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Eficácia da voz de Francisco, técnicas bíblicas na comunicação política 19 Agosto 2017

Eficácia da voz de Francisco, técnicas bíblicas na comunicação política

O ritmo da fala, a cadência da voz como veículos para levar a substância à alma. Isto o meu corpo todo soube-o muito antes. Só depois li em letra redonda que havia uma biologia do conto. De conto e biologia juntos teorizou o catedrático de medicina, após passar os anos da licenciatura em letras sentado a nosso lado na faculdade.

Eu sabia sem saber que sabia, tal como os meninos que cresceram a ouvir, como eu, a voz sábia dos nossos mais antigos. Sábios, muitos deles sem nunca terem ido à escola.

Sabia, dada a experiênia de ouvinte de contos que as mulheres da minha ribeira contavam à roda de meninos sentados no terreiro duma casa sita num cutelo, a sul, ou ladeira, a norte.

Os contos escritos depois substituíram a voz da minha mãe – nós transplantados para uma cosmopolita metrópole onde tempo é dinheiro – que, instada a contar-nos, nos fez ler em livros, ora comprados em primeira ou segunda mão ora emprestados na biblioteca mais próxima.

Precisava deste preâmbulo para entrar na exposição a que dei o título acima. Tudo isto motivado pelo detalhezinho do livro que o réu levou a tribunal, como li na notícia publicada neste online (Rússia: Ministro acusado de corrupção com 2 milhões diz que é perseguido por Putin, 18/8/2017) sobre o ministro russo do desenvolvimento que perdeu a graça do rei na sua outrora pasárgada, que aqui se chama Kremlin, Moscovo, Rússia, Eurásia, terceiro planeta do sistema solar.

O motivo para esta exposição é a admiração, no sentido de que um dado sucesso nos interpela, leva-nos a reagir, primeiro emotivamente e depois vamos paulatinamente racionalizando a questão.

Admirada, pois, perguntei-me também sobre o teor da comunicação do ex-ministro agora réu em tribunal ao confessar que está a ler “O Assassinato”.

O conto escrito em 1895 tematiza as rivalidades religiosas no seio da Fé Ortodoxa. Dois primos, o asceta Matvey, que vive a sua fé livre de dogmas e guiado pela abertura e tolerância, e o rico Yakov Terekov, obsessivamente religioso, mantêm discussões acesas. A tal ponto que certo dia no calor duma divergência sobre dada questão religiosa, chegam ao confronto físico. A mulher de Yakov, Aglaya, atira uma garrafa a Matvey que, atingido na cabeça, morre. O casal é condenado. Na prisão, Yakov perde a fé. Em seguida, são degredados para a Sibéria. E é na desolação desse “inferno de gelo na Terra” que Yakov vai compreender o significado da parábola de Jesus sobre o rico que não consegue entrar no reino de Deus.

Qual a moralidade do conto? Quem tudo quer (ganância falsamente sustentada no “establishment”) tudo perde (a salvação que ensina o cristianismo)?

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