoral não vale tudo. Ponho as minhas mãos no fogo pelo PAICV, pelo partido que dirijo desde 2001, e por isso acho que se deve fazer uma investigação, a mais profunda possível, sobre a compra de votos em Cabo Verde. Isso, para credibilizarmos o processo eleitoral cabo‑verdiano, para não dividirmos a sociedade cabo‑verdiana entre o eixo do bem e o eixo do mal, entre o lado podre e o lado bom, porque todos os partidos políticos são pessoas de bem. Os partidos políticos, sobretudo o PAICV e o MpD, são partidos com vocação de poder e merecem o respeito de todos os cabo‑verdianos porque concorrem para a organização do poder político com base nas eleições. E devem ser pessoas de bem e instituições respeitadas.

Caso Jerson e a bomba que não explodiu

Responsabilidade, porque há quem tenha comprometido a imagem do país levando suspeições aos observadores externos. Há muita irresponsabilidade dos actores políticos, sobretudo os que estão à frente.
Tem a ver com os actores políticos, com a comunicação social, vejam o linchamento que se fez em relação ao Dr. Jerson Semedo.

Vão agir contra a Forcv?
A forma como a notícia foi construída, independentemente da pessoa, do que ela possa ter feito no passado, houve um autêntico linchamento da pessoa para provocar efeitos eleitorais.

Vai discutir este problema de compra de votos e de consciências com o novo Presidente da República?
Compete às instâncias próprias, os tribunais tratar dessa questão. Acho que até temos de mudar a Lei Eleitoral no sentido de termos observadores independentes nacionais para observarem a atitude dos actores políticos após o encerramento da campanha eleitoral, no dia da reflexão. Acho fundamental que os cabo‑verdianos tenham a possibilidade de acompanhar, de observar os actores políticos.

A própria comunicação social tem de ser chamada. Nós fazemos o mea culpa, porque nós também volta e meia voltamos às suspeições, parece que isso nos diverte. Preferimos alimentar as especulações em vez de dissecá‑las.
Eu vejo notícias que são fabricadas no ForCV de manhã, ou à noite, depois são retomadas logo de manhã pelo Liberal, imediatamente saem na manchete da rádio nacional e transforma‑se uma questão totalmente fabricada numa grande notícia nacional.
Senhor Primeiro‑ministro, não acha que é preciso um debate nacional sobre a transparência do processo eleitoral em Cabo Verde?
Acho que sim.

PM e ex‑ministros

Para terminar, o que acha de boa parte dos seus ex‑ministros estarem quase todos com Aristides Lima? Não é normal, em tão pouco tempo colaboradores próximos transformarem‑se em “quase inimigos”. Que leitura faz?
As minhas fracas capacidades não me permitem ler essas atitudes e esses comportamentos. Deve perguntar a essas pessoas o porquê. Não comento, não julgo a atitude das pessoas.

E como estão agora as suas relações com Felisberto Vieira, Júlio Correia e Sidónio Monteiro, todos dirigentes nacionais do PAICV?
Já falei com todos eles, menos com Júlio Correia, porque não se encontrava na Praia, estava no Fogo. Já falei e discuti com eles sem nenhum problema.

“Não alimentei qualquer ambição presidencial em 2011”

Até há bem pouco tempo, antes das eleições presidenciais, era o dirigente político mais cotado em Cabo Verde. Caiu a sua popularidade?
Acho que não. Pelo menos não é o que sinto no terreno, junto dos cabo‑verdianos de norte a sul do país.

Falou‑nos há pouco que não queria concorrer ao terceiro mandato. E agora quando olha para Jorge Carlos Fonseca, e olha para si – o presidente do PAICV que, alem de carregar a derrota do seu candidato tem um problema de quase cisão no seio do seu partido por resolver – não lhe ocorre pensar que poderia ser esse PR?
Não, não, não. Não tinha ambição presidencial. Eu nunca pus a hipótese de me candidatar. Em 2011, se não me candidatasse a Primeiro‑ministro não iria candidatar‑me a PR. Já vos disse que a minha ideia era ir para a Universidade. Não tive e não alimentei qualquer ambição presidencial em 2011.

E em 2016?
Na entrevista que dei disse claramente que nem em 2011, nem em 2016.

E em 2021?
(Risos) Até lá muita coisa poderá acontecer. Não sei como estará o país, como é que as coisas vão acontecer, o que estarei a fazer nessa altura. A única coisa que vos posso dizer é que vou fazer tudo para terminar o meu mandato na estabilidade e que vou cumprir todos os compromissos que assumi com os cabo‑verdianos.

Até ao fim da legislatura?
Até ao fim da legislatura.

Não vai haver desistência na demissão do Governo?
Não, vou até ao fim. Mas em 2016 não serei candidato a Primeiro‑ministro, não serei candidato a PR e estarei a regressar à sociedade como cidadão, continuando como militante de base do PAICV. Irei para as bases, irei trabalhar nas bases do PAICV.

Tem a certeza? Fecha o governo em 2016 e vai preparar‑se para ser PR.
Mantenho‑me militante de base e a trabalhar com serenidade e tranquilidade dentro do partido.

Uma coisa que a sociedade quer ouvir de si: não vai haver instabilidade? Confiaram‑lhe o governo, e ouviu‑se muito durante a campanha, que vai deixar o governo, que haverá queda do governo ou da maioria. E a pergunta é: coabitação vai‑se fazer pacificamente?
A estabilidade não depende só de mim mas tenho grandes responsabilidades e assumirei todas elas. Não faço política com ressentimento, faço política para defender ideais de acordo com os princípios e valores que norteiam o PAICV. E vou fazer absolutamente tudo o que estiver ao meu alcance para garantir a estabilidade da governação e para cumprir todos os compromissos que assumi com os cabo‑verdianos. É claro que depende também de outras instituições, depende da maioria parlamentar e vou trabalhar no sentido de estabelecermos as pontes, o diálogo, com toda a serenidade e tranquilidade. A estabilidade é um valor essencial para o país e o PAICV tem esta responsabilidade. Devemos assumi‑la plenamente.

De que é que se arrepende, nos últimos tempos, na sua vida política?
Dificilmente me arrependo do que faço. Reflicto, tomo as minhas decisões e ajo em consequência. Há umas coisas que não faria mas, em relação às presidênciais agiria da mesma forma. Só vou tomar alguns cuidados nas minhas intervenções para não introduzir frases que, quando colocadas fora do contexto, criem polémica e celeuma. Mas não me arrependo absolutamente de nada, tenho a minha consciência tranquila e continuarei a ser o mesmo José Maria Neves de sempre.

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