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Desabafo de um pai 03 Novembro 2017

Avançou o homem à jornalista que o entrevistara que o rapaz era por sinal um dos melhores alunos na escola onde estudava e que adoeceu subitamente e a doença foi progredindo lentamente até chegar ao estado em que hoje se encontra por falta de um tratamento adequado à patologia que sofre. Ninguém quer saber do seu caso. Creio que este facto é apenas a ponta do iceberg à semelhança de outros tantos. Como diz a musica “kau ka sta dretu nha guentis. Kuza mesti muda”.

Por: Nataniel Vicente Barbosa Silva

Desabafo de um pai

Antes de entrar exactamente no tema a que se refere o título deste artigo gostaria de fazer uma pequena abordagem à situação actual.

O grande fosso entre ricos e pobres continua a aumentar em ritmo acelerado. Assiste-se hoje de uma forma exacerbada uma verdadeira luta pela sobrevivência. O futuro não se apresenta assim tão risonho como se pode calcular. Para os cépticos o quadro é mesmo negro. O caminho é longo e espinhoso. Os altos custos de vida, o desemprego, grande disparidade salarial na classe trabalhadora, o abuso de poder, a prepotência, a ganância, a arrogância, a desonestidade, a injustiça, a falta de verdade, a falta de seriedade nos serviços administrativos e outros sectores, o nepotismo, etc. etc. Sinais que não deixam de facto muita margem para optimismo.

Enquanto os ricos e a classe protegida prosperam sem grandes esforços, os pobres, os marginalizados estão cada vez mais condenados à miséria e ao abandono.

Volto a repetir: Kau ka sta bon. A vida está cada vez mais difícil e muitos sem alguma expectativa. A situação não muda. O ano agrícola está já à vista de todos. A esse respeito tudo ficou dito no meu artigo anterior.

A época que atravessamos é sem duvida extremamente embaraçosa e dum egoísmo atroz onde cada um procura sem olhar a meios atingir fins que lhe proporcionem a si e aos seus, o bem-estar que não desejam aos outros.

A honestidade e o bom senso são palavras que quase deixaram de fazer parte do dicionário. Contudo ainda existem pessoas de bem. Pessoas conscienciosas e preocupadas com o bem-estar dos outros mas estas são apelidadas de estúpidas e pacatas perdidas no tempo.

A vida actual parece já só ter sentido quando vivida em ambiente de grandeza e ostentação onde os humildes e desprotegidos não passam de “zé-ninguém”.
Ora quando se fala da pobreza tem de se falar forçosamente da riqueza mal conseguida, quantas vezes por meios ilícitos à custa dos mais necessitados.

Desabafo de um pai

Entrando agora no tema deste artigo: Há dias ouvi pela rádio o desabafo de um senhor da ilha do Fogo que choca a sensibilidade de qualquer pessoa. Contou ele, com lágrimas nos olhos, a uma jornalista da rádio num programa da tarde o calvário que vem passando com um filho que sofre de perturbações mentais a que se viu forçado a fecha-lo num quarto a fim de evitar situações vexatórias na rua já que o filho perdeu o controlo total de si dado o avançado estado da doença. A sua inclinação visa particularmente aos vidros. Em consequência disso, vários vidros da casa dos vizinhos já foram por ele partidos de que já resultou dois processos no tribunal contra si. Avançou o homem à jornalista que o entrevistara que o rapaz era por sinal um dos melhores alunos na escola onde estudava e que adoeceu subitamente e a doença foi progredindo lentamente até chegar ao estado em que hoje se encontra por falta de um tratamento adequado à patologia que sofre. Ninguém quer saber do seu caso. Creio que este facto é apenas a ponta do iceberg à semelhança de outros tantos. Como diz a musica “kau ka sta dretu nha guentis. Kuza mesti muda”. No pequeno quarto onde o rapaz se encontra ali faz todas as suas necessidades fisiológicas como se fosse um animal na jaula com graves consequências para a saúde tanto para si como para quem o acompanhe.

Como se pode calcular é grande o sofrimento desse pai. O seu sofrimento ainda não é para menos quando sente que ninguém olhe para ele para o ajudar a sair dessa delicada situação. Muito provavelmente recebe muitas palavras de encorajamento como é prática da nossa gente. Mas, o homem precisa neste momento de acção não de belas palavras. Caso então para perguntar: Onde estão as estruturas locais? O que é que faz aí o deputado da nação do seu circulo eleitoral? Qual era o lugar adequado para um doente nessa situação? São estas as perguntas que deixo para quem de direito analisar. É comovente a declaração do homem à jornalista: que só teme se repentina vier a morte deixando o filho abandonado no estado em que se encontra.

Nas horas difíceis que precisamos justamente de ajuda. Como é particularmente o caso deste jovem entregue à sua sorte.

Termino com o meu pensamento virado aos pobres camponeses que lutam neste momento pela sobrevivência de si, da família e dos seus animais neste ano de seca. Que Deus nos proteja!

Um abraço a todos

Hasta la próxima

(Tarrafal, 16 de Outubro de 2017)

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