OPINIÃO

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Grátis, nem almoços, nem ingressos — a propósito da indignação de Manuel Alegre ante silêncio do Estado português no caso Centeno 13 Fevereiro 2018

O político Manuel Alegre em entrevista esta semana à Antena 1, rádio nacional portuguesa, expressou a sua indignação pelo silêncio das figuras de destaque do Estado perante o caso Centeno. Insurgiu-se contra as buscas ilegais feitas aos computadores dos funcionários e apontou o dedo ao "Presidente da República, Assembleia da República, Conselho Superior da Magistratura e o Ministério Público” por não terem intervindo no caso, omissão que classificou de "totalmente inadmissível".

Grátis, nem almoços, nem ingressos — a propósito da indignação de Manuel Alegre ante silêncio do Estado português no caso Centeno

Por: Luiz Cunha

O posicionamento do poeta e político, cofundador do Partido Socialista, foi a gota de água que fez transbordar o meu copo, já cheio de reprovação ante o caso Centeno. Relembro aos desatentos que no centro está o que seria um banal pedinchar de bilhetes grátis — não fosse o agente da pedinchice um ministro de Estado, com responsabilidade nas Finanças, e que teve o seu pedido satisfeito por um contribuinte em falta para com as Finanças, repita-se, o Sport Lisboa e Benfica, aliás, clube do meu coração.

A minha reprovação embora mitigada pelo "errar é humano" começou por ficar entre quatro paredes. Mas perante o teor do que diz o poeta e estadista Manuel Alegre, que ouvi esta quinta-feira a defender o que está no primeiro parágrafo, senti que tinha de pôr em perspetiva a minha reprovação da conduta do servidor público. E é nesse sentido que teço a seguinte exposição, com partida deste Paralelo-14.

Não há almoços grátis — sobretudo na res publica onde se presta contas

1975 foi um ano importante também por outro motivo: a publicação do livro em que Milton Friedman levou as teses da economia liberal ao seu expoente máximo e que viriam a ter a sua aplicação plena na década seguinte, sob Ronald Reagan.

O mundo pôde então ver a cientificização (desculpem, mas não sei dizê-lo solenemente de outro modo) dum maneirismo que a música de Cabo Verde já tinha tratado, o de que nada nos é dado, que o barato pode custar caro, que o oferecido hoje tem sempre um custo, mesmo que a fatura só venha a ser apresentada amanhã.

Esse livro, que reunia crónicas económicas que Friedman publicara sob o título "There’s no Such a Thing as Free Lunch", ficou popularizado pelo conceito central desenvolvido, expresso pelo acrónimo TINSATAFL e abreviado para ’Não há almoços grátis’.

Friedman, nobelizado em 1976, como economista cofundador da Escola de Chicago, que é a catedral mundial da liberdade económica (hoje tão abrogada pelos que atribuem todos os males à mundialização da economia), pusera em letra de forma a sua tese da liberdade económica, nesse mesmo ano da independência de Cabo Verde.

A era Reagan, iniciada em 1981, ia permitir-lhe, enquanto mentor da política económica do presidente republicano de quem se tornou o principal conselheiro, pôr em prática o conceito.

A popularização do Almoço Grátis — que não existe — é a chave mais introduzida nos debates dos últimos quarenta anos. Utilizo-a aqui para melhor expor a minha opinião sobre o caso de pedinchice que não sei se daria a Centeno o epíteto de Pedontxe, que usamos em São Vicente e Santo Antão para reprovar ao amigo tal tipo de conduta.

Pois é, não posso deixar de dizer que ele agiu mal, o senhor Mário Centeno, por mais simpatia que me inspire o ministro das Finanças português, o menino bonito do Eurogrupo (ele que, dizem os especialistas, merece todos os encómios que têm vindo a ser produzidos sobre ele).

O preço pago? Não havia necessidade! Tanto barulho à volta do pedido de bilhetes grátis.

Oxalá a sua lição sirva também para os gestores da res publica, a coisa pública — aqui e alhures, no plano nacional que se tornou global.
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Foto: Centeno recebe, em 12 janeiro, o sino que simboliza o cargo de presidente do Eurogrupo — o sino que também simboliza Santo Antão, o padroeiro da nossa ilha mais a norte celebrado a 17.

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